Olhar um cão nos olhos faz-me sentir melhor do que sou. Olhar um gato nos olhos não me faz sentir pior do que sou porque o olhar dos gatos não admite desvios em relação à realidade. O olhar dos gatos é objectivo. Mesmo nas alturas em que contemporizam (e fazem-no por vezes, com as pessoas que lhes merecem alguma consideração) não escondem que o fazem. O olhar de um gato é parecido com o de uma mulher que se sabe extraordinariamente atraente quando perante um homem sem encantos físicos ou materiais mas deixa ainda menos margem para devaneios. Atira-me para o sítio certo, faz-me sentir exactamente como sei que sou. E por muito que alguns humanos tentem depois convencer-me de que sou melhor do que isso, percebo que mentem. Se tivesse filhos pequenos, talvez eles o conseguissem. Ou uma mulher nos primeiros estádios da paixão. Assim, apenas o olhar de um cão é capaz de me enganar novamente.
O olhar de cães e gatos (devaneio que já me arrependi de ir publicar)
escafandro,

Exactamente. A Espanca explicava como ninguém o olhar dos cães.
É verdade. Mas isto não é um ataque ao dos gatos. Gosto de ambos. São como elogios (cães) e reality checks (gatos).
Claro, os cães pedem afiliação. Os gatos são paritários. Adiivinha lá que ganha…
e arrependeu-se bem.
Ainda bem que concorda, NM.
Bem interessante esta tua reflexão, que nos pode levar longe. A pensar, por exemplo, que tendemos a desprezar quem nos admira e a admirar quem nos despreza 🙂
Certo. Tomamos por garantidos quem nos admira e damos prioridade a quem nos despreza, praticando actos que só aumentam o desprezo…
Ainda bem que publicaste. Gostei de ler-te. É por isso que se diz que somos donos de cães mas nunca de gatos. E é uma grande verdade.
Os gatos são uns incompreendidos.
Mas eu gosto de gatos. Preciso de reality checks com frequência. E de quem goste de estar comigo apesar de não parecer precisar de mim para nada.
É. Mas pior ainda são as gatas. Perdão: as “gatas”. Não que devas perceber muito do assunto, sendo menina. Bom, para ser sincero, eu também não percebo.
‘Bang Bang!’, usada por Tarantino no Kill Bill, é talvez a sua única boa canção. Esta é um bocadinho frouxa.
Ainda que de formas escapando à minha compreensão, qualquer comentário ligando um post meu a um filme do Tarantino será sempre um tremendo elogio ao post. Muitíssimo obrigado.
Roubei-lhe o post e ilustrei-o.
Obrigado, João. Não se esqueça de arranjar uma caixa com areia. E um novelo de fio ou um par de chinelos.
Desculpe jaa. A ideia era comentar o post anterior – “As canções do século (647)”.
Ah, ok. As voltas que eu dei à cabeça tentando descortinar a relação. Acabei por decidir que era um comentário sarcástico. Uma espécie de non sequitur que pretendia chamar a atenção para a falta de sentido do meu post. Decididamente, tenho que começar a pensar menos…
Neste assunto de cães e gatos, recordo-me sempre de um professor de Filosofia dos meus anos do Secundário – de longe, o melhor professor que tive em todo o meu percurso académico – que contava a seguinte história para ilustrar as diferenças entre cães e gatos:
O cão olha para o dono e pensa: ele dá-me casa, dá-me comida e água, faz-me festas, brinca comigo e leva-me à rua. Ele deve ser Deus. O gato, por seu lado, olha para o dono e pensa: ele dá-me casa, dá-me comida e água, faz-me festas, brinca comigo e deixa-me andar à vontade. Eu devo ser Deus.
Também sou uma cat person, já agora 🙂
Nem mais, João. Já agora, esse olhar “eu devo ser Deus” também se nota em alguns CEOs, políticos e agentes culturais. Mas só tem piada nos gatos. 😉
CEO, políticos e agentes culturais não ronronam. Está tudo dito.
Indeed. Bem visto.
Talvez seja por ser mulher, mas prefiro o olhar do cão (tranquilizador e feliz por nos ver todas as manhãs, nem que seja em pijama e despenteada).
Excelente post.
Obrigado, Helena. É, o olhar de um gato parece logo uma crítica, ainda que relativamente benigna. Mas os gatos não conseguem evitá-lo porque detestam estar eles próprios despenteados. Afinal, onde é que já se viu um cão passar horas a tratar do pêlo?