O Ágape


enlil,

 

Já havia a Ceia dos Cardeais, que eram só três e caducos, já havia os sete magníficos, que em boa verdade não ficaram famosos pelos almoços mas por tirarem o apetite a outros, já havia os doze apóstolos, que pouco mais provaram do que pão ázimo e azeitonas da Galileia. Pois pasmai incréus, azedai ciumentos, rasgai as vestes relapsos, que a partir de ontem transitaram para a fama os 11 do Ágape de Oeiras.

Por uma amena tarde deste inverno do nosso descontentamento, amesendaram-se o Adolfo, a Ana, a Ana Cláudia, o Fernando, a Ivone, o José, a Leonor, a Patrícia, o Pedro e a Teresa, e sobre todos eles a Helena, não a funesta de Tróia, porque bem mais semelhante à sua rival Penélope, desfiando como numa tapeçaria sempre inconclusa os fios das imensas estórias que tem para tecer. (Para mais, vide post com remate e nó da Patrícia, uns cliques abaixo).

 

 

Dos três neófitos a quem caberia um deles sujeitar-se à violenta praxe de fazer auto do sucedido, uma precaveu-se batendo em retirada antes de tempo, outra abriu muito os olhos e ninguém ousou interpelá-la, sobrando este vosso desmemoriado servo que por certo faltará à exatidão dos factos. Perdoem-lhe.

Não foi o faceto e desordeiro banquete de William Hogart de 1755, nem a frígida e calvinista libação holandesa de Cornelis Anthonisz de 1533, também escusam de imaginar que tenha tido a feição do “Banquete dos deuses” de Frans Floris de 1550. Então, o que fizeram aquelas 11 almas, além de degustar um arroz de polvo, felizmente com mais tino do que malandrice, e uns sedosos bifinhos? Pois tomaram graves decisões: a de proceder à escrita de um cadáver esquisito (melhores indicações serão dadas pela Ana em seu devido tempo) e de iniciar uma nova série colectiva com o título provisório de “delito à mesa”.

 

 

Ó turma de calões! E estiveram desde as 14h até às 17h30, só para concluir isto? Correu mal, portanto, brigaram muito, está-se mesmo a ver… Pois lamento declarar aos cépticos que redondamente se enganam. É uma velha lei da física psicológica (um ramo científico que inventei agora mesmo) segundo a qual um espírito tende para inércia quando se sente confortável. E foi isso mesmo que aconteceu: conversaram-se coisas sérias em voz amena, discutiram-se gostos com fervor, ah sim e divertimo-nos bastante, em contrapelo à sisudez dos tempos. Se tivessem lido as certeiras teses de Sartre sobre a má-fé, vislumbradas nos gestos de Pierre, o empregado de mesa do Les Deux Magots, entenderiam tudo o que não se passou.

Por mim vos digo – belíssima tarde a de ontem. Só falta agora que a gerência do plácido Sete Castelos de Oeiras coloque lápide alusiva aos pés da enorme araucária que ornamenta o pátio do restaurante. Em boa verdade também não sei se era uma araucária, mas parece bem um nome assim camiliano a dar sombra ao ilustre cenáculo. Fizeram falta os convocados ausentes para este almoço do Delito de Opinião – que venham na próxima.

28 comentários em “O Ágape”

  1. Ó Zé isto é que uma acta. Percebes que eu não faria nada que se assemelhasse. As fotos que acompanham o lado religioso e pagão do ágape foram seleccionadas com rigor e…vigor!
    Felizmente que já perdi o olhar cândido, para as apreciar sem pudor. Estou poética!

  2. Conheço uma pessoa que nunca aprovaria uma acta como esta: primeiro, porque lhe falta a data, a hora e o local exacto; depois e muito mais importante, porque se eu quiser fazer uma reunião, com o meu grupo, em lugar tão celebrado, fico a ver navios…
    Concluindo: diga à gente onde podemos fazer a nossa assembleia geral, para ver se um relato tão original e encantador tem alguma coisa a ver com o sítio, ou se isso tem mais a ver com o engenho do escriba que, contrariado, parece, meteu mãos e cabeça à obra.
    Por outras palavras, parabéns pelo seu post!

  3. Muito bem, Zé Navarro, tu é um Na(va)rrador nato! E se eu estava pálida da ‘influenza’, passei a verde de inveja. Um verde descorado, é verdade, porque afinal eu já conheço os Sete Castelos. Mas pronto: para a próxima será!

  4. … Pois à vista do resultado proponho que voltemos à mesa, já amanhã, e que o ilustríssimo autor desta ilustríssima acta seja encarregado de lhe fazer uma adenda. Grande abraço, cronista!

  5. Fiel e espirituosa crónica, Zé!
    Apesar de não ter chegado a tempo dos aperitivos, muito gostei de mais este delituoso convívio; abraço a todos, em particular à Patrícia, a ti e à Helena, que connosco fizeram a sua primeira comunhão!

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