O ORGANISTA
Entrou calmo, cara de bebé, lisa e branca, em cima da hora e sem uma palavra.
Chegou fardado, engomado, com passos pequenos e determinados, olhou sem expressão para cada um e, por fim, para o órgão.
Era domingo e faltavam poucos minutos para o meio-dia.
– Quem é? – perguntou a filha de um coronel, a mais fresca das vozes do coro.
– O novo organista – respondeu um soldado.
Durante a guerra, a missa, na Capela Militar de Nampula, chamava muita gente. E, desde a introdução da Missa Gen, chegadinha de Itália, acompanhada à guitarra, flauta e bateria, gentilezas do EMGFA, ainda mais.
Sentou-se, tirou a boina, amarela, pousou-a delicadamente ao lado do teclado, do lado dos graves, e esperou. O padre entrou. E o ar desfez-se em moléculas de música, numa harmonia tão suave que desviou o olhar dos fiéis, atónitos e rendidos, para a cara, sem ponta de emoção, do bebé.
– Sim, mas quem é?
– Um GE, um especialista em operações especiais e golpes de mão, que gosta de andar sozinho e de atacar à faca – e pelos vistos também de tocar órgão.
Depois do ide em paz e que o Senhor vos acompanhe, o rapaz levantou-se, benzeu-se, ajeitou a boina, a pender sobre a orelha esquerda, e saiu.
E foi assim quase todos os domingos, excepto num ou noutro, em que todos o imaginávamos na selva, a cortar gargantas.
(Notinhas de uma guerra engolida)

Normalmente, as pessoas ligadas a uma qualquer forma de arte, são humanas e sensíveis. Mas é verdade que também as há deste tipo: dedicadas à sua arte, capazes de encantar (neste caso, com um instrumento musical) e que, nas “horas livres”, se dedicam a cortar gargantas. Pergunto-me sempre se, no exercitar da sua arte, o fazem com sentimento, ou são, apenas, metódicas e frias. Por isso, tudo lhes sai bem, não ficam nervosas, nem têm medo de falhar.
Essa é a grande questão, Cristina. Será que essas pessoas não têm uma espécie de desdobramento de personalidade e podem ser realmente sensíveis quando se entregam a um talento artístico? Eu acredito que sim.
Em princípio, uma arte implica sentimento, sim. Talvez haja pessoas que, incapazes de aplicar os sentimentos na sua vida quotidiana, os canalizem para a manifestação artística.
De qualquer maneira, acho interessante essa problemática dos sentimentos. São invocados, quando se trata de diferenciar o ser humano das máquinas (ou robots). E, no entanto, a maior parte de nós tem muita dificuldade em lidar com eles.
Não sei se arte e sentimento são dissociáveis. Um bom executante pode não acrescentar grande coisa à pauta. E a vida também me ensinou a desconfiar de pessoas frias – nunca topei nenhuma realmente fria. Trago este episódio na memória num limbo de incertezas, Cristina e Ana. É que na guerra a rapaziada já chega ao campo de batalha parcialmente destruída por meses de esmagadora violência. Uns safam-se melhor, outros pior. Penso que a chave da coisa anda por aqui. Adoraria reencontrar este moço, hoje um homem. E não me admiraria reencontrá-lo a tocar Bach, e ao mesmo tempo a frequentar algum gabinete de psicologia.