outra espécie de vidinha


Patrícia Reis,

Sou casada com um homem rico. Não parece grande coisa, mas tem três talhos em Sacavém e um em Moscavide. Comprou uma carrinha com sete lugares porque diz que quer uma família grande. Não podemos ter gatos ou cães porque ele é alérgico. Não faz mal. Pintou o quarto como vi numa revista e só vê um jogo de futebol por dia. Eu faço as unhas de gel com a irmã dele e vimos a novela da TVI e os gordos da Júlia Pinheiro, para lhe dar uma força, lemos nas revistas que aquilo na SIC não está fácil. Somos uma família feliz. Sei que vem aí a crise não tarda, mas as pessoas têm que comer e o meu homem é muito esperto, controla tudo. Vou abrir um pequeno negócio de venda de qualquer coisa, mas ainda não me decidi. O facto de estar grávida não ajuda muito e ando com os nervos feitos num fanico. Durmo mal, já nem a almofada entre os joelhos me ajuda. A minha cunhada fica triste a ver a minha barriga crescer, ela que tem a dela vazia, vazia como um ovo podre. Nunca terá filhos, coitada. Tento fazer com que pense noutras coisas, mas não é fácil. A minha mais nova, fez quatro anos na semana passada, está traquinas e não pára, às vezes acho que deve sofrer de um mal qualquer porque não está quieta, anda sempre a dançar e a fugir e eu não tenho pachorra e o meu homem muito menos, ele que se levanta tão cedo, coitado, e tem tantas responsabilidades. A menina tem tudo, tudo como é suposto. Até o quarto brilha, como se fosse tirado de um filme. Enerva-me que ela só queira brincar com as coisas da cozinha quando tem um quarto cheio de coisas e já perdi a cabeça mais de duas ou três vezes. Dou-lhe uns safanões, uns estalos e dois berros. Eu também levei e não me fez mal nenhum, digam lá o que disserem. Por isso, diria que a minha vida é um pouco melhor do que a dos outros e que sou feliz. Sim, foi a cruzinha que coloquei no teste felicidade que saiu hoje na revista com o jornal do meu homem. Sou feliz a mais de setenta por cento. Às vezes vejo aquelas escanzeladas, cheias de coisas de marca, cursos superiores e filhos criados e pergunto-me se serão felizes. Não são de certeza. Pelo menos não são como eu sou. Posso apostar.

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