Nada me move contra os funcionários públicos. Há na função pública, tal como no sector privado, pessoas dedicadas, competentes e interessadas. E outras que não são nada disso. Não há ninguém de bom senso, no público ou privado, que possa ficar satisfeito com as duríssimas medidas anunciadas por Pedro Passos Coelho. Os cortes anunciados, que incidem directamente na função pública, produzirão efeitos em toda a economia que, como um todo, será afectada. E isso é mau para todos. Uns pagarão com cortes salariais, outros com desemprego e com falências. Sobre todos incidirão mais impostos. Globalmente, diminuirá o rendimento disponível. No final, todos perderão. Perderão mais os que ficarem sem emprego.
A revolta perante o desmoronar de expectativas e de perspectivas de futuro é perfeitamente legítima. A angústia provocada pela degradação do nível de vida e a incapacidade para pagar os compromissos assumidos (casa, carro, educação dos filhos) corrói-nos as horas e os dias. Sei do que falo. Se hoje tenho uma função bem remunerada, já estive desempregado. Durante largos meses. Lembro-me de acordar de noite e de nunca mais conseguir adormecer. Lembro-me de acordar de manhã e de me apetecer nunca mais acordar. Nunca me faltou o essencial. Mas tive muita vergonha do estado dos meus sapatos quando encontrava alguém conhecido. E nunca me hei-de esquecer que, certo dia, me apetecia muito comprar um queijo corrente. E de ter decidido não o fazer. Por não poder. Antes de ficar desempregado, fui Director de Recursos Humanos de um grupo têxtil falido. Oitocentos trabalhadores, eu incluído, com salários em atraso durante vários meses. Nos últimos dois anos, sem subsídio de natal ou de férias. Em algumas situações, com parte do que nos deviam a ser pago em ticket restaurante descontáveis em certos hipermercados. A todos nos ficaram a dever vários meses. Por isso, quando a empresa faliu, nenhum de nós tinha qualquer reserva a que pudesse recorrer.
Dito isto, convém ter presente o seguinte: um contrato de trabalho depende de um encontro de vontades entre a entidade patronal e o trabalhador. A relação jurídica é enquadrada por um regime legal. Se alguma das partes considerar que os seus direitos foram violados, pode recorrer aos meios previstos nesse regime para reagir (intervenção de autoridades administrativas, recurso aos tribunais, greve, etc.). No entanto, esgotadas estas vias sem que se obtenha o que se pretende, resta sempre uma outra: a de rescindirmos o contrato e procurarmos melhor vida. É o que farei no dia em que estiver descontente na empresa em que trabalho. A menos que, apesar de tudo e tudo somado, me pareça melhor solução ficar.
Por tudo isto, porque sei o que é perder muito e ficar sem nada, tenho sempre muita reserva perante aqueles que se proclamam enteados, órfãos e bastardos. Com toda a compreensão do mundo perante a revolta dos funcionários públicos, sei que poucos procurarão outras soluções no mercado de trabalho. E isso diz tudo sobre quem está mal e quem está pior. Acreditem no que vos diz este ex-desempregado.

E os que sendo dedicados, competentes e interessados entendem ser esse o seu lugar, a sua trincheira e dedicaram quase 2/3 do seu tempo, incluindo o lazer na expectativa de fazendo mais e melhor em prol da causa pública se sentem agora ROUBADOS? Resta-lhes irem-se embora perdendo os (poucos) direitos adquiridos? O cinismo já chegou a este ponto?
Não. Lutar pelos direitos tem toda a legitimidade. O que não é legítimo, e não me refiro ao seu comentário, é julgar que o mundo começa e acaba numa certa situação.
O mundo a preto e branco mais uma vez. Já te passou pela cabeça que as pessoas, apesar de serem funcionárias públicas nesta óptica brilhante que por aí anda, gostem do que fazem e queiram ficar? Ou é porque não me pagam subsídios que com a idade que tenho bato a porta e me vou embora? É claro, e digo-te com toda a certeza, se fosse jovem jamais me sujeitaria ao que se sujeitam os contratados. Também em nome da poupança é que se encontram assim. O Estado não tem dinheiro, portanto não lhes pode pagar. É legítimo e aceitável por esta ordem de ideias.
E mais, não há na atitude do governo uma falta de respeito nem quebra de confiança? A maior parte das pessoas usa os subsídios com um balão de oxigénio para pagar outras despesas. Agora que se lixem ou que procurem outra solução. Nivelemos por baixo. Ainda temos ordenados, ergamos uma estátua seja lá a quem for. Pobrezinhos somos mais mansos. Ainda.
Olha, Leonor, não ponhas na minha escrita palavras que eu não usei. Disse já que tenho todo respeito pelas pessoas que acordam um dia com a vida de pernas para o ar. E que existe em tudo uma clara violação de expectativas. E que fico muito triste por tudo isto estar a acontecer. Não sou obrigado a repeti-lo mil vezes só para poder dizer o que penso. Não tens que levantar uma estátua a ninguém. Mas, deves ter presente que não falta quem tivesse muita vontade de se abrigar debaixo dela. O estado português gasta mais do que pode. A maior parte da despesa são salários. Se encontrares alguém que os pague, por mim está perfeito. No mais, fica a questão dos desperdícios, das mordomias e da fraude. É um imperativo ético combater tudo isso. Mas, tudo isso não resolve, agora, o problema.
Mas eu pus na tua escrita palavras que não usaste? É claro que estou grata numa altura destas por ter emprego mas não sei quando me verei numa situação desfavorável e nas mãos do Director para ir para o raio que me parta. O público não são só certezas. Aguentei tudo sem espernear, carreira congelada, avaliação, aumento das horas lectivas, corte no salário mas tenho o direito à indignação e à mágoa quando vejo que ainda por cima as pessoas acham que merecemos isto.
Todo o direito à indignação, Leonor.
Eis uma verdade que deveria ser pensada mais vezes: os outros também somos nós, e é o que parece que está a acontecer, quando nos damos conta que afinal nem tudo é eterno; nem todos os sacrifícios compensam; nem todos são maus; nem todos são bons, enfim é hora de mudar. Sei do que fala, da vergonha, de viver um sentimento que não queríamos e a ele fomos obrigados, ainda assim a força de vontade ligada à presistência – faz milagres.
Obrigada pela partilha, é nesses momentos que há ideias que pogridem para um mundo melhor.
Nunca, mas nunca, se deve desistir, Alice.
Eu não tenho certeza de que muitos FP não procurarão outro caminho no mercado de trabalho. Estou, por exemplo, expectante em relação ao que farão os médicos, alguns militares e polícias, mas sobretudo os primeiros.
E muitos mais não o farão porque, neste momento, não existe o tal mercado de trabalho.
Rui, repare que a sua observação de que não existe o tal mercado de trabalho cá fora vai ao encontro da minha tese: as coisas estão difíceis na função pública mas, no privado, também vai uma guerra.
Rui, falemos com um mínimo de clareza. Quais medidas duríssimas? Quais cortes anunciados? Tente ver claro: Passos Coelho limitou-se a fechar a torneira pela qual não corria água; limitou-se a constatar em alta voz: “Não há água”. Porquê, então, acusá-lo de ter cortado a água que já não havia?? A unica medida de que ele pode ser acusado é de cortar as ilusões de quem se recusava a acreditar que a água tinha deixado de correr. Mas então, sejamos justos: acuse-se primeiro aqueles que pretendem continuar aferrados às suas ilusões e que sempre preferiram seguir os vendedores de mentiras.
A verdade é tão simples como é difícil de encarar: há anos que não há dinheiro para pagar subsídios de natal ou de férias. Há anos. Tudo o que foi pago a título de subsídio é apenas empréstimo, a ser pago pelos filhos e netos dos felizardos. Até que os credores se cansaram da brincadeira.
Por isso, aparte ironias e sarcasmos, há que reconhecer que os funcionários públicos estão a começar a ter aquilo que merecem. Finalmente.
O funcionalismo público cresceu de forma desmesurada é, tal como está, é perfeitamente insustentável. Mas os funcionários públicos souberam proteger-se: o seu despedimento foi tornado inconstitucional. Agora estão a perceber (aqueles que são capazes de encarar a verdade) que esse privilégio tem um preço; e chegou a hora de ele ser pago. Hoje, o Estado só tem possibilidade de pagar salários a metade dos funcionários existentes. Mas como nenhum pode ser despedido, só resta uma alternativa: pagar a todos só metade do salário.
Realmente, só lamento que o governo não tenha colocado na mesa as hipóteses em jogo. Os funcionários públicos deviam ter sido confrontados com a escolha: ou se despede metade, ou se paga metade. E cada um devia ter sido obrigado a assinar por baixo a sua escolha.
Falou claro, Sampy.
Devia ter vergonha do que fala. Fosse você um funcionário público e eu gostaria de saber se falava assim, se dizia tão facilmente que estão a ter aquilo que merecem. Pessoas como você merecem passar por aquilo que ninguém gostaria de passar, não ter dinheiro sequer para comprar o jornal, não ter dinheiro para pagar as despesas que se pagam com estes subsídios, não ter dinheiro para comprar um par de sapatos novos.
Vergonha, que vergonha…
Sabe lá você o que é ter a crise em cima dos ombros. Uma pessoa que fala assim não é digno sequer de ter intitulado de pessoa. Nem com “p” pequeno.
Dona Alice, que eu saiba, não a conheço de lado nenhum. Por isso, sinta-se à vontade para insultar. Aproveite para descomprimir. Saia à rua. Indigne-se. Cuspa nos polícias. Mostre o rabiosque para as televisões. Divirta-se enquanto pode.
Sente-se desesperada por perder os subsídios? Releia o que eu escrevi. Porque não aceitam despedimentos, os funcionários públicos vão perder metade do salário. Metade. A festa ainda só agora começou…
“A revolta perante o desmoronar de expectativas e de perspectivas de futuro é perfeitamente legítima.”
Só é “legitíma” para quem não quis saber um mínimo do País.
Qualquer pessoa com um mínimo de interesse pelo País sabe o que o futuro reservava , é só ir ao site do igcp e ver os boletins mensais , ou ler o orçamento…
E que nenhum português e muito menos um funcionário publico me diga que não tem tempo para ler a porcaria do orçamento.
Está e esteve lá tudo.
As contas estão ao alcance de todos.
A maioria votou no socialismo seja de direita ou de esquerda e uma boa minoria ainda votaria em mais socialismo.
Não bastou
– subsídios europeus,
– impostos a subir a cada ano – IVA começou em 15%
-ainda é preciso o Estado pedir emprestado 20% do que gasta.
Os portugueses gostam muito do ego afagado, dos discursos bonitos, das declarações de intenções.
Fazer contas de merceeiro não é com eles.
São aristocratas.
Não quiseram ser cidadãos.
O que terão – e os seus filhos – no futuro depende das lições que extraírem e pelo que se lê continuam a não querer. Se for será para pior. Tipo América Latina e a sua violência.
Os portugueses têm o que merecem.
Aliás é errado. Os portugueses ainda não têm o que merecem.
Isso só acontecerá quando começarem a pagar a dívida de volta.
Lucky, o seu diagnóstico serve-se gelado. Mas, para lá da racionalidade pura, é preciso ter em conta que ao longo dos anos as pessoas foram sucessivamente sendo enganadas com promessas e medidas insustentáveis. Provavelmente disseram-lhes o que queriam ouvir. Mas, é um facto que o que lhes disseram não era verdade.
Mas a questão, Rui, é: e agora? Agora há alguém que está a tentar dizer a verdade. E, aparentemente, nada mudou: as pessoas continuam a querer ouvir mentiras. Quase ninguém quer encarar a realidade.
Que porra, até em Cuba os funcionários públicos são despedidos! Como é possível que sejamos um país mais comunista do que Cuba?! Vai ser preciso colocar Raul Castro à frente do nosso país para se começar a endireitar as coisas?!…
Não creio que seja necessário, Sampy. Estamos a chegar a um tempo em que o que tem de ser tem muita força. Mas, concordo consigo relativamente às dúvidas que tem quanto à aprendizagem feita. Entretanto, nestes tempos mais do que nunca, é preciso que a actuação de quem tem o poder seja exemplar, frugal, isenta e rigorosa.
Não julgo que possamos separar os portugueses dos políticos que eles elegem.
Estamos numa Democracia.
E uma Democracia sã começa por os seus accionistas descobrirem os vendedores vigaristas que prometem para 4 anos o que em 15 anos dá bancarrota.
As pessoas têm de ser melhores numa Democracia se querem que a Democracia sobreviva.
E isso incluí votar contra o populismo.