“Noutro País”, sem consoantes


Pedro Correia,

 

Leio uma biografia de Ernest Hemingway distribuída gratuitamente com o Expresso. Na capa, o nome do autor — um tal Hans-Peter Rodenberg, sobre o qual ficamos a saber quase nada — vem impressa em corpo muito reduzido, enquanto o autor do prefácio, Miguel Sousa Tavares, surge em letras muito mais visíveis apesar de escrever apenas três páginas. A obra está traduzida em acordês, numa apressadíssima tentativa de beber o ar do tempo. E nem Sousa Tavares — público e notório opositor a essa aberração que é o “Acordo Ortográfico” de 1990 — escapa à fúria avassaladora dos acordistas, que querem moldar tudo e todos ao seu padrão, mesmo quem não comunga dessa obsessão de extermínio das consoantes ditas mudas.

Imagino a irritação de Sousa Tavares ao ver-lhe atribuída, logo na primeira página do seu prefácio, a autoria de uma palavra que nunca escreveu — a palavra corretamente. Em que, por ausência do C, o E sofre uma mutação eufónica. Este é, de resto, um dos efeitos mais perniciosos do dito “acordo”: em nome da inalcançável unificação ortográfica, que jamais se concretizará, aumentam drasticamente as diferenças fonéticas entre Portugal e o Brasil. A supressão das consoantes ditas mudas (e porque não também o H?) reforçará a nossa tendência para fechar a pronúncia das vogais. Isso sucederá inevitavelmente com palavras que vejo estampadas nesta obra. Palavras como ator, reação, reflete, aspeto, adota, perspetiva, afetado, correção e redator. Não custa vaticinar que as sílabas átonas vão crescer e multiplicar-se na pronúncia do português de Portugal, precisamente ao contrário do que sucede no Brasil.

Não há tempo para tudo: enquanto andavam obcecados na fixação das regras do acordês, os responsáveis editoriais por esta obra descuraram o resto. Só isto explica que As Verdes Colinas de África (1935), uma narrativa autobiográfica de Hemingway, seja aqui apresentada como “romance”, coisa que manifestamente não é, e o “magnífico Adeus às Armas” (1929), como justamente o designa Sousa Tavares no prefácio, não venha nunca mencionado com o nome correcto na tradução desta biografia, onde aparece com uma estranha designação: Noutro País.

Ironia das ironias: uma obra tão apostada em alinhar com o “acordês”, adaptando a norma ortográfica portuguesa à brasileira, altera afinal a ortografia norte-americana, reconvertendo-a à norma inglesa num topónimo como Pearl Harbor (pág. 93), aqui escrito Pearl Harbour, ao clássico estilo britânico. Apesar de Pearl Harbor se encontrar no arquipélago do Havai, território dos Estados Unidos.

Mais depressa se apanha um falso “modernizador” da língua do que um coxo verdadeiro…

32 comentários em ““Noutro País”, sem consoantes”

  1. ator, reação, reflete, aspeto, adota, perspetiva, afetado, correção e redator

    Basta comparar estas palavras com as suas traduções em francês ou inglês para se perceber que as consoantes mudas nada têm a ver com a forma como as palavras são lidas, mas sim com a sua etimologia.

    De facto, se as consoantes mudas tivessem alguma relação lógica com a forma como a palavra é lida, então essa relação lógica desfazer-se-ia nessas línguas estrangeiras, que têm regras de leitura diferentes das nossas.

    De onde se conclui que as consoantes mudas não estão lá por razões de lógica de leitura, e sim por razões puramente etimológicas.

    Ademais, para (quase) todas essas palavras é possível encontrar palavras análogas que nunca tiveram consoante muda mas se lêem com vogal aberta. Por exemplo:

    sete – reflete

    feto – aspeto

    ração – reação

    jota – adota

    1. “Aspecto” mantém o seu aspecto no Brasil, segundo o AO90, enquanto que em Portugal e PALOP já não, a “consoante muda” cai: http://www.priberam.pt/dlpo/default.aspx?pal=aspecto

      “Perspectiva” mantém-se em perspectiva no Brasil, segundo o AO90, enquanto que em Portugal e PALOP já não, a “consoante muda” cai: http://www.priberam.pt/dlpo/default.aspx?pal=perspectiva

      Estes são apenas dois exemplos de novas duplas grafias inventadas pelo “acordo” (mais de 2.000), num total de mais de 69.000 (lemas) que o dito “acordo” prevê para a “língua unificada”.

      1. Mas não há mal nenhum em que haja duplas grafias!

        A língua deve-se escrever de acordo com a forma como se lê. E isso tanto é verdade em Portugal como nos PALOP e no Brasil.

        Se em Portugal e no Brasil uma palavra se diz de forma diferente, então deve ser escrita de forma diferente.

        Se uma consoante é muda num país e noutro não é, então a palavra escreve-se de forma diferente. É isso que o acordo determina, e tem razão.

        1. «Mas não há mal nenhum em que haja duplas grafias!» (Luís Lavoura)

          «O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 é um tratado internacional firmado em 1990 com o objetivo de criar uma ORTOGRAFIA UNIFICADA para o português, a ser usada por todos os países de língua oficial portuguesa.» (Wikipédia)

          P.S.: O que está acima é uma resposta singela e sem troco à enormidade que proferiu na sua resposta ao meu comentário. Por favor não entre em diálogo comigo, a não ser que pretenda ficar aqui a falar sozinho.

        2. Lavoura parece desconhecer o significado de ortografia. De facto, trata-se de uma lei, e as leis devem ser claras e seguras. Todos queremos saber com segurança o que é proíbido e permitido e uma lei que estabeleça que pode ser “assim ou assado” é uma péssima lei, um verdadeiro pesadelo.
          Em lado nenhum do mundo se escreve como se lê… Não acontece no Inglês, no Francês, ou no Espanhol, as línguas com mais sucesso no mundo – e que nunca foram vítimas de qualquer acordo ortográfico (houve um recente, do Espanhol que mudou 6 ou 7 palavras – literalmente!, e se preocupou com aspectos de nomenclatura – modos de designação de letras, etc).
          Diz Lavoura que “Se em Portugal e no Brasil uma palavra se diz de forma diferente, então deve ser escrita de forma diferente.” Acontece que todas as palavras, mesmo escritas da mesmíssima forma são lidas de modo diferente em Portugal ou no Brasil (ou entre um portuense e um alentejano) o que nos faz perceber que a correspondência entre a palavra escrita e falada é extremamente complexa.
          A ideia de «aproximar» a escrita da oralidade é uma ideia totalmente ultrapassada, defendida por meia dúzia de brasileiros que a foram buscar a 3 ou 4 autores franceses de há 150 anos e que fazia da escrita uma transcrição fonética! Se há coisa de que a escrita se devesse aproximada seria do pensamento, e é um facto que todos os alfabetos começaram por ser ideográficos, como ainda o é, em parte, o do mandarim, a língua mais falada no mundo.

        3. Luiz Lavoura, você é o meu herói. Os seus exemplos são perfeitos e demonstram, mais uma vez, a vacuidade do antiacordismo. Neste ano do centenário da reforma unilateral portuguesa de 1911, sou a favor do retorno à orthographia portugueza anterior – o que não dá é considerar sagrada uma ortografiazinha de meio século… Tenha santa paciência. That ship has sailed – e foi há cem anos!

        4. “A língua deve-se escrever de acordo com a forma como se lê”.

          A asneira é livre. Omessa!!!
          Oje e sempre!
          Chiça!

        5. Quem é vc para dizer como uma língua deve ser escrita? Quem é vc para dizer que as palavras não devem conter a sua etimologia como razão de ser uma vez que é a razão do seu significado? E como não considerar que o modo como as pessoas a pronunciam não deve fazer regra ortográfica uma vez que há pronúncias diferentes dentro da mesma língua e a maior parte das pessoas é suficientemente analfabeta para as pronunciar mal?

          1. Afirmar que uma língua deve ser escrita “como se lê” é puro disparate: se a escrita antecede a leitura, como é que a norma ortográfica pode estar condicionada por algo que lhe sucede em vez de a preceder?
            Afirmar, por outro lado, que uma língua deve ser escrita “como se diz” é a antítese do espírito normativo.
            Se em Lisboa, por exemplo, não falta quem diga “mêmo” em vez de mesmo ou “joálho” em vez de joelho, escreva-se assim. Se em Braga se diz “barrer” em vez de varrer, escreva-se assim. Se em Beja se diz “pinhêro” em vez de pinheiro, escreva-se assim.
            É uma lógica que não aguenta dois segundos de análise. É uma lógica que não aguenta dois segundos de discussão.

    2. Fraca argumentação, que precisa da muleta estrangeira para justificar o português.
      Como as razões são puramente etimológicas, então já se pode dar um pontapé na etimologia.
      Como as regras de leitura dessas línguas são diferentes das nossas, logo as constantes mudas que naquelas línguas nada têm a ver com a leitura, na nossa língua também não podem ter nada a ver…
      Estou a ver nítidamente a diferença.
      Ao passo que se aquelas línguas respeitam a etimologia, logo óbviamente a nossa língua fica dispensada de respeitá-la.

    3. A relação entre as consoantes ditas mudas e a sua função na leitura escrita está documentada por especialistas.
      Aqui temos o próprio Prof. Houaiss, a explicar qual é.
      http://www.youtube.com/watch?v=DQUj4BvD9Gc
      São alguns segundos muito elucidativos.

      Convirá não esquecer que o «acordo» foi condenado unanimemente* em Pareceres oficiais, emitidos e solicitados por entidades públicas de Portugal. A única questão é saber o motivo pelo qual tais pareceres foram ignorados – sem qualquer justificação – pelo governo.

      * com excepção de um, da autoria de malaca casteleiro, um dos autores da aventesma.

    4. Diz o Lavoura:

      sete-reflete
      feto-aspeto
      ração-reação
      jota – adota

      Aí está a prova como a argumentação do caríssimo não tem pés nem cabeça – e a prova de como a ETIMOLOGIA faz muito bem à inteligência: desde quando é que sete, feto, ração ou jota tiveram consoantes mudas ou consoantes pronunciadas no étimo latino?

    5. Esta pobre tirada do Lavoura não merecia uma migalha de atenção, sem desprimor de quem lhe dedicou tempo a chamar à razão uma mente que dá dó. O cavalheiro sabe tanto da poda que nem distingue vogais tónicas de átonas. Os exemplos que aí depositou são caricatos. É bem a imagem do ridículo Acordo.
      Cumpts.

        1. As biografias são oferecidas pelo ‘Expresso’, João. Vêm junto com o jornal. O deste sábado não comprei: a capa da revista que vem como suplemento desse jornal trazia declarações insultuosas de Eusébio para o Sporting, o que me deixou ficar essa publicação na banca. E lá ficou a biografia do Churchill também.

          (o ‘Português’ parece que ficou pelo caminho, João. Finito.)

      1. Não seria mais “Xpresso”? Estás a ver, assim como “xqueiro”, “xcadas”, “xpoliados”… Isto sim, é aproximar a grafia da oralidade. Vendo bem estes reformadores nem sabem fazer o serviço como deve ser… E o verbo “tar”? Porque diabo não foi consagrado? 😉

  2. Não li o texto do Miguel, mas assino (ou será açino? já nem sei) por baixo todos os textos contra o NAO. Ai se a minha professora primária fosse viva dava-lhe um fanico. Eu sou pelo não ao NAO… Sempre!
    Uma questão: de que ano data o acordo ortográfico entre americanos, ingleses, australianos, africanos, canadianos?

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