A t-shirt e a festa


Ana Lima,

A primeira vez que estive na Festa do Avante foi no primeiro ou segundo ano em que se realizou na Quinta da Atalaia, pela mão de um namorado, que, pertencendo à JCP, nela trabalhou arduamente. Depois disso, poucas vezes lá fui. Este ano (ontem) foi uma delas.

Podia falar da boa organização; da enorme quantidade de gente que vi por lá; da alegria que, apesar da crise, li nos rostos; da mistura de gerações que nos faz ver velhos nos concertos de música mais alternativa e jovens nas actuações dos grupos de folclore; das excelentes pataniscas de bacalhau comidas no pavilhão de Viana do Castelo; dos quadros horrorosos que se vendiam no balcão do Partido dos Trabalhadores da Coreia (do Norte), talvez reproduções de alguns pintados pelo “grande líder”; do concerto dos Trovante do qual, apesar de ser um grupo que há já muitos anos deixou de me entusiasmar, gostei muito; ou de questões, mais de fundo, como o facto de, a par da evolução, a muitos níveis, se sentir também a vetustez de algumas teorias expressas em debates que mais parecem conferências de um só orador.

Mas falo antes das t-shirts que os visitantes vestiam e que exibiam recados ou demonstravam preferências.  Nestas, o desenho baseado na foto tirada por Alberto Korda, de Che Guevara, continua a ser largamente predominante. Variava a cor, o tamanho, mas aquele rosto com a bóina lá estava. No meio de muitas t-shirts com o mesmo motivo, uma me chamou mais a atenção. Num dos lados, por cima da imagem de Che estava, não uma frase revolucionária, mas o logotipo e o nome de um dos maiores bancos portugueses.

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18 comentários em “A t-shirt e a festa”

  1. Eles têm a lata de admitir um balcão do Partido dos Trabalhadores da Coreia?! Deve ser o único país da União Europeia a consentir em tal!!!

    Por aqui se vê a importância de Portugal…

    1. No que é designado de espaço internacional existem pequenos “stands” de países que eu nem imaginava que tinham partidos comunistas activos. Mas são discretos. E este da Coreia também. Nem me pareceu que fossem coreanos que lá estavam. Mas também não perguntei. Não deixa, no entanto, de nos espantar que um regime daqueles participe nestas coisas. Ainda pensei se não teriam vindo com os do Brasil. A verdade é que não havia um único elemento de propaganda. Só o que poderia ser artesanato em cerâmica e os tais quadros que pareciam a óleo, com paisagens. Não percebi qual o preço mas vi uma pessoa a comprar um. 🙂

      1. Uma coisa é autorizar a presença de partidos comunistas de países que nem imaginávamos que os tivessem, mas que existem porque, calculo, vivem em democracia. Outra coisa, é permitir a presença de um partido tornado regime ditatorial, chefiado por alguém doente, sem noção da realidade e que não respeita os Direitos Humanos. Mesmo que não fossem coreanos que lá estivessem, o facto de se fazerem representar (e serem aceites) já é grave.

        1. É essa velha mania do PCP continuar fiel a relações com partidos, ou ideias que já provaram ser completamente contrárias a alguns valores básicos que o faz ficar para trás.

    1. Aquilo que não gostei é o que faz o sucesso da festa: a quantidade enorme de gente que me obrigou a estar numa fila de hora e meia para comer e que não me deixou chegar perto de um dos concertos a que queria assistir.
      Gostei, tal como das outras vezes, do espírito de entreajuda que se observa em muitas situações, da imensa diversidade de pessoas que se espalham pelas várias propostas de programa. E encontrei discos raríssimos de vinil na feira do disco. 🙂
      Mesmo se muitas das pessoas que vão à festa, como é o meu caso, não se enquadram politicamente no espírito, do ponto de vista da observação, é um local fantástico.

    1. É verdade, Leonor. Para muitos é mais um festival de Verão, a juntar aos outros todos. Essa será uma das alterações que mais notei. Pareceu-me que, das anteriores vezes que lá fui, havia mais gente com mais idade. Agora há, de facto, muitos miúdos que vão porque o preço das entradas permite ver uns concertos a preço acessível.

      1. Para um partido que supostamente está a envelhecer, ter mais jovens do que há 15 anos, é obra… e sobretudo motivo de regozijo e nunca de crítica… Seja qual for a razão porque lá vão.

  2. Mas só viu o stand do partido da coreia???

    E a t-shirt publicitária???

    Não viu, por exemplo o stand do tudeh? e que mensagem absorveu?

    Não reparou que não havia NENHUMA t-shirt ou bandeira monárquica espanhola? e a que te ficou foi a do banco?? pois, o problema não está no que se mostra, mas sim em quem o vê… De tudo o que viu guardou as recordações de merda… é bem… é uma óptima perspectiva da vida… continua… deves ser uma óptima companhia…

    1. Nas horas que estive na Festa não vi tudo, com certeza. Não vi o stand de que fala. De qualquer forma imagino que o tudeh não deva ter a vida facilitada lá no Irão.
      Como deve imaginar vi mais coisas do que aquelas de que falei. Mas o que vale nestas coisas dos blogues é que falamos do que nos apetece. 🙂
      Quanto ao resto do comentário, apesar da linguagem não ser merecedora de resposta, sempre lhe digo que uma das características do ser humano é a atenção selectiva, característica que eu, enquanto tal, partilho. Outra coisa que partilhamos, também enquanto seres humanos, é a nossa capacidade de interpretação que é, em grande parte, formada pelas nossas aprendizagens anteriores. Ora sendo todos nós livres de formarmos a nossa interpretação, a sua diz-lhe respeito exclusivamente a si.
      De resto, lamento dizer-lhe mas não ficou a saber nada da minha perspectiva de vida. Já lamento menos o facto de que nunca ficará a saber se eu sou ou não uma óptima companhia. 🙂

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