Estando longe de acreditar que a opinião maioritária é sempre a melhor ou que legitima necessariamente o que quer que seja, por princípio sou favorável a que os cidadãos possam decidir o seu futuro comum, em especial quando já se tornou óbvio que os políticos não têm soluções indolores. Por isso, ao ouvir a notícia sobre o
referendo na Grécia, pensei duas coisas em sequência: «Merda» e «Oh, well». É óbvio que o referendo coloca ainda mais pressão sobre o euro mas acerca disso mantenho o que escrevi
aqui (na forma actual, o euro está condenado). E é igualmente óbvio que, seja qual for o resultado, a Grécia vai continuar a empobrecer (como, de resto, Portugal). É, desde há vários anos, inevitável. Repito: i-n-e-v-i-t-á-v-e-l. O único poder que os cidadãos gregos ainda têm é o de escolher se isso acontece de forma lenta e mais ou menos controlada, se de forma abrupta e quase imprevisível, sendo que esta poderá apresentar vantagens no que respeita à velocidade de recuperação (mas nem isto é garantido, atendendo às feridas que se abrirão na Europa). Vote um grego no sentido que votar, e ainda que a sua opinião prevaleça, é muito provável que depressa se arrependa. Mas terá participado na escolha. Por pouco que seja, é alguma coisa numa Europa em que a integração aconteceu quase sempre à revelia do cidadão comum (também por este, especialmente nos países do Sul, andar demasiado entretido a aproveitar as taxas de juro e de inflação historicamente baixas para lhe prestar atenção) e com os políticos em contínua fuga para a frente. Quanto ao resto, já estamos na fase do
que sera, sera. De tal modo que, para mim, talvez o ponto mais significativo da questão do referendo na Grécia seja o modo como o governo parece nem se ter dignado informar previamente os parceiros europeus, apesar de ter acabado de firmar um acordo com eles, apesar das consequências a que eles também estão sujeitos. Trata-se, no fundo, apenas de mais um pormenor revelador de como a Europa não é, nem pode ser ainda, um espaço comum. Mas tal não acontece por culpa dos alemães ou dos outros povos do Norte. Permitam-me citar um intelectual de centro-esquerda:
Então o que é que define o alcance exequível de uma comunidade de confiança? O cosmopolitismo desenraizado fica bem aos intelectuais, mas a maioria das pessoas vive num lugar concreto: definido pelo espaço, pelo tempo, pela língua, talvez pela religião, se calhar – por lamentável que seja – pela cor, e assim por diante. Esses lugares são permutáveis. Até há pouco tempo muitos europeus não se definiriam como habitantes da ‘Europa’: diriam que viviam em Lodz (Polónia), ou na Ligúria (Itália), ou talvez até em ‘Putney’ (um subúrbio de Londres).
O sentimento de ser ‘europeu’ para fins de identificação pessoal é um hábito recém-adquirido. Como resultado, onde a ideia de cooperação transnacional ou assistência mútua possa ter despertado uma intensa desconfiança local, agora ela passa geralmente despercebida. Hoje os estivadores holandeses subsidiam pescadores portugueses e agricultores polacos sem grandes queixas; em parte, sem dúvida, porque os estivadores em questão não interrogam muito a fundo os políticos quanto à utilização dos seus impostos. Mas também isso é um sinal de confiança.
Tony Judt, Um Tratado sobre os Nossos Actuais Descontentamentos.
Edições 70, tradução de Marcelo Felix.
A confiança acabou. E não acabou por culpa dos estivadores holandeses nem dos políticos alemães. Acabou porque, ao longo dos últimos quinze ou vinte anos, os gregos não fizeram por merecê-la. Nem nós.
A Grécia entrou na CEE em 1981 sem convocar qualquer referendo. Aprovou os tratados de Maastricht, Amesterdão, Nice e Lisboa sem auscultar o eleitorado. Agora, à beira do caos político e social, o PM Papandreou lembra-se enfim de pedir ao povo grego para escolher entre a desgraça e a miséria: uma decisão que conjuga o cúmulo do cinismo com o cúmulo da irresponsabilidade.
O referendo não resolve um só problema da Grécia e pode agravá-los todos. Pior que isso: mergulha toda a União Europeia num cenário de consequências imprevisíveis.
Portugal, dada a sua fragilidade, será um dos países mais afectados. Para já, quatro dos maiores bancos portugueses viram a sua cotação desvalorizada em 10% enquanto a Bolsa de Lisboa registava a maior queda da última década. Imagine-se o que sucederá até Janeiro, mês em que deverá ocorrer a referida “consulta popular” na Grécia.
Muito bem. Ainda não perceberam que a realidade já não se pode esconder para debaixo do tapete.
Pedro: concordo com tudo o que escreveste. Só que já estou na fase de considerar que talvez seja melhor pôr as coisas em pratos limpos. Este ambiente de dúvida e passinhos hesitantes começa a ser insustentável. Os gregos que decidam como entenderem – e depois que suportem as consequências da decisão. Quanto aos restantes, terão de agir em conformidade.