Escuto um daqueles programas destinados a “ouvir a voz do povo” num canal televisivo de notícias. O tema da tarde era a queda da ditadura líbia no preciso momento em que as forças da oposição irrompiam no bunker de Kadhafi, no centro de Trípoli, e se confirmava a conquista da capital após seis meses de sangrenta guerra civil.
Para meu espanto, nem uma só voz se ergueu em defesa dos combatentes anti-Kadhafi. Todas as opiniões exprimiam apoio explícito ou velado ao coronel que oprimiu a Líbia durante 42 anos.
Opiniões como estas:
«A Líbia é um paraíso. É um país como a Suíça, mas [os opositores] deram cabo dele.»
«Preocupa-me saber o que é que estes senhores [da oposição] vão fazer quando chegarem lá [ao poder].»
«Eu nunca estive na Líbia. Mas o que está em causa na Líbia é o dinheiro, é o petróleo.»
«Há duas semanas também houve violência na Inglaterra.»
«Não me venham falar em direitos humanos.»
«O que vão fazer ao Kadhafi? O mesmo que ao Saddam Hussein?»
Trinta e sete anos depois do 25 de Abril, chegámos a isto: queremos a democracia para nós enquanto toleramos e até aplaudimos a ditadura para os outros. Quem lamenta a queda de Kadhafi, pela mesma lógica, alinharia por Marcelo Caetano contra Salgueiro Maia.
«Não me venham falar em direitos humanos.» Uma frase que poderia ter sido proferida por Salazar, reeditada neste Portugal do século XXI. Como se a atracção pelos regimes de “pulso forte” estivesse inscrita no nosso código genético.


Essa súmula de comentários reflecte, entre outras, duas realidades da sociedade portuguesa, em geral: por um lado, fraco conhecimento de História; e, por outro, desinformação gerada por grande parte da comunicação social ao não tratar Kadhafi como um ditador, em vez disso, chamam-no de “líder”. Bem, há diferentes estilos de liderança…
Os órgãos de informação têm responsabilidade, é certo. Enquanto lá fora há muito que os jornais chamam ‘ditador’ ou ‘tirano’ ao Kadhafi, aqui ainda hoje li várias referências ao ‘líder’ líbio. Com muito respeitinho.
Mas o que tudo isto revela, mais do que desinformação, é falta de apego pela liberdade. Muitos portugueses não se importariam de voltar a ver por cá um regime ‘musculado’. É isso que se conclui ao ouvirmos a defesa que fazem de regimes autoritários ou ditatoriais noutros países.
É puro salazarismo, Pedro, mas (perdoa-me discordar) doutra cepa, bem mais arreigada e castiça. A técnica consiste em achar sempre que o que estava é melhor do que aquilo que vem. Ou: mais vale um mal conhecido do que o desconhecido. Esta é a matriz profunda do salazarismo que, é olhar à volta, norteia a vida portuguesa de alto a baixo. Há semrpe alguém frontalíssimo a dizer que é preciso uma mudança radical no sistema, mas face à mais ligeira alteração achará que não era assim, mas doutra maneira.
Viva, José. Tens razão: é isso. O mais contraditório é que muitas das pessoas que emitem essa opinião estão sempre a enaltecer o ‘nosso’ 25 de Abril. Enquanto negam que outros povos tenham os seus próprios 25 de Abril. Democracia aqui, tudo bem; ditadura noutros países, tudo bem também.
Acho isto extraordinário. Para não dizer que acho execrável.
«Não me venham falar em direitos humanos.» Uma frase que poderia ter sido proferida por Salazar, reeditada neste Portugal do século XXI.
Salazar é um Humanista, só um Humanista com H grande tira o seu povo da completa miséria que a I-Republica o deixou!!
Você só vem dar razão ao que eu escrevi.
ainda bem…
Excelente.
Também ouvi o Opinião Pública de hoje à tarde e também fiquei de boca aberta com os comentários. Mas não foram todos tão estúpidos. Realmente aquele grunho que viveu 18 anos na Líbia e acha que é tão bom como a Suiça mostra aquelas pessoas que não têm sensibilidade e instrução mínimas para perceber o mundo; e a outra que disse que houve distúrbios em Inglaterra e só se ouviu defender o Governo e não os perturbadores mostra aquele tipo de esquerdismo okupa que não há nada a fazer; mas, em geral, as pessoas opinam bem nestes programas e vê-se que têm a noção das coisas. Mais do que isso, em várias alturas ouvi-as a perceber muito bem as enganações que os políticos estavam a tentar vender…
É isso, Perplexo. Comparar a Líbia à Suíça só mesmo por grunhice…
Poderá contradizer e referir que está a comentar criticamente um conjunto de opiniões deixado na TV mas não posso concordar com este texto, que comenta algo que não identifica. Que programa? QUe estação? E, se possível ou significante, que locutores? Senão quem lê fica incompreendendo, em parte pelo menos.
Meu caro, não referi o nome da estação de TV por me parecer irrelevante. As televisões e as principais rádios têm programas diários deste género – todos iguais. O que interessa, neste caso, é o conjunto das opiniões postas no ar. Que revelam como é fraco o nosso apego à liberdade, algo surpreendente.
Mais surpreendente ainda: em nome da ‘esquerda’ justificam-se as mais abomináveis ditaduras. Como se só nós tivéssemos direito ao 25 de Abril e os tunisinos não tivessem direito ao 14 de Janeiro e os egípcios não tivessem direito ao 11 de Fevereiro e os líbios não tivessem direito ao 22 ou 23 de Agosto.
Um abraço.
quanto ao conteúdo do seu desagrado não posso estar mais de acordo (ainda que não me surpreenda esse ser antidemocrático da esquerda e de determinada “voz do povo”). mas como não conheço os aludidos programas televisivos fiquei algo baralhado ao ler o texto Cumprimentos
Percebo, meu caro. Mas foi uma opção própria, não leve a mal. Continuo a lê-lo sempre com interesse.
Um abraço.
Pedro,
Belíssimo poste a contar a realidade.
Há muito que aqui não vinha. Valeu a pena.
Um abraço.
Obrigado, Miguel. Abraço.
Pinochet, Salazar têm o cognome de “Ditadores” pois nunca se ligaram à Esquerda.
Fídel, Kadhafi, Assad, etc já não, são ou foram “Líderes”.
Pois fizeram parte do Bloco de Leste de uma maneira ou de outra. É essa a narrativa em todos os Jornais e redacções em Portugal, essa cultura formatou a maioria dos portugueses e estes respondem de acordo.
Estou convencido de que a atracção pelos regimes de “pulso forte” – ou, pelo menos, a atracção por comportamentos servis – está inscrita no código genético dos Portugueses. Creio que se tem vindo a inscrever ao longo dos últimos 400 anos, mais ou menos.
Quero crer que não é bem assim. Mas já estive mais convicto disso.
Nunca entendi a simpatia com que os tiranos são tratados pela esquerda portuguesa e europeia.
O objectivo da Esquerda é destruir a Civilização Ocidental (Religião Cristã), Capitalista(Mercado Livre).
Tudo o que forem aliados estratégicos ou circunstanciais são bem vindos.