Bad bed


Patrícia Reis,

Havia uma clara expectativa acerca da nova aluna. O facto de ser francesa e da fotografia tipo passe apresentar um rosto límpido e loiro sob o nome Camille motivou o alarido adolescente. Numa mesquinha mesa faziam-se apostas sobre quanto tempo é que ele ia demorar a tê-la. Era o único que se mostrava indiferente à chegada gaulesa.

 

Após a semana de adaptação e nenhuma iniciativa registada, Camille começou a observá-lo. Estavam numa aula da professora que declarava orgulhosamente a sua avançada idade contrastante com o belo traseiro que envergava. Era de poucas palavras e aí Camille culpava o sono constante, mesmo que as profundas olheiras não lhe afectassem o sorriso vago. Além de não dormir, também pouco comia. Tudo isto a intrigava. Porquê? Qual a razão pela qual os lânguidos olhos se afogavam quando liam poemas de amor, porque virava a cara nos filmes românticos ou se debatia interiormente contra todo o idealismo passional da literatura?

Era baixinho para a idade, com umas pestanas enormes e uma sombra em cima dos lábios descuidados a que não se podia chamar bigode. Aparentemente, toda a moça com um palmo de cara tinha uma historiazinha com o ruivo. Inventada ou não. E qual o motivo para cada vez que o via na noite, ainda isolado, se embebedava com tanta violência?

 Mergulhada na curiosidade, encostou a perna gaulesa ao muro junto ao rio e dividiram uma garrafa de algo barato. Ao fim de três goles, Camille já precisava de se encostar ao desejado ombro ossudo. Beijaram-se e da boca dele não mais se ouviu uma palavra para ela. O mito era verdadeiro, o cavalheiro de fogo nunca usava perfume.

Depois de ouvir um provençal raspanete quando chegou a casa, Camille pediu um desejo, caindo nos lençóis. “Quero ver o que ele pensa num dia”

O milagre realizou-se. Quando a expressão dele se contorceu ao ouvir os versos apaixonados de Garrett, torturado pela memória, afinal, a menina de Lyon descobriu.

Os cantos do sonho desfocaram e Camille viu uns caracóis despreocupados invés do estóico corte curto. Estava frio, pelos vistos. Tanto ele, quanto ela se encontravam agasalhados. O rapaz estava menos magro, aspecto saudável,  a pele em torno dos olhos âmbar já não estava manchada pela tristeza e calçava uns sapatos de vela elegantes. Lanchavam numa esplanada e ele ia na terceira empada. Camille percebeu que se tinha esquecido de olhar para ela. Tinha um ar doce provocado pelas feições risonhas e sinceras. Estava frio, mas a felicidade dela iluminava-o e aquecia-os. Bebia leite com chocolate.

O punho do aluno contraiu e ela teve acesso a outra lembrança. Passeavam num jardim e conseguia ouvir um piano alegre. A entoação grave que a tal professora elogiava nas declamações outrora fora um tom livre e alegre. Camille quase que se sentiu mal por estar a vasculhar no passado dele.

 – Onde nos casamos?

 – Na igreja, claro.

 – Já escolheste o nome para as crianças?

 – Temos que saber quantas são primeiro!

 – Duas. Estamos em crise e prefiro números pares.

 – E a lua-de-mel?

 – Não sei… se arranjares uma mistura entre campo, cidade e praia seria perfeito.

Ouviu-se uma moeda cair no chão da sala de aula. De imediato surgiu a imagem de um jantar e o tilintar de alguns euros para a gorjeta.

 – Nem penses que vais pagar.

 – Ai vou vou.

 – Dividimos!

 – Nope, uma senhora não toca na conta.

O dia acabou e o desejo também.

Todo o corredor gritava de excitação. A escola preparava a festa de início de ano. Camille correu atrás dele em direcção às escadas. As lentas passadas de ganga desciam a escadaria monótona. Os gémeos chineses carregavam em conjunto um balde de tinta para um painel gigante. A sorte quis que um dos Chan tropeçasse naquele degrau. O destino quis que a tampa estivesse mal selada. O apaixonado levou com tinta vermelha em cima e cegou. O instinto trocista foi breve e apenas Camille se encontrava ali para o ajudar. Ele não tremeu nem se moveu. Apenas disse:

 – Não vejo. – E ergueu-se banhado pela cor do sangue

Ela insistiu em ir na ambulância e, enquanto percorriam o caminho até ao hospital, Camille suspeitou detectar uma esplanada familiar escondida atrás de um sobreiro.

Os químicos tinham-lhe danificado a retina e não via nada. Por persistência da mãe do rapaz, Camille fora convidada para o jantar dois dias depois.

Ele tinha um irmão mais novo. Totalmente o oposto dele. Engraçado e bem-disposto. Ele comia o miolo, o irmão a côdea. Ele preferia a gema, o irmão a clara. Ele bebia ice tea, o irmão coca-cola. Ele pediu bife de vaca, o irmão hamburger de frango.

A austera mãe loira, assustadoramente famosa como pivô televisiva, e o pai careca, comandante da TAP. O tal progenitor contou uma piada acerca de um serviço de natal em que dissera ao microfone no avião: “Oh Oh Oh, no Ladies and Gentleman, this is not Santa Claus, it´s just your captain speaking”. O rapaz escondeu a expressão de quem já ouvira a piada dez mil vezes.

Quando subiram para o quarto dele, Camille mirou a camada de pó assente no piano.

 – Toca, Gabriel. Toca para mim. – Ele ajeitou os óculos escuros, pousou a bengala, ascendeu para o assento estofado e abriu o instrumento. Desesperado, começou à procura das notas, apalpando as teclas, mas não encontrava a melodia que procurava. Apenas via a cara dela.

 – Tu sabes o meu segredo

Camille abraçou o rapaz ruivo e chorou também.

 

13 comentários em “Bad bed”

  1. Patrícia, como mulheres de letras, incentive-o, apoie-o, dê-lhe dicas. Deve conhecer as inseguranças de quem escreve como poucos. Quem mais qualificado para apoiar um jovem talento?

    1. Fernando, como bom rapaz de 16 anos, a mãe serve para muito, mas tem de aprender a respeitar o espaço da criatura. As bases estão lá, acho eu. Passei anos a ler os clássicos, a corrigir o português, a dizer: lê este que é bom ou vê o filme, mas lê o livro. Nunca deixes de escrever. Depois, com a idade, o adolescente é do mundo e eu sou apenas um corrimão. Ele pode apoiar-se, debruçar-se ou deixar-me estar. No que respeita os seus textos, de momento, tenho de me deixar estar. Não mo veio mostrar. Fui ao blog e dei de caras com este, como com outros que já tinha lido, e pensei: irra, aos 16? Não fiz qualquer comentário. Se mo pedir, farei. Há um tempo para tudo: tirar as pedras do caminho, ensinar a contornar as pedras e vê-lo a carregar as mesmas para a beira da estrada. Estamos nesta última fase. Um dia mudará? Sim. Acho que sim. Escreve histórias desde sempre, desde que sabe escrever e, nisso, é parecido comigo, no entanto é – e será sempre – alguém diferente e precisa do seu espaço. Isto parece um tratado de psicologia materna, acredite que não o é:) A maioria das coisas na maternidade são, para mim, intuitivas. Um beijo e bom domingo

      1. Percebo que esteja orgulhosa, percebo que o A. esteja entre o orgulho e o pânico.
        É um tenteio literário e é interessante.
        Há apenas um meio de escrever bem: é ler. Muito Camilo, muito Eça, Tchekov, Wilde, muita Agustina, muito Nabokov, Salinger, o Hemingway das laboriosas redacções dos contos e não ligar muito. Indispensável ainda, Shakespeare ou poesia chinesa clássica, para ensinar a contenção e a abstracção – Emily Dickinson, também. Não queremos «juicy things» ou elaborações pitorescas a viver da cor local: «O artista morreu ferido pelo pitoresco».
        Não era desinteressante a leitura da 1ª página da RTL, assim como o Finnegans Wake.
        Com esta idade, seria bom afinar o cepticismo – que aos 16 anos é fisiológico – com Montaigne e Cioran.
        Para ensinar os rigores da contenção Emily Dickinson, Sophia, poesia clássica chinesa.
        Se estes livros (10, não é muito) estivessem numa estante próxima seria muito interessante.
        Isto tudo é muito português, ninguém pediu sugestões. Creio que é a versão nética do mirone sentencioso.

      2. Patrícia, tem toda a razão. Eu, pai-galinha, tendo a ser hiper-protector. A sua metáfora do corrimão é magnífica. Curvo-me humildemente perante esta “lição” de parentalidade.

  2. Pois é, se escreve assim aos 16… tens razões para estar orgulhosa e sim, estás tramada. Não podes interferir muito e espero que ele não venha aqui espreitar, ou vai sobrar para ti…
    Acho graça que ele veja a mãe da sua história como uma “austera mãe loira, assustadoramente famosa”. Há sempre na ficção alguma coisa que nos trai, não é? 🙂
    Mas há expressões e imagens nesta história que são verdadeiramente literárias e muito expressivas: “lentas passadas de ganga”, “olhos que se afogam”, “cantos do sonho que desfocam”. O rapazinho tem futuro, minha querida. Ou não tem, neste país de difícil convívio com o sucesso dos outros… mas não há como fugir a uma vocação. Enfim, parabéns!

    1. Lamento Ana, a mãe austera e assustadora era a Judite Sousa ahah só me deixo trair pela ficção porque, tal como o meu petit passionnés, também eu levei com o clichê do coração partido. Viciei-me na escrita terapêutica e acho que as ficções acabam por ser desabafos secretos. Uma pequena confidência: há textos que tenho que escrever na primeira pessoa e depois passar para a terceira e pintar o cabelo de outra cor 🙂 Um beijinho a todos e obrigado pelo apoio (especialmente à mamã que de austera e assustadora não tem nada)

      1. Ups! E não é que ele veio mesmo espreitar? Mas assim posso dar-lhe os parabéns directamente, porque bem os merece.

        A Judite de Sousa? Loooooool.

        E agora a sério: Sebastião, aconteça o que acontecer não deixes de escrever, seja na primeira, na terceira ou na décima quinta pessoa. Não sei se todas as ficções acabam por ser desabafos secretos, mas escrever é sempre terapêutico, mesmo quando nos mata. E, já agora, o “assustadora” do teu texto tem que ver com a fama, não com a austeridade… a tua mãe não assusta ninguém, pelo contrário. 🙂

  3. Bom, o orgulho pode ser evidente, eu sei, e compreensível e lamechas e agradeço as vossas palavras e a forma atenta como se surpreenderam, tanto quanto eu (tens tanta razão, Ana!). Todos os livros sugeridos existem aqui por casa. Não estou muito ralada com o que lê, por ser um leitor compulsivo e sem preconceitos. Talvez a poesia seja agora um princípio, mas nunca se sabe. Prefiro ser o corrimão (e nada de cumprimentos, estamos entre amigos, as metáforas são para serem usadas e abusadas) e deixar que tudo vá, que faça o seu caminho. Há uns anos encontrei, por mero acaso, umas fotos minhas, a preto e branco, devo ter sete anos ou coisa que o valha. Estou numa cama a escrever exactamente na mesma posição em que escrevo hoje. Aquela menina da fotografia que sou eu ou outra, pouco importa, já era alguém que queria escrever. O mesmo sucede com o Sebastião, de certa forma, e o melhor que tenho a fazer, já que a criatura está no auge da sua adolescência, é ver, estar e ver. Fico contente? Sim. Como todas as mães e pais (galinhas ou galos, tanto faz). Um bom resto de domingo:)

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