É uma sensação curiosa, ter dois amigos como presidentes da República em países lusófonos.
O primeiro: José Ramos-Horta, que conheço desde miúdo, quando vivi em Díli e ele era um destacado jornalista do diário Voz de Timor. Na década de 80, já eu era então também jornalista, e ele secretário-geral da Fretilin depois de ter sido ministro dos Negócios Estrangeiros da efémera República Democrática de Timor-Leste em 1975, escrevi uma “carta aberta a Ramos-Horta” em que prometia abraçá-lo novamente em Díli quando a opressão indonésia chegasse ao fim. Não era fácil escrever artigos desses, nessa época, na imprensa portuguesa. E muito menos no Tempo, dirigido por Nuno Rocha. A promessa tardou, mas chegou. Em Novembro de 2004 – vinte anos após a minha “carta aberta” – cumpriu-se o vaticínio: abracei-o no Palácio do Governo, na capital timorense, era ele primeiro-ministro. E nessa mesma noite, jantando ao lar livre na sua magnífica residência perto da praia da Areia Branca, relembrámos os encontros que fomos mantendo, em Lisboa e Macau, durante os anos de chumbo da ocupação, quando alguns influentes políticos portugueses advogavam o reconhecimento de jure da criminosa anexação indonésia, em nome da realpolitik. Alguns deles ainda andam por aí, procurando dar lições de superioridade moral aos outros. Como se tivessem algo que os habilitasse para o efeito.
O segundo: Jorge Carlos Fonseca, que hoje toma posse como chefe do Estado cabo-verdiano. Conhecemo-nos desde o final da década de 80, em Macau – era ele então professor da Faculdade de Direito na Taipa, depois de ter leccionado na Faculdade de Direito de Lisboa. Mesmo à distância, alimentava um sonho: contribuir para o fim do regime de partido único em Cabo Verde naqueles dias em que sobre as ruínas iminentes do império soviético emergiam democracias um pouco por todo o globo – da Europa ao Extremo Oriente, da América Latina a África. Formávamos um trio de colunistas (o terceiro elemento do trio era o nosso compagnon de route João Carvalho) no semanário católico O Clarim, que atravessou então – posso dizê-lo sem falsas modéstias – uma das suas melhores fases de sempre, graças em boa parte à pena acutilante deste meu amigo agora eleito Presidente de Cabo Verde. Quando partiu de Macau, em 1991, tinha motivos reforçados para dar asas à sua vocação política: o país abandonara o sistema de partido único, o que permitia a entrada em cena do Movimento para a Democracia, vitorioso nas eleições legislativas que logo se seguiram. O Jorge já lá estava e assumiu a pasta dos Negócios Estrangeiros no primeiro Governo democrático de Cabo Verde.
Reencontrámo-nos anos depois, em Lisboa, e nunca perdemos o contacto. Costumava dizer-lhe: “Um dia chegas a Presidente.” Ele ria-se, dizia que preferia escrever e dar aulas do que manter-se na política. Mas a sua vocação para a intervenção na vida pública mantinha-se intacta: ei-lo agora em vésperas de prestar juramento como quarto chefe do Estado de Cabo Verde após Aristides Pereira, António Mascarenhas Monteiro e Pedro Pires. Com a assinalável diferença de esta ser a primeira vez em que o país tem um presidente e um primeiro-ministro de diferentes cores políticas (José Maria Neves é do PAICV) – um sinal acrescido do grau de maturidade que a democracia cabo-verdiana já atingiu.
Espero rever o Jorge um dia destes na cidade da Praia, como já aconteceu com Ramos-Horta em Díli – num e noutro caso, Portugal tem os melhores interlocutores: são ambos lusófonos e lusófilos convictos e assumidos. Espero lembrar com ele aqueles tempos tão empolgantes e simultaneamente tão divertidos em que, sentados à frente de velhas e pesadas máquinas de escrever, redigíamos os nossos artigos de opinião, sempre muito cáusticos para a classe política de Macau. Política e jornalismo, duas paixões que partilhamos. Seja em que tempo for, seja em que lugar do mundo for.
Um abraço amigo, Jorge. Desejo-te as maiores felicidades no teu novo cargo. Tenho a certeza antecipada de que confirmarás as expectativas que os eleitores cabo-verdianos acabam de depositar em ti.
Foto Expresso das Ilhas


Revi o Jorge Fonseca em finais da década de 90, quando ele me telefonou a dizer que estava no Porto de passagem. Espero ir contigo revê-lo na Praia, compadre.
Um abraço, Jorge.
Não era mal pensado reunir os mosqueteiros (falta o «D’Artagnan») um dia destes na Praia, compadre.
Ha, ha! Acho que agora com esta fiquei mesmo a saber (com um razoável grau de certeza) quem é o autor do artigo.
Se é mesmo quem eu penso, confesso-me agradavelmente surpreendido.
(Não se preocupe, que eu não digo a ninguém ou… a quase ninguém, pronto, confesso.) 8)
Ainda bem que ficou agradavelmente surpreendido, meu caro. Mas olhe que a identidade do autor é conhecida. Há 30 anos que uso este nome profissional – e também na blogosfera, onde nunca precisei de pseudónimos. Nem nunca tive qualquer motivo para me preocupar fosse com o que fosse.
Acredito. Mas eu entretenho-me muito pouco com o saber quem é quem – uma actividade quase a tempo inteiro para muitas das pessoas que conheço – e depois tenho estas “piquenas” alegrias tolas de descobrir… o que toda a gente já sabe.
Pois, Zé de Portugal: a vida tem mais sabor assim, quando é feita de pequenas alegrias.
Vem mesmo a calhar:
Eu também sou amigo de peito dos presidentes Armando Guebuza(Moçambique) e de Eldourado dos Santos ( Angola)…
Que tal nos reunirmo-nos todos numa tertulia palopiana ,acompanhada duma boa cachupada, muambada e daquelas inconparaveis gambas grelhadas ?
Vamos nessa? Eu alinho.
Ps. Amigo, porque sou o “bruxo” deles. Só.
Nem me fale em muambada, que eu alinho logo. Mesmo sem o Zedu.