«É no que dão estes ‘natais’ consumistas e egoístas. Nos tempos dos nossos avós, em que quase tudo faltava, é certo, o Natal era, sobretudo, a “festa da família”: pai, mãe e filhos, todos reunidos à lareira, comendo o bacalhau com as couves penca, as filhós e as papas de carolo de milho. A Família irmanava-se na confecção da ceia e, no dia seguinte, todos ajudavam a mãe a arrumar a cozinha. Enfim, outros tempos. Pobretes mas alegres. Agora, de facto, parece andarem todos de trombas…
O Beirão não era rico, não senhor. [Sou] de uma pequena aldeia beirã, onde, naqueles tempos, o importante era a Família. Ali, à Ceia de Natal, não havia uma só família, por mais pobre que fosse, que não tivesse à mesa, no dia da Consoada, uma posta de bacalhau, as couves, as filhós e as papas de milho. Ali, nesses tempos, toda a gente, sem excepção, trabalhava, tinha a sua courela de terra donde tirava os produtos que punha na mesa (hoje, os campos agrícolas estão abandonados, cobertos de silvas), engordava o porco para a matança, etc.
Naqueles tempos, o País não dispunha da ‘mama’ dos subsídios de Bruxelas. Que raio esta gente fez dos rios de tantos milhares de milhões de euros que nos chegaram/chegam, à borla, da rica UE? Que raio aconteceu, aqui, nestes últimos perto de 40 anos, para que Portugal esteja sem cheta, na bancarrota, à mercê dos empréstimos da troika, que é quem, de facto, manda no País, pois que, se nos portarmos mal, não haverá mais dinheirinho para os salários, as reformas e as pensões do mês seguinte?
Porca miséria esta, como diz o outro!»


Eu sou beirã e ouvi contar muitas histórias feias,dos tempos da outra senhora.
Os meninos iam esfomeados e descalços para e escola.
Os pais comiam o pão que o diabo amassava …os patrões eram maus.
Dividiam a sardinha pela família, quando havia.
No natal os patrões praticavam a funesta caridade de oferecer um peixito descarnado.
Havia mais união,pela via da fome, da dependência,do medo.
Era assim…
Há uma coisa que eu aprecio imenso nestas consoadas portugueses: não sei se já repararam, mas os doces mais típicos da quadra, as rabanadas, os sonhos, as filhós (velhozes, filhozes, etc,), são doces extremamente democráticos ao alcance de praticamente todas as bolsas. Até o bacalhau se vai mantendo, embora com algumas variações mais aburguesadas em certas casas.
Isto só não é motivo de espanto e louvor para quem ignora o fausto das ostras, foie-gras, lagosta, etc com que uma parte da população de outros povos ditos civilizados que bem conheço (franceses, belgas, ingleses) festeja o Natal.
…” Que raio esta gente fez dos rios de tantos milhares de milhões de euros?..”
Como nas entrevistas…” O melhor é perguntar aos responsáveis tesoureiros:
Cavaco Silva / Guterres/ Sócarates/ Durão Barroso.
E o “Coelhones” pode dar umas dicas!
Que mal tem dar prendas? O que é isso de um “Natal consumista” que é mau e se opõe ao Natal pacóvio da “família” e que é bom? Essa exaltação das virtudes da pobreza faz-me muita confusão… A família muitas vezes é um inferno e nesse sentido um Natal em família pode ser uma festa hipócrita. Não há teorias sobre estas coisas que não acabem em clichés estafados. O Natal é o que é: é a celebração do fogo, do conforto e da riqueza no início do Inverno. Isso é o Natal. Uma coisa pagã. As palermices da padralhada só vieram ocultar o seu verdadeiro sentido.