Pessoal e transmissível


cronicasnofeminino,

A vida corria pacífica na minha escola azul-cueca, tão pacífica quanto é possível numa escola. O povo andava discretamente às turras com a tal de avaliação de professores, aqui e ali irritado com o frio nas salas, lamuriando-se entre as sopas e as lasanhas de hora de almoço pela ausência de subsídios, assunto que por esta altura já atingiu o estatuto de clássico, maldizendo as reuniões, não conheço uma única alma que goste de reuniões, acotovelando-se na miserável sala de professores que nos caiu em sorte como presente da escola intervencionada, até que um dia tudo mudou. Deixámos de ter Direcção, o Director desapareceu, as actas ausentaram-se para não mais voltar, o pobre Janeiro, Fevereiro e Março e restantes meses foram despromovidos, os contactos e acções de formação já eram e até os Directores de Turma sentiam que lhes faltava algo. Uma insignificância, mas faltava alguma coisa muitas vezes abordada nas conversas de circunstância, entre as justificações de faltas e o atendimento dos encarregados de educação Parece-me que me falta alguma coisa. Estou com esta sensação mas não sei muito bem o que é e a resposta Acontece-me o mesmo, até já fui procurar à carteira. Vê melhor nos bolsos, pode ser que lá esteja. 

Não se pense contudo que houve festas e foguetes pelas ausências e que o povo saiu ufano em manifestações de júbilo. Uma vida sem actas pode ser o sétimo céu para muitos de nós, tenho a certeza de que certos Directores não farão muita falta, os contactos são cada vez mais dispensáveis nos dias que correm, o e-mail é o melhor amigo do homem contemporâneo e acções de formação são agora apenas para quem as pode pagar. Para muito poucos portanto. Acontece como se vê que foram todos substituídos: o Director pelo diretor, a Direcção pela direção, as actas pelas atas, ou desatas, as Acções pelas ações, os pobrezinhos de Janeiro, Fevereiro e Março por janeiro, fevereiro e março e os contactos pelos contatos. Neste fervor acordoortografês houve até uma Acção de Formação e o povo obedece temente às ordens do grande e único Ministério da Educação.

Acontece também que não é só na cozinha que sou uma transgressora. Podemos explicá-lo pelos astros, os Gémeos gostam de liberdade e não suportam imposições sem que elas sejam devidamente consubstanciadas e justificadas, ou então não e a frase anterior justificará apenas a natureza desta vossa escriba. Terá sido por isso que quando um dia destes tive de enviar um e-mail optei convictamente pela escrita que conheço e aquela em que me sinto em casa. Não houve selecionar nem diretores nem janeiro. E agora, o que me vão fazer? Baixam-me a avaliação? De tanto medo já caí da cadeira e pus-me a prozac. Põem-me na rua? Nunca se sabe. Uma coisa eu sei. Enquanto puder, presumo por algum tempo e enquanto me apetecer, escreverei no português que me apetece: o meu. Aquilo não é o meu português.

 

Inspirado pelo nosso João Carvalho aqui.

21 comentários em “Pessoal e transmissível”

  1. ” de uma coisa eu sei, … …, escreverei no português
    que me apetece: o nosso!!
    ( se o meu cérebro deixar… )
    Bravo Leonor!, gosto muito de ler o que escreve.
    Beijinho

  2. Bravo!
    Se a tentarem prejudicar, estado em tribunal. Nos de cá e nos lá de fora, onde o estado português está habituado a ser condenado – infelizmente a nossas expensas.

  3. Há dias vi professores na Alemanha nazi que tinham de ensinar às crianças que um deficiente custava mais dinheiro ao estado do que um aluno normal.
    Houve quem se recusasse a fazer isso e houve quem achasse que era a mera explicação de um facto.

      1. O exemplo serve para nos fazer reflectir sobre o princípio: deve o professor abdicar de transmitir o saber para fazer fretes aos governos?
        Como pode um professor aplicar o «acordo» quando o único documento científico oficial do Ministério, aprovado pela Direcção-Geral do Ensino Básico e Secundário, se pronuncia contra?

  4. Sr.ª D. Leonor Barros
    A senhora escreve tão bem, num português tão fluente e elegante, que lhe importa a grafia? A ortografia é apenas um conjunto de regras para que todos nos entendamos. Ao contrário do que diz o Sr. João Carvalho, a ortografia não faz parte da linguística. A fonética muda constantemente, a grafia deve acompanhá-la. Toda a vida dei erros – a minha mulher, que era professora de português, era quem me corrigia as cartas – mas sempre me disseram que escrevia bem… e não foi só a minha avó!

    1. 1- Está a confundir ortografia com transcrição fonética.
      2- A ortografia faz parte da línguistica!
      Está a dizer coisas sem nexo.
      3- E a contradição do que diz é evidente: se a ortografia é tão pouca coisa, para quê tanto esforço em celebrar tratados e em em impor o que ninguém quer?

      1. Acredito que esteja a dizer disparates, é uma área que não domino. Opino apenas por sensibilidade. Já o senhor abusa quando diz que “ninguém quer”. Eu quero e a maioria das pessoas com quem convivo querem ou é-lhes indiferente.
        Já agora, porque escreveu “quer” e não “quere” ? Era assim que se escrevia no meu tempo! A primeira forma só se usava como conjunção, não como forma do verbo querer. Aqui é que eu acho que é mau português.

  5. Contacto, mesmo para um acordista, seria contacto já que em Portugal se pronuncia o “c”.
    A ocorrência do erro serve, no entanto, para provar a devastação que a tentativa de imposição do «acordo» traz ao nosso português que estava perfeitamente estabilizado e assimilado.
    Relembro que a decisão de impor o acordo é meramente política, como é confessado pelo malaca casteleiro.
    Todos os pareceres oficiais são contrários ao «acordo» nunca tendo sido dada qualquer explicação para o facto de não terem sido seguidos nem acatados pelo governo.

  6. Muito bem! Leonor, a nossa padeira de Aljubarrota! 🙂
    Agora a sério: eu não sou professora, é-me muito mais fácil resistir ao acordo. Percebo o dilema de quem oscila entre as suas convicções e o conhecimento de que pode prejudicar os resultados dos alunos… não queria estar na pele dos professores de português neste momento.

    1. De vez em quando dá-me 🙂
      Em relação aos alunos não há alternativa. Se eu fosse professora de Português explicar-lhes-ia porque não concordo mas não há qualquer dúvida de que os ensinaria. Podem ser penalizados nos exames, não sei se entra em vigor já este ano, e nunca poria em perigo o futuro dos meus alunos por uma convicção própria.

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