Andreas Gursky, 2005
Decorre desde ontem à noite e até segunda feira mais uma jornada do maior espectáculo do mundo.
Da margem do Atlântico (Benfica vs. Gil Vicente, amanhã, às 20H15) até Gaziantep, nos confins da Anatolia, na fronteira com a Síria (Gaziantepspor vs. Mersin, ontem à noite), cerca de 2 milhões de pessoas irão despender duas horas da sua vida a gritar, saltar, vaiar e aclamar as suas cores num estádio de futebol. No mínimo, dez vezes mais pessoas, por esse mundo fora, irão fazer o mesmo diante de televisor. Se já estivéssemos em Março, este formidável perímetro estender-se-ia até até Tomsk, na Sibéria, a 8349 km e 7 fusos horários de Lisboa.
Nenhum outro espectáculo move e comove tanta gente em tão curto espaço de tempo, tão regularmente. O futebol é circo. E é bom que assim seja, tanto melhor quanto mais o pão escasseia ou está em causa.
Fomos afeiçoados a crivar o entretenimento como torpe, assimilando-o à ideia de “alienação” da velha mecânica hegeliana, um conceito que venceu nos anos 60 e 70 do século passado, e hoje predomina no senso comum. Considera-se indiscutível haver mais seriedade na sisudez e é tão respeitável uma pessoa grave e “crítica” quanto desconsiderado alguém que se entusiasme, nem que seja por um momento, com frioleiras. Esta disposição intelectual, que em nenhuma circunstância admite interrogar-se como judicativa e irreflectida, repudia atribuir ao entretenimento qualquer categoria conceptual. O cinema, por exemplo, só transpõe as portas da Academia ou emoldurado na fileira das artes ou vergastado como fenómeno mediático. E no entanto ele é visto e vivido (consumido, dirão pejorativamente) pela enorme maior parte dos seus apreciadores como puro e simples entretenimento.
Pior, pois, que o cinema, porque mais irrecuperável, está o futebol e mesmo com a sua recente gentrificação, ele nunca deixou de ser um guilty pleasure.
Ora é nos momentos de maior aflição e privações que o entretenimento mais falta faz. Não para nos perder dos trabalhos que temos pela frente ou para nos esquecermos do que nos cabe ser responsáveis, mas para nos adoçar um pouco mais a passagem pelo vale de lágrimas. Para termos uma vida um pouquinho melhor.


Completamente sem-vergonha, quando não posso estádio, aceito até o futebol na tv. E quem não costuma rir-se, especialmente de si mesmo, não sabe o bom que está perdendo… 😉
De acordo em tudo contigo, excepto num ponto fundamental: o maior espectáculo do mundo, para mim, ainda é o circo. Talvez seja por eu não gostar de futebol, dirás. Mas nenhum jogo alguma vez me deixará tão encantada como uma sessão do Cirque du Soleil.