O adeus às lojas


Ana Lima,

Todos nós já sabemos da alteração significativa, operada no tecido comercial das nossas cidades, nas últimas décadas. Mas a inevitabilidade das mudanças não nos deixa mais tranquilos quando percebemos que é a nossa memória que está em causa. Ontem uma livraria. Hoje uma ourivesaria. Amanhã será o quê?

16 comentários em “O adeus às lojas”

  1. Se a Leonor tivesse vivido numa cidade dos EUA, como eu, perceberia que não vale a pena ter memória de lojas.
    É que as lojas, nos EUA, mudam e desaparecem com uma velocidade espantosa. No espaço de uma semana, uma loja que nós sempre vimos num sítio desaparece completamente e dá lugar a uma outra, de um ramo totalmente diferente.
    O capitalismo é uma destruição criativa. Mas cá em Portugal, com o nosso conservadorismo atávico, não estamos habituados a aceitar isso.

    1. Não sou a Leonor mas vou responder-lhe na mesma. Temos uma visão completamente diferente desta questão. Para mim, vale a pena ter memória de tudo (lojas incluídas). E o que chama depreciativamente de conservadorismo atávico é para mim uma manifestação de inteligência. Ignorar e querer ou deixar destruir património é uma atitude que se provou já ter péssimos efeitos, seja qual for o ponto de vista que se adopte. Claro que não podemos confundir lojas que abrem hoje e fecham amanhã e que são iguais aqui, em França, na Índia ou nos EUA (sejam ou não em modelo de franchising) com aquelas que, pelo seu valor patrimonial construído ou imaterial, constituem objectos únicos e por isso valiosos económica e socialmente. E estas duas de que falei aqui têm esse valor. Se o capitalismo não entender que o património é capital não é verdadeiro capitalismo (se é que tal coisa existe).

  2. Não há nada de inevitável no fecho do comércio tradicional. O Luis Lavoura fala dos EUA, mas tanto lá como cá, as grandes superfícies e os centros comerciais foram depredando o comércio de rua. E isso tem que ver com leis municipais e ordenamento do território, o que não são coisas sobre as quais não possamos agir, havendo a vontade.
    Já lojas que abrem e fecham, também cá como lá sempre houve. E lá como cá, umas deixam saudades outras não.

    1. Não podemos, efectivamente, pôr tudo no mesmo saco. E a forma de lidar com as situações só poderá ser a mesma quando essas situações forem idênticas. E não são.

  3. Cada vez mais socialismo cada vez mais destruição.
    E a senhora que vende a ourivesaria é um bom retrato disso. Quer controlar a propriedade dos outros.

    Resta menos de uma dezena de empresas da Bolsa de Wall Street de há 100 anos.

    1. As preocupações da sócia-gerente da ourivesaria parecem-me bastante louváveis. Assim sejam acompanhadas por quem será o promotor das obras e por quem as fiscalizará. É que há propriedades particulares que, pelas suas características, são um pouco de todos nós e quem é responsável por elas deverá ter isso em conta nas intervenções.

  4. Cara Ana Lima,
    Não podíamos estar mais de acordo quanto a essa perda do nosso património colectivo a que assistimos, infelizmente, quase diariamente. E pouco mais haverá a acrescentar porque as respostas dadas a certos comentários são mais que esclarecedoras. Um povo sem passado é um povo sem futuro.
    Apeteceu-me escrever um comentário mais em resposta a outros que os fizeram também e que me deixaram perplexo. Fiquei na dúvida se para alguns dos nossos concidadãos o património é uma coisa que não existe. A questão que se me colocou é se os exemplos em causa eram, a seu ver, apenas banais, por se tratarem de meros estabelecimentos comerciais, portanto inseríveis numa lógica de coisa descartável, pelo que se aceitava a voragem a que a sociedade do desperdício a que o capitalismo selvagem nos habituou, ou se isso se aplicava a tudo o mais. É que não percebi o que é para esses senhores património e se a memória colectiva faz parte dele.
    Curioso é o exemplo dado, já que um povo sem memória colectiva é a antítese do povo americano que gasta fortunas a preservá-la.
    Existe nos EUA toda uma rede de organizações de defesa do património, só que não são do Estado, mas sim de iniciativa privada. Toda uma outra cultura já, portanto, contrária à tradição europeia democrática, cuja responsabilidade recai nos governos, enquanto representantes do povo. Acresce que nos EUA, proporcionalmente, as classes ricas pagam muito poucos impostos, pelo que as obras de beneficência funcionam como elementos de prestígio social e dinamizadores da cultura local. Para além disso, há toda uma tradição de entreajuda comunitária, muito forte, num país em que o papel do Estado sempre foi fraco. Outra história, outra cultura, portanto, outras memórias.
    Se os norte-americanos destroem tudo, como afirma um dos comentaristas, então como justifica ele a ânsia que os mesmos têm de comprar objectos e mesmo decorações de interiores inteiras para as suas colecções? E o que dizer do “saque” das obras de arte e de edifícios europeus (castelos, conventos, etc.) que enchem hoje os museus norte-americanos? Não será esta uma necessidade de preservação de toda uma memória colectiva civilizacional, a que, apesar das diferenças, sentem que pertencem e que está em risco de se perder?
    Que dizer do cuidado para com a arquitectura nacional americana, que são, para nós, os recentíssimos edifícios dos anos 30, como o Empire State ou o Chrysler, só para dar alguns exemplos? Se calhar preservam mais património que nós, porque têm a consciência de estar a legar uma herança ao futuro.
    Para terminar, não é esta a questão fulcral na guerra que hoje se trava entre republicanos e democratas? O que é que os senhores que andaram pelos EUA viram ou perceberam?

  5. A Livraria Portugal têm (tinha) o que noutro lado não se encontrava. Não só nos livros, mas também no atendimento. Tinha o que outras não tinham, porque não se regia pelos critérios de um hipermercado ou de uma área de serviço. No que me respeita, era onde podia encontar livros de arqueologia que não apareciam em mais lado nenhum e onde podia ter os meus à venda.
    Naturalmente noutros países, menos atávicos, estas preciosidades não têm futuro. Por isso mesmo, por cá, as consideramos preciosidades. E eles, quando vêm cá, também. Noutros países, talvez mais habituados às tempestades tropicais , é fácil aceitar a morte e o esquecimento (que é o que significa a perda de memória). Por cá, país de gente atávica, mas ainda assim ciente do que valoriza, a perda de marcos identitários é sentida e considerada relevante.
    Que gente morra e gente nasça, é uma banalidade. Como banalidade é que empresas morram e outras apareçam. Mas será que é assim tão difícil entender que, no meio dessa fluidez, necessitamos de referências? E que essas referências desempenham um papel estruturante nas nossas identiades? Que todos nós necessitamos de âncoras?
    Por mim diria que, embora seja favorável a um apoio médico e social, não devemos prestar muita atenção aos que revelam incapacidade de entender a função estruturante dos agentes de identidade.
    Há jogadores que chegam, outros que vão e outros voltam. Tudo muito fluido. Mas que é que isto tem a ver com um Eusébio?

    1. Deve haver lugar para tudo. Para a abertura e fecho de lojas de um dia para o outro e para a manutenção, durante todo o tempo possível, de outras. É a diversidade de situações que faz sentido. E até os critérios subjectivos poderão ser questionados: a questão de saber o que consideramos ou não património a preservar, que, no caso dos estabelecimentos comerciais, se coloca com frequência. O que não pode acontecer é abrir caminho à destruição cega, sacrificando tudo a meros ganhos económicos imediatos. Até porque os ganhos económicos a longo prazo serão, com certeza, muito maiores. O Eusébio continua a conseguir ganhar e dar dinheiro a ganhar. 🙂

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