Modo de Vida (29)


Adolfo Mesquita Nunes,

Não sei escrever sobre a morte. Não falo da morte oficial. Falo daquela que se instala devagar, sem ninguém ver, e depois se vai revelando sem que alguém a possa registar. Dito de outra forma: não sei escrever sobre a morte que é morte antes de ser morte. Sei que essa morte tem outros nomes, mas nenhum desses nomes consegue ser tão preciso quanto a palavra morte. Porque há de facto quem morra antes de morrer. Quem se apague, e nos apague, sem querer e sem saber. E é sobre isso que eu, querendo, não sei escrever.    

8 comentários em “Modo de Vida (29)”

  1. Nada mais há acrescentar ao que tu dizes. Ninguém sabe descrever o que é morrer aos poucos. Ou porque a doença se instalou lenta mas persistente, ou porque se deixou de ter vontade de viver.
    Para mim, esse estado de morrer antes de morrer, é o que de pior nos pode acontecer. Não tem cura nem diagnóstico preliminar.

      1. Ui! Tocaste num outro lado da questão. Que me fez lembrar alguns casais que conheço. De facto, já foram vivos, mas ao fim de muitos anos de convivência, ficaram apenas os corpos, e esses, sim, cumprem o sagrado ritual do quotidiano.
        Tragédia maior se um deles está vivo, mas o outro não. É a viuvez de alguém que está vivo…

  2. Sei muito bem do que falas, Adolfo. O lento, progressivo, inexorável mergulho no esquecimento, na apatia, no declínio, na escuridão. A face da morte bem visível antes da morte. E como isso dói até ao mais fundo de nós.
    Um abraço.

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