Ontem anunciaram que o aumento do número de crianças por sala permitirá criar 20 mil novas vagas nas creches. É, claro, uma má medida. Todos sabemos que as crianças precisam de espaço e vistas largas. Para estreitezas bem basta o pouco tempo que passam em casa, confinados à cadeirinha, enquanto o pai vê o Benfica, assim o nevoeiro o permita, a mãe actualiza conhecimentos no Facebook e o irmão de seis anos estuda com a profundidade necessária todas as potencialidades da Wii. Por isso, não admira que os corações dos progenitores se apertem em sofrimento perante a antevisão de pilhas de crianças amontoadas, partilhando, com evidente falta de privacidade, babas, ranhos e, tremam os pilares da psicologia infantil, os arrotos que se seguem à sopa passada. E que o pequeno Rúben se desfaça em pranto. Na verdade, só não chora quem não tem coração. Vocês tentam, mas ainda não estão lá, é o que é. Falta a essas almas empedernidas uma fina capa de sensibilidade social. Um polimento final em esmerado eduquês. Uns ornamentos de destreza estatística. Um certo amor pelo estado social. Explico-vos como se faz (atentos, que não duro sempre):
Lucrécia Algodãodoce, Presidente da Comissão do Livro Arco-íris para a Compreensão dos Estados de Alma da Primeira Idade e Promoção da Felicidade Infantil, apresentou as conclusões preliminares do trabalho desenvolvido nos últimos meses a pedido do governo. A Investigadora, licenciada em Estudos da Criança pela Escola Superior de Educação de Cabeça Gorda e doutorada em Serviço Social e Geriatria (isto dá jeito, porque podem usar a mesma pessoa quando tiverem que tratar da questão dos velhotes) pela Universidade de Wayne Bridge, afirmou que o estudo permitirá adoptar, a curtíssimo prazo, um conjunto de best practices educativas que colocarão Portugal na vanguarda dos sistemas e equipamentos sociais de apoio às famílias e às crianças, bilu bilu bilu. Avançando algumas conclusões do trabalho efectuado, a investigadora afirmou que todos os estudos recentes apontam no sentido da necessidade de uma maior proximidade entre as crianças e que esta deve ser assegurada logo a partir do berçário. O contacto físico e visual entre os bebés, cuchi cuchi cuchi, promove e reforça laços de afectividade e promove uma socialização precoce, potenciando estratégias e abordagens educativas ricas e diferenciadas de estruturação da socio-afectividade infantil, quem é lindo quem é. Face a estas conclusões, Lucrécia Algodãodoce acrescentou que a Comissão a que preside formulará uma forte recomendação ao governo no sentido de aumentar significativamente o número de crianças em cada sala: “a sociedade deve fazer tudo o que estiver ao seu alcance para assegurar um desenvolvimento saudável, harmonioso e equilibrado aos nossos filhos“.
Uma medida muito diferente, como se vê. E que, por isso, não provocaria choro e ranger de dentes, mas Catarinas e Franciscos sorridentes e confiantes no futuro.

Tu é que devias ter ido para assessor de comunicação, não o Figueira do 5 Dias.
Não sei como é que eles não reparam que está cobertinho de razão.
Confirmo: a criança estava a olhar para a Fafá de Belém.
Ehehehe.
esta fotografia, se tirada numa creche, vai passar a ser uma raridade.
de futuro, qualquer criança aparecerá nas fotografias “individuais” na companhia de um batalhão de rostos, mãos e sabe-se lá que mais, de outras crianças (nada que o photoshop não resolva).
Vejo que não prestou a devida atenção às conclusões do livro Arco-íris, Carlos.
Tens tanta razão,Rui. beijo P
Obg, Patrícia.
A medida deve dar resultado, porque o pequeno Rúben está francamente mais bonito. E menos ranhoso.
É o que digo, Ana. A psicologia infantil é uma arma poderosa que pode tornar o mundo melhor.
Se és jogador(a) de Wii, envia os teus records para o site
http://www.wii-records.com
e ajuda Portugal a subir no ranking.
Divulga pelos teus amigos.