Gastei parte da minha vida profissional – e nem só – a comer o alcatrão das estradas, pelo interior do país, para defender jornalistas acusados de crimes de difamação através da imprensa. Aprendi muito com esses processos. E – sem falsas modéstias – creio que também houve pessoas que moveram esses processos, que os acusaram e que os julgaram que aprenderam alguma coisa comigo.
Vindo do jornalismo para a advocacia, com um trajecto jeitoso no banco do réus enquanto imputado criminoso do sector, com a matéria estudada em noites sem horas, acho que consegui desfazer alguns dogmas instalados. E, sobretudo, ajudei a perceber que o tempo da imprensa paroquial, dos casamentos e baptizados, dos jornais alimentados com os feitos dos tubarões locais estava acabado. Que o tempo de liberdade era também o tempo em que os actos ilícitos dos tubarões locais deviam ser escrutinados pela imprensa.
Nos grandes centros urbanos e com os grandes órgãos de comunicação social, esta questão já nem se colocaria. Mas, nos meios pequenos, onde os poderes se confundem, com jornais a tentar florescer, com jornalistas corajosos e dispostos a cumprir a sua função (com erros, claro, com erros…), a tarefa era ciclópica. Dizer mal no jornal do senhor doutor, valha-me Deus! E, então, se fosse de um senhor doutor ligado aos tribunais, valha-me Deus, outra vez!
Como facilmente se imagina, coleccionei inimigos. Alguns que irão, seguramente, perseguir-me a vida inteira. Outros, que acabaram por perceber, se não o papel dos que defendi, o meu papel. E também coleccionei o respeito de muitos que enfrentei, numa ou noutra posição, porque sentiram que, no fim de contas, eu apenas andava por ali a defender, convictamente, a liberdade de expressão. Outra vez sem falsas modéstias, vivo com a sensação – mesmo que não seja verdade, deixem-me pensar que é assim – de que contribuí para que os limites da liberdade de imprensa se alargassem. Como têm alargado.
Pensei, honestamente, que este era caminho sem retorno. Parece que não. Leio que José Sócrates move processo contra o colunista João Miguel Tavares. Sente-se difamado. A única conclusão possível é que Portugal – o país moderno, das novas tecnologias – retrocede ao nível da triste paróquia do interior que ajudei a combater.
(Não conheço João Miguel Tavares de lado nenhum, que não seja das suas crónicas. Mas se ele precisar de uma testemunha, pode contar comigo)

Eu não percebo é porque é que o Sócrates ainda não pôs um processo ao Jornal da 6ª feira da TVI.
Lá chegará…
Há duas espécies de respeito geradas por estas acções temerárias assumidas (presumo) mais por pura convicção do que outra coisa qualquer, Joaquim: os que apoiam a acção e os que receiam o desempenho. Os primeiros sabem que tais convicções promovem valores essenciais; os segundos têm medo que o aspecto pedagógico do papel que referes seja contagioso e escape ao seu controlo.
Tenho a certeza de que foste muito útil na defesa de valores e, sobretudo, do papel pedagógico que assumiste. Também terias sido muito útil em tempos, em Macau. O Pedro (e eu próprio) não há-de esquecer os processos inqualificáveis por «abuso de liberdade de imprensa» movidos para tentar calar, quando o «abuso de liberdade de poder» dos representantes de Portugal era omnipresente e pouco menos do que infinito.
Lembro-me dessa sanha persecutória que andou por Marcau, João.
Muito bem.
O quese pode, Cristina 🙂
Belo currículo, J.M!
Ui, ui, nem imaginas, Teresa 🙂
Mas note que uma campanha negra que mete agora louras como a Cicciolina é coisa nunca vista.
Sempre dá colorido à coisa.
Ao que parece existem mais processados:
http://twitter.com/JMF1957/status/14463 97724
Provavelmente em seguida virão os bloggers, julgamento colectivo no Campo Pequeno, eh, eh…
Os postes do país serão poucos para pendurar tantos criminosos.
Parabéns, J.M. Faz falta essa liberdade de pensamento e de expressão, responsável e madura.
Sem ela, adeus país, Ana Vidal.
Joaquim, gostei muito, mesmo muito, de ler este texto. Só podes, obviamente, ter orgulho no teu percurso.
E tenho, e tenho. Obrigado, António.
Eu diria que até a Cicciolina, se lhe chegar a coisa aos ouvidos (nada de más interpretações), apoia o sr. JMT.
Não é susceptível de más interpretações…
Uma outra frase alternativa que deixaria Sócrates feliz e orgulhoso.
“Ver José Sócrates apelar à moral na política é tão convincente quanto a defesa da liberdade de expressão por parte de Hugo Chaves.”
Sim, dessa talvez gostasse…
Este foi um dos melhores textos que já passou pelo nosso blogue, Joaquim. Se há matéria a que sou sensível, é esta. Como o João já referiu acima, vivi em Macau, como jornalista, um tempo em que reinava uma paranóia persecutória do poder político, que pelo mais irrelevante motivo punha os jornalistas independentes em tribunal. Hei-de um dia falar disso, por aqui ou noutro lado qualquer. Para já recordo que se chegou então ao cúmulo de o principal queixoso contra os jornalistas ser o próprio juiz-presidente do Tribunal Superior, um cavalheiro que elogiava pblicamente Mussolini por ter conseguido pôr os comboios italianos a andar a horas. Além de ser o principal queixoso, era também juiz em causa própria, pois competia-lhe em última instância a análise dos processos quando o Supremo Tribunal, em Lisboa, deixou de receber os recursos devido à “localização” do sistema de justiça macaense.
Foi essa (lamentável) herança jurisprudencial que por lá deixámos, felizmente contrariada por um grupo relativamente vasto de jornalistas e advogados corajosos. Lembrei-me de tudo isto, vê lá, ao saber da notícia do ridículo processo movido por Sócrates ao JMT. E também ao ler o teu texto.
Um grande abraço.
Obrigado, Pedro.
Não fosse a minha tendência para esquecer com rapidez as coisas más, e talvez o texto tivesse outro colorido. Ou talvez ficasse demasiado longo.
De qualquer modo, tenho a sensação de dever cumprido. Enquanto andei a tratar destas vidas, deperdicei os processos que davam verdadeiro dinheiro, mas não me arrependo. Cada absolvição tinha o sabor da fortuna.
Presumo que a vida por Macau também não tivesse sido fácil para jornalistas corajosos. Lembro-me de alguns episódios sobre o assunto e até desse que contas.
Um grande abraço também para ti.
Caro Coutinho Ribeiro,
Parabéns. Subscrevo totalmente o seu post.
Liberdade de imprensa. Sempre.
Custe o que custar. Se doer a alguém, doeu.
É a vida, e é assim que tem que ser.
Abraço.
Sérgio Vieira.
Olá, Sérgio.
Obrigado pelas suas palavras. A liberdade de imprensa é o último reduto.
ah. E um abraço 🙂
Nada tenho a acrescentar aos comentários senão isto: obrigada pelo seu texto.
Nada para agradecer, MaJ.