Para se avaliar até que ponto o chamado acordo ortográfico é uma monumental trapalhada, lanço um desafio aos leitores: tentem ler este naco de prosa explicativa. E digam-me a que conclusões chegaram.
Um enigma dentro de uma charada
Pedro Correia,
Para se avaliar até que ponto o chamado acordo ortográfico é uma monumental trapalhada, lanço um desafio aos leitores: tentem ler este naco de prosa explicativa. E digam-me a que conclusões chegaram.
Da explicação propriamente dita, não entendi nada. Mas fiquei a saber que o Sr. VOLP da ABL e o Sr. VOP do ILTEC, borrifaram-se para a letra e do espírito do Acordo Ortográfico e decidiram que a excepção (do prefixo co-) passou a ser a regra.
. Dá para ver que a regra para seguir a excepção instituída pelo grafando o sufixo re- sem hífen quando seguido de elemento começado por e (ex.: reedição).
Mas o que verdadeiramente importa, na explicação, é saber que:
-as respostas são datadas e escritas segundo a ortografia da norma europeia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.
-A base do dicionário foi alterada a 1 de Abril de 2009, pelo que as referências em dúvidas anteriores a esta data podem não corresponder ao conteúdo actual.
-As respostas sobre questões ortográficas são maioritariamente baseadas na norma ortográfica portuguesa de 1945, contendo as respostas mais recentes indicações sobre a ortografia antes e depois do Acordo Ortográfico de 1990.
Enfim!!
Não defendo nem ataco o AO, recordo-me do texto em que Pessoa atacou a alteração de ortografia no seu tempo…
Por razões profissionais tenho de escrever com o AO, comecei a utilizá-lo por norma e surgiu-me precisamente problema do re- e li o que dizia o acordo e a priberam… sigo o que esta recomenda pois o corretor no meu serviço também o segue…
Quando vou a fundo na antiga ortografia encontro coisas estranhas… mas não sou linguísta, mesmo que sinta que nesta palavra a falta do trema não alterou a forma dos portugueses a lerem. Há coisas muito mais importantes com que me preocupam sobre Portugal.
Suponho que por «antiga ortografia» se refira à de Portugal de 2010 e a «moderna» será a que alguns brasileiros resolveram escolher em 1928. Será isso?
Neste caso antiga é anterior ao atual AO, não falei em moderna.
Não estava enganado então, a antiga é a de Portugal de 2012 (aquela em que Saramago obteve o Nobel da Literatura) e aquilo a que chama “actual” seria a brasileira dos anos vinte e trinta do século passado.
A evolução do português seria uma involução de 80 anos…
Convém sabermos do que estamos a falar.
A Priberam considera que Acordo Ortográfico estabelece que palavras como “reedição” deveriam passar a ser escritas “re-edição”
O ILTEC que definiu o VOP que foi recentemente adoptado pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 8/2011, publicada em 25 de Janeiro de 2011 no Diário da República n.º 17, I Série, pág. 488, seguiu a mesma interpretação da ABL(Academia Brasileira de Letras) relativamente a este tema da grafia de “reedição”.
A Priberam mantém a sua interpretação mas desde a data em que o VOP passou a ser indicado nesta resolução como uma obra lexicográfica de referência em Portugal, nomeadamente no ensino, a partir do ano lectivo de 2011/2012, passou a considerar que o VOP tem mais força que o Acordo Ortográfico, tratado internacional assinado por Portugal.
Parece-me que o tal naco de prosa é, dentro do estilo, bem legível.
A conclusão, a partir do texto, é simples: nesta trapalahada em concreto, o Acordo Ortográfico é inocente.
Resuma-se a explicação:
Perante a dúvida colocada, constata-se que a norma do Acordo Ortográfico é clara e inequívoca.
Constata-se também que os intérpretes oficiais brasileiros decidiram acolher uma excepção que, para além de não estar prevista, contraria o próprio Acordo.
Constata-se ainda que os portugueses acharam por bem aderir à interpretação dos brasileiros.
Constata-se, por fim, que a Priberam se dá por vencida mas não convencida.
A única justificação dada para furar o Acordo tem que ver com a tradição. Tal argumento será aceitável em casos em que o Acordo seja omisso ou pouco claro; mas não pode ser invocado para matérias explicitamente reguladas pelo Acordo, sob pena de o esvaziar de sentido e de autoridade.
Ora vamos lá ser um bocadinho sérios: quem considere que o «acordo» é legítimo e está em vigor (o que não é o meu caso) apenas pode escrever re-escrever e re-eleição.
O «acordo» é um tratado. Isto é, uma lei. E dado o primado do direito internacional em Portugal não é o iltec (um organismo privado) ou um decreto governamental que o pode alterar.
As regras a aplicar para a interpretação são as do artº 9º do Código Civil. E perante isto : base XVI, 1.º, alínea b): “uniformiza-se o não emprego do hífen, do modo seguinte: (…) Nos casos em que o prefixo ou o pseudoprefixo termina em vogal e o segundo elemento começa por vogal diferente daquela, as duas formas aglutinam-se, sem hífen”
-> Aplica-se isto:
«ARTIGO 9º
(Interpretação da lei)
1. A interpretação não deve cingir-se
à letra da lei, mas reconstituir a
partir dos textos o pensamento
legislativo (…)
MAS
2. –> Não pode, porém, ser considerado
pelo intérprete o pensamento
legislativo que não tenha na letra da
lei um mínimo de correspondência
verbal, ainda que imperfeitamente
expresso.»
O que não existe para abrir excepções para o re como prfixo de palavras que começam pela mesmo letra e que, por isso, não se aglutinam….
E não se pode presumir que o legislador não se soube exprimir.
[Apesar do texto do tratado conter calinadas [no Ponto 7 na «nota explicativa escreve-se “insersão” (sic!) por inserção por intersão], devemos respeitar a presunção estabelecida abaixo:
3. Na fixação do sentido e alcance
da lei, o intérprete presumirá que o
legislador consagrou as soluções
mais acertadas e soube exprimir o
seu pensamento em termos
adequados.
É mesmo re-escrever.
Interessante, antes de entrar ler este «post» tinha lido isto http://www.independent.co.uk/opinion/com mentators/susie-dent-chopsing-or-jaffock ing-why-brits-are-thrilled-by-wordplay-7 174369.html
Lá também se fala da língua e mconstante mutação, mas talvez por a Grã-bretanha não possuir a pujança intelectual do Brasil ou de Portugal, não se refere nessa constante mudança a da ortografia.
O que assusta é a forma como o Direito quer invadir o último espaço de liberdade que ainda possuímos. Quem olha para a forma subserviente daquelas tentativas de interpretar uma “Base não sei quantos”, comparando artigos e sub-secções com as devidas excepções não pode deixar de ficar horrorizado pela forma como alguns burocratas gostam de meter a pata em tudo. Não tarda haverá um batalhão de 50 advogados avençados para perorar e fazer relatórios sobre litígios linguísticos e resta saber, mesmo, quando será criada uma Autoridade Sanitária para as Actividades Linguísticas, presidida por uma criatura parecida com aquele tal de Lavoura que costuma aparecer por aqui?
Um acordo ou reforma ortográfica que convoque o direito é grotesca, mas o direito não pode patrocionar abusos legais e pode ajudar a vermo-nos livres desta monstruosidade.
Claro que sim. Peço desculpa se o que escrevi transmite alguma ideia de anarquia. Eu não tenho nada contra o Direito nem contra a Lei – tenho sim contra a demência legislativa. Podia deixar aqui alguns exemplos, mas estaríamos a desviar-nos em demasia do assunto em questão.
Acabo de ouvir Marcelo Rebelo de Sousa (que é contra) dizer que seria difícil agora explicar que mudámos de ideias depois de 3 PR’s e 3 PM’s o terem defendido e os partidos o terem votado na Assembleia. E fiquei banzado como MRS considera que partidos políticos têm alguma autoridade sobre coisas destas. É disso que estou a falar. Dos abusos da política. Agora temos de escrever como uns efémeros partidos políticos que se movem por todas as razões menos as boas acham que devemos escrever? Tenham juízo.
«Corruptissima republica plurimae leges»
O MRS foi irresponsável. Ele não sabe que não houve qualquer discussão digna desse nome? Felizmente, a posição de Angola estilhaçam as posições malqueiras e bechianas que parecem considerar as outras nações de língua portuguesa como se fossem paisagem.
Estas cousas de accordos fazem-me confusão…
Quando estudei a 4ª classe do ensino official público ( mal o conffesso)escreviamos Farmácia com PH Pharmacia… será que houvera alguma accordo ortografico posteror?
Desculpem-me a ignorancia
Obbgdo
Depende de onde fez o ensino básico. Se, por exemplo, andou na escola em Inglaterra, nos Estados Unidos ou em França ensinaram-lhe a escrever pharmacy ou pharmacie e não se preocupe que não mudou nada.
São países atrasados, uma pobre gente que não «evolui».
Já se andou na escola em Portugal, o que não falta, além de ditaduras e miséria, são mudanças ortográficas. Em 1911 um governo ditatorial fez uma. Depois, o salazarismo fez duas de conluio com os governos ditatoriais fascistas do Brasil.
Não deram muito resultado, porque Portugal tem 20% de analfabetos e o Brasil 75%, mas é giro fazer decretos e ficou-nos este tique das ditaduras.
Mas não se preocupe muito, que o tempo em que a Língua Portuguesa era entretém de «académicos» luso-brasileiros, de monóculo polainas e muita caspa, já lá vai.
“Depende de onde fez o ensino básico. Se, por exemplo, andou na escola em Inglaterra, nos Estados Unidos ou em França ensinaram-lhe a escrever pharmacy ou pharmacie e não se preocupe que não mudou nada.
São países atrasados, uma pobre gente que não «evolui».”
Tem toda a razão: países atrasados, esses. Ao contrário de nós, que somos um farol de cultura.
Tenho o FLIP instalado no meu computador, é um instrumento utilíssimo. Mas desactivei o corrector ortográfico que se propunha “traduzir-me” o que escrevo para acordês. Era o que faltava, ainda não chegámos à Madeira.
Temos de fazer mais barulho, senão o pessoal esquece-se.