No dia seguinte


convite,

A festa faz-se, mas o dia seguinte é o cabo dos trabalhos. Não é só a desordem que se instala a fazer caretas a quem teve a casa cheia de garotos aos saltos pelos sofás, sogras inquisidoras ou cunhadas com o firme propósito de não tocar em nada, não fossem as unhas perder o brilho a condizer com a árvore de Natal: há qualquer coisa no dia seguinte que entristece e deprime.

O meu Natal foi calmo. Não tenho, em casa, a agitação de uma família ululante e, mesmo que a tivesse, desalinho já por aqui há, pouco se iria notar.

Hoje, de manhã, fazia-me falta um café a sério. A primeira pessoa que encontrei foi um construtor, dono de uns prédios aqui na avenida. É um homem sério, muito educado, sem os gestos e ademanes que caracterizam, habitualmente, o típico construtor civil português.

– Isto está tão mau, minha senhora, tão mau.

E  fala um pouco da vida. Pouco expansivo, dá, todavia, para perceber que, ao contrário das torres que permanecem alinhadas à espera de dono, o mundo dele ameaça derrocada. Para os filhos, que se formaram numa engenharia do ramo, as expectativas vão-se gorando dia após dia.

Desejo-lhe um ano melhor. Desejo-lho com toda a veemência, de tanto me entristece ver aquela  gravitas de patrício romano vergada sob o peso das sombras.

No café, estão duas amigas que me chamam para a mesa. A minha ideia era uma bica de pé ao balcão, mas vamos lá. Uma delas está exausta. Detesta a balbúrdia que o Natal lhe deixa em casa, mas nunca teve coragem de bater o pé e dizer : “Este ano, não. Aqui não.” Levanta-se de madrugada, tanto a 24 como a 25, para preparar os requintes a que habituou toda a gente desde o primeiro ano de casada. Fica exausta, impertinente, não tem tempo para se arranjar. Por volta das duas da tarde do dia de Natal, começa a apetecer-lhe dar respostas tortas, mas contém-se. O marido, anfitrião feliz, passeia-se pela casa tão contente, oh! como é bom tem uma mulher assim.

– E dinheiro que eu gasto nesta altura? O dinheiro. Não posso, não posso.

Confortamo-la, dizemos mal das cunhadas dela. Elas merecem. Dizemos muito mal. Acaba por rir um pouco, mas nunca a vi assim tão cansada.

A outra nossa amiga sorri, tímida, e baixa um pouco os olhos quando se fala de despesas. Dinheiros antigos, muito bem geridos, dão-lhe um conforto invejável. Nunca se fala disso, mas toda a gente sabe. É uma mulher triste, tem pequenas amarguras, pequenas queixas, tragédias miniaturais que lhe enegrecem a vida. Nada do que lhe causa sofrimento me parece grave, mas cada um sabe do convento em que mora. Não lhe digo que aquilo não é nada. Ouço, apenas.

De regresso, dou uma volta pelo caminho mais longo. Encontro gente triste. É um facto: há semblantes muito tristes na rua, uma expressão estranha em alguns deles. Um ar de fim dos tempos.

Cheguei a casa, fechei a porta e vou agora pensar em mim. Ando a fugir-me há uns dias. Hoje tenho de pensar em mim.

28 comentários em “No dia seguinte”

  1. Boa decisão, Ivone!
    Reflectir e pensar em si, é um “exercício” que certamente lhe irá trazer algum proveito. Mesmo que o resultado não seja inteiramente de renascimento, qual Phénix, será seguramente de reavaliação e de projecção dos, e nos caminhos da vida.
    E um novo ano se aproxima, exigindo que se entre nele com todo o optimismo e vontade de fazer o que nos parece mais justo e agradável.
    Já agora… podia mandar-me o contacto dessa amiga que está bem “agasalhada” na vida…
    (és muito engraçadinho, Bartolomeu… já estás a querer afiambrar-te à amiga da Ivone?)

  2. Desejo-lhe que, a pensar em si, não se entristeça a si própria. Há muito tempo que percebi que há uma única coisa que podemos sempre controlar nas piores tormentas: a maneira como as enfrentamos. Não há razão nenhuma para nos infernizarmos a vida mais do que ela nos inferniza a nós.

    Bom Ano e obrigada pela elegância do que me dá a ler.

  3. A ressaca do Natal, o estalar do verniz que andámos a aplicar, obedientemente, às camadas, desde que a quadra da fraternidade entre os homens abriu, está muito bem retratada na tua crónica.
    Eu adoro pensar em mim dentro de uma banheira de água bem quentinha. Descontrai neurónios e músculos. Hummm é bommmm :))

  4. O dia seguinte… o arrumar da festa… cara e coroa. Mas também serve para fazermos os nossos relatórios, em solilóquio 🙂 Esta nossa vocação feminina de ‘prestadoras’ também tem um lado de soberania que pode ser muito bem explorado. Digamos que é uma soberania que não chama a atenção, nada a ver com o berrante verniz das unhas.

  5. Sr.ª D. Ivone Costa
    Peço antecipadamente perdão por usar o seu post para transmitir a si, seus colegas de blogue e comentadores, um um ano novo com um mínimo de suspensões, de cortes, ajustamentos de IVA’s , aumentos de meias horas de trabalho, enfim, com o mínimo de conferências de imprensa do Ministro das Finanças.
    Obrigado pela boleia.

  6. É no que dão estes ‘natais’ consumistas e egoístas. Nos tempos dos nossos avós, em que quase tudo faltava, é certo, o Natal era, sobretudo, a “festa da família”: pai, mãe e filhos, todos reunidos à lareira, comendo o bacalhau com as couves penca, as filhós e as papas de carolo de milho. A Família irmanava-se na confecção da ceia e, no dia seguinte, todos ajudavam a mãe a arrumar a cozinha. Enfim, outros tempos. Pobretes mas alegrares . Agora, de facto, parece andarem todos de trombas…

    1. O Beirão era rico. No meu Alentejo , a ceia era uma açorda com uma sardinha assada para cada um, o que era um luxo. Nos outros dias eram duas sardinhas para toda a família: a minha mãe espremia as sardinhas nas fatias de pão das minhas duas irmãs para lhe dar o gosto, a mim, o mais velho, cabia-me metade duma das sardinhas, e a restante sardinha e meia era para o meu pai. A minha mãe só comia o pão, a água e os coentros.

      1. O Beirão não era rico, não senhor. É de uma pequena aldeia beirã, onde, naqueles tempos, o importante era a Família. Ali, à Ceia de Natal, não havia uma só família, por mais pobre que fosse, que não tivesse à mesa, no dia da Consoada, uma posta de bacalhau, as couves, as filhós e as papas de milho. Ali, nesses tempos, toda a gente, sem excepção, trabalhava, tinha a sua courela de terra donde tirava os produtos que punha na mesa (hoje, os campos agrícolas estão abandonados, cobertos de silvas) , engordava o porco para a matança, etc.
        Naqueles tempos, Rómulo , o país não dispunha da ‘mama’ dos subsídios de Bruxelas. Que raio esta gente fez dos rios de tantos milhares de milhões de euros que que nos chegaram/chegam, à borla, da rica UE? Que raio aconteceu, aqui, nestes últimos perto de 40 anos, para Portugal esteja sem cheta, na bancarrota, à mercê dos empréstimos da troika, que é quem, de facto, manda no país, pois que, se nos portarmos mal, não haverá mais dinheirinho para os salários, as reformas e as pensões do mês seguinte?
        Porca miséria esta, como diz o outro!

  7. Apesar dos meus ainda “novos” 34 anos, lembro me desses natais em família e da grande festa que era, sem grandes extravagancias. Actualmente as preocupações quotidianas sobrepõem se a tudo…infelizmente.

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