Nem é preciso esperar pelo encerramento: o congresso do PS recheou de vulgaridades e lugares-comuns o pavilhão de Braga, o que corresponde exactamente ao que podia esperar-se. Menos esperada, porém, foi a incapacidade para o partido assumir o lamentável estado em que deixou o País ao fim de seis anos de governação, preferindo descobrir todos os defeitos e mais alguns num Governo que ainda não leva cem dias de trabalho.
Em suma: a palavra “exigência” tão abusada no discurso do PS é destinada exclusivamente aos outros, o que revela bem o logro daquelas intervenções que não se ficaram pelo martelar desgastado do que é normal e vulgar. Dois exemplos desse logro: a situação da Madeira foi insistentemente apontada, mas foi tímido o reconhecimento da situação nacional para que fomos empurrados pelo governo socialista; o contraste entre as promessas eleitorais e as primeiras medidas tomadas pelo actual Governo foi denunciado à exaustão, mas não houve uma só palavra sobre o sucessivo incumprimento de todas as promessas anunciadas pelos governos de Sócrates.
Tudo isso era escusado e até indesejável. Mas o PS quis que fosse assim e nem sequer faltaram alguns momentos para tentar lavar a imagem de Sócrates, apesar de toda a gente saber que não existe saponária capaz.
O logro deste congresso socialista permite adivinhar que o PS tem pela frente uma longa travessia do deserto. O partido irá manter-se distanciado dos eleitores todo o tempo que estes demorarem a esquecer aquilo de que o próprio PS se fez esquecido em tão pouco tempo.


João,
Em total concordância com o que escreveu. A conclusão que retiro é a seguinte que descrevo.
O facto de ter tido uma liderança que “secou” o devir ilustra que os partidos nacionais (uma vez que já conteceu noutros quadrantes) são muito personalizados, muito “ad personam”.
Ora o ideológico e a imaginação circunstancial devem fazer parte da liderança de um partido. O PS é um dos dois partidos (o outro é o CDS-PP no sector conservador) que contem uma ideologia rica, num espaço fecundo (o europeu), …faltam os homens de visão larga.
O PS não revela o discurso prático adveniente da riqueza ideológica que tem nem a imaginação para contornar as circunstâncias de tempo e de modo que a ideologia possui.
É nesta mediocridade de pensamento e acção que andamos.
Assim, não houve uma censura da deriva “de Giddens” que se corporizou num Blair , não houve rasgos espirituais para corporizar valores tipicos do socialismo democrático.
É pena para o debate nacional que é também um debate de ideias.
Mais do mesmo.
Nem mais.
Ah o cada vez mais nobre (por ser cada vez mais raro) sentimento que nos faz baixar os olhos, falar em timbre tremido e avermelhar as bochechas. Onde para a vergonha por estes dias, senhores?
Quanto ao congresso, alguém há muitos séculos definiu a situação na perfeição:
http://dissonanciasdaquemedalem.blogspot.c om/2011/09/daquem-ignominia-congresso-do-p s.html
Ah!
Foi só uma correcção oportuna à minha falta de pontuação no comentário anterior, ou houve algum outro sentido que me escapou?
Foi o modo mais simples que encontrei para aquiescer com a sua própria interjeição.
Pois bem, pois bem. Já se sabe que sem a preciosa ajuda da entoação e da comunicação não verbal a mensagem por vezes poderia não ter chegado por inteiro.
Sócrates será um eterno embaraço para o PS. O partido não só o deixou tempo de mais na liderança como ainda o apoiou de forma esmagadora (mais de 90%!!!) no fim do mandato, quando já nada o podia justificar. Como explicar o inexplicável? É por isso que disfarçam e mudam de assunto, João.
Dizes muito bem, Ana.
António José esperou muitos anos na fila do fundo do PS para que chegasse o seu momento.
Para o exterior começou já a demagogia dos acenos, da mal pensada e pior executada visita aos “stands” das televisões.
Pena terá sentido por não haver nenhuma criança à mão de semear e que pudesse com os lábios besuntar para câmara de tv filmar. (Sem conotações com Casa Pia.)
A demagogia já anda no ar, mas a procissão ainda nem sequer saiu do adro.
Cumprimentos.
Receio bem que seja mais ou menos isso, meu caro.
Por vezes questiono-me se de facto alguma vez foi diferente? Ou se essa coisa extraordinária que é política sem demagogia não terá simplesmente sido legada geração após geração no imaginário colectivo, nunca tendo de facto existido. E quem fala da política, fala por extensão da sociedade. Afinal, já Marcus Tulius exclamava “O tempora, o mores” há tantos séculos atrás. Terá havido alguma geração que não apregoasse que se vivia numa crise de valores morais?
Infelizmente, penso que a coisa é bem mais grave do que o descrito.
Vi no sábado uma reportagem na SIC sobre o pós-Sócrates. As palavras das pessoas, as suas expressões quando falavam do “amado líder” deixaram-me com uma terrível sensação. E uma (quase) certeza absoluta: se o Sócrates pusesse os pés no congresso, aquela gente cair-lhe-ia rendida aos pés. Como se nada se tivesse passado ou, pior, como o que entretanto se passou tornasse ainda mais ansiado o seu regresso…
É muito possível, meu caro. Eu é que tento sempre não ser cáustico logo à partida.
És muito mauzinho, João. Deve ter sido por causa deste teu post que há pouco ouvi no café um tipo a dizer que o PS tem um novo líder que se chama António José Logro… hehehe!!!
Hehehe… E eu é que sou mauzinho…