Estrelas de cinema (10)


Pedro Correia,

 

HEMINGWAY REVISITADO POR WOODY ALLEN

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Os intelectuais norte-americanos são herdeiros directos da cultura europeia: nada menos surpreendente que lhe prestem homenagem. E em nenhuma outra área artística isso é tão notório como no cinema. Foram, de resto, cineastas nascidos no Velho Continente que moldaram o cinema americano — cineastas como Charles Chaplin, Josef von Sternberg, Fritz Lang, F. W. Murnau, Frank Capra, Ernst Lubitsch, Max Ophüls, Alfred Hitchcock, Jacques Tourneur, Billy Wilder, Otto Preminger e Elia Kazan.

Woody Allen é um ilustre herdeiro desta linhagem, mas está muito longe de ser único, ao contrário do que alguns críticos apressados garantem. Aliás o que este nova-iorquino de gema confirma, nos seus filmes mais recentes, é uma atracção pela Europa que vem desde o início da sua obra. Allen teve a sua fase bergmaniana (Interiors, 1978) e felliniana (Stardust Memories, 1980) muito antes de sonhar sequer que viria a filmar em Paris, Londres, Veneza ou Barcelona.

O aspecto mais interessante de Meia-Noite em Paris, filme em exibição nas salas portuguesas, é a forma como cruza cinema com literatura: a sua homenagem à Cidade Luz é, afinal, uma homenagem a um dos expoentes máximos das letras norte-americanas — Ernest Hemingway. As falas de diversas personagens do filme — Gertrud Stein, Scott Fitzgerald e o próprio Hemingway — são extraídas de trechos da magnífica homenagem que o autor de Por Quem os Sinos Dobram fez à capital francesa no seu livro-testamento, Paris é uma Festa. E consegue fazê-lo com uma eficácia cinematográfica que deve tanto aos seus dotes artísticos como à sua longa experiência como artesão da Sétima Arte — uma experiência que não o impede de cair em erros de casting, como a escolha de Owen Wilson para personagem principal ou a inclusão no elenco de Carla Bruni, muito menos expressiva do que a estátua do Pensador, de Rodin.

Meia-Noite em Paris é, no fundo, um fascinante conto de fadas — também nada de novo na obra de quem dirigiu A Rosa Púrpura do Cairo (1985) e Toda a Gente Diz que te Amo (1997). A novidade aqui é toda a fantasia ser protagonizada por nomes que se celebrizaram na vida real como figuras fundamentais da cultura e do espectáculo — de Picasso a Buñuel, de Gauguin a Cole Porter, de Degas a Jacqueline Baker, de Toulouse-Lautrec a T. S. Eliot, de Juan Belmonte a Salvador Dalí.

Os deliciosos anacronismos que povoam o filme, conferindo ao espectador a ilusão do regresso a uma era de ouro que afinal nunca existiu, limitam-se a seguir a pista que o próprio Hemingway deixou impressa no seu livro de memórias parisienses – alusão a um tempo irrepetível, em que foi “muito pobre e muito feliz”.

Num dos seus livros, Paul Auster — outro americano que presta tributo sem complexos à cultura europeia — ensina-nos que “razão e memória raramente andam a par”. Talvez por isso, alguns dos mais talentosos cultores da saudade enquanto expressão artística, como Allen e Hemingway, parafraseando Pessoa, chegam a fingir que é nostalgia a nostalgia que deveras sentem.

Onde começa o artifício e termina a realidade? É irrelevante. A arte tanto imita a vida como a vida imita a arte: eis um princípio válido para todas as horas de todas as épocas em todas as cidades do mundo. Experimentem atravessar a Ponte Alexandre III à meia-noite na próxima vez que visitarem Paris. Daí pode resultar um filme ou um livro. Daí pode resultar um daqueles momentos mágicos que funcionam como fios que vão tecendo a eternidade.

 

Meia-Noite em Paris (Midnight in Paris, 2011). De Woody Allen. Com Owen Wilson, Rachel McAdams, Marion Cotillard, Kathy Bates, Adrien Brody, Carla Bruni, Michael Sheen

20 comentários em “Estrelas de cinema (10)”

  1. Isto lembrou-me de que aguardo ansiosamente o filme sobre Hemingway com Clive Owen. Não vi o filme de Woody mas não sou fã de Owen Wilson. Dos dois Owen é, pois, clara a minha escolha 🙂 No entanto a experiência transatlântica no cinema costuma dar bons frutos. Sim, o cinema americano construiu-se sobre uma base de geniais europeus. Cresci a ver esses filmes. E parece que muita gente gostou, verdadeiramente, deste filme. Ainda bem.

      1. Desculpem lá… têm de perceber que Owen Wilson é o próprio Woody Allen, em versão bonita. Não acham? Atarantado, gauche… etc. O Woody sempre me irritou, com aquela mania de querer entrar nos próprios filmes. Podia-nos poupar à sua imagem nada plástica.

        1. Acho irritante essa mania que ele tem de prolongar a sua ‘persona’ em personagens encarnadas por outros intérpretes, Laura. Já fez isso com o Kenneth Branagh em ‘Celebridades’ (1998) e com o Larry David em ‘Tudo Pode Dar Certo’ (2009).

          1. É o Woody Allen… Irritante, mesmo. Tens toda a razão. Houve vários realizadores que não resistiram a figurar nos próprios filmes, mas acho que nunca com tanto narcisismo. Mas pelo menos os avatares são mais agradáveis à vista, valha-nos isso.

  2. Razão e memória nunca andam a par, porque a nossa memória é sempre ficcionada. Mas como tu dizes e eu subscrevo, no fim de contas não é assim tão importante depurar a realidade de artifícios, muito pelo contrário. Gostei muito desta tua reflexão.

    1. José Maria, tens razão, mas acho que o filme é isso mesmo, é uma montra de nostalgias, de memorabilia, e vale por isso, por todas aquelas referências previsíveis, às vezes um pouco ingénuas, fáceis. A memória tem uma força motriz que nem sempre é do domínio do grandioso: pode ser apenas do do domínio do encanto.

      1. Hum, hum… Ivone, de ingénuo é que nada tem. Parece… ;)) E por acaso vejo naquilo pouca nostalgia: vejo antes acção e adrenalina. Quer dizer, isto tudo porque eu acho que o filme é acerca de nós e não do passado.

        1. Sim, concordo contigo, também é acerca de nós. Daí a Galeria dos Espelhos no final. Por isso eu creio ser a nossa relação com o passado o que está em jogo.
          Quando digo ingénuas, digo-o no sentido em que as referências são facilmente descodificadas, são simples, são evidentes. Há uma ingenuidade no modo como são apresentadas, não no modo como esse processo é concebido. Porque é muito eficaz, claro.
          Sabes, um filme que nos põe a dizer tanta coisa tem mesmo de ser bom.

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