Vidas ligadas às máquinas (2)


Rui Rocha,

Estamos em 13 de Março de 2003. Recebes-me à porta da nossa casa: olá, amor. Chego tão encolhido que podia aconchegar-me para sempre nas tuas palavras. Em fundo, ouve-se um jingle do Canal Panda. O Dinis interroga a televisão. Está à espera de um episódio dos Três Moscãoteiros. Ainda bem. Hei-de chorar um pouco mais tarde, quando os meus olhos encontrarem os dele. Correu bem o teu dia, perguntas-me. Eu quero tanto responder-te que sim. As vitórias gritam-se. Com as derrocadas, vai melhor um murmúrio: a empresa parou. Queres salvar-nos. Nos últimos anos, o tempo foi um círculo que uniu sempre as paragens e os recomeços. Outra vez? Hoje é diferente. Foi a última vez. Há um e agora que se desenha nos teus lábios. Sem respostas, abafo-o num beijo. A tua boca é vida e eu acabei de chegar do meu próprio naufrágio. Os nossos olhos abrem-se já em além do beijo. O Dinis canta e dança. O a-mor da Ju-li-e-ta é o Dar-ta-cãaaao. Sorrio. Talvez seja possível reconquistar o mundo com uma espada de madeira partida e um velho cavalo cansado. Afago-te a barriga. A Leonor vai nascer em Setembro. Entretanto, o Dinis já me viu. Abraça-me e canta-me os parabéns. Rebento em lágrimas no dia em que faço 33 anos.  

9 comentários em “Vidas ligadas às máquinas (2)”

    1. Tenho-me lembrado muito desses tempos a propósito destes outros que agora se nos desenham, Zélia. Felizmente, as coisas mudaram muito para mim desde então. Mas, não posso em rigor afirmar que fosse então menos feliz do que agora.

  1. Lindo. Encheu-me de ternura… Que bom, este bocadinho. Poesia. Aliás, pelo que vi (13 de Março) , confirma-se que os Peixes, são, de facto, grandes poetas.

  2. Excelente, Rui. Uma memória sentida, tocante e construtiva. Como hoje dizia o Capitão Haddock ao Tintin, num filme que me divertiu imenso, “mesmo se bateres contra uma parede, faz um buraco na parede”.
    Sugestão: põe uma etiqueta nesta série. Para que os leitores possam consultá-la desde o início e também para que no futuro possas encontrá-los mais rapidamente no meio desta floresta de palavras que é o Delito.

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