O comentário da semana


Pedro Correia,

 

«Li, há uns bons anos, um artigo que falava precisamente sobre este problema da juventude descontrolada na Inglaterra. Fiquei com a ideia de que quem lá vive sabia perfeitamente que, mais cedo ou mais tarde, isto poderia acontecer.
Os jovens abandonam a escola, não trabalham, consomem mais álcool e drogas do que nunca. A gravidez na adolescência continua a escalar. São, no fundo, crianças que se vêem de repente num mundo de adultos, obrigadas a agir como adultos e não sabem como o fazer, porque não tiveram qualquer preparação para isso, seja na escola, que abandonaram precocemente, seja em casa, com os pais sempre ausentes e demasiados concentrados na carreira e na sua vida pessoal.
No texto que li os ingleses admitiam claramente que existe uma falha na educação das crianças. Os ingleses não sabem como lidar com elas. Não existem espaços onde elas possam estar, como por exemplo os nossos simples parques infantis. E realmente, eu pude constatar isto. Têm muitos parques, mas não têm parques infantis.
Imagino que crescer num mundo de adultos, sem a devida atenção, possa criar sentimentos de revolta. Se os juntarmos com as mesadas excessivas que os pais dão aos garotos e a facilidade com que se compram drogas e afins, deparamo-nos com uma geração de mimados, que nunca ouviram um não na vida, que pensam ser super-heróis e que podem fazer tudo.
Este comportamento é inaceitável, claro. Mas não podemos apenas apontar o dedo e dizer que deviam cumprir serviço comunitário. Quer dizer, podemos e devemos. Devem ser castigados e aprender o que é a vida, mas não nos podemos esquecer dos reais culpados desta situação.
Sempre que há algum problema com jovens envolvidos, ouço dizer que a culpa é da escola, que é das más companhias, que é deste e daquele. Mas e os pais? Não serão as pessoas que os trouxeram ao mundo os principais responsáveis pela sua educação e pelos seus actos? Qual será a verdadeira origem do problema? É a crise? É o desemprego? É o sistema de ensino ineficaz?
Ter um filho não é apenas gerá-lo e trazê-lo ao mundo. Decerto que saberão isso melhor do que eu, que não tenho filhos. Não quero com isto desculpabilizar os actos da juventude, mas os jovens que têm pais presentes não têm comportamentos destes.»


Da nossa leitora Helena Fernandes. A propósito deste meu post.

4 comentários em “O comentário da semana”

  1. Não contesto que muito do que a Helena Fernandes diz aqui é verdade, mas quando vejo as pessoas apontarem culpas aos pais, sinto que essa acusação também pode ser tão nebulosa e ligeira como a dos que preferem culpar a “sociedade”.
    Se muitos destes meninos crescem mimados e com mesadas generosas é porque esta geração de pais “cresceu” com sentimentos de culpa. Essa é uma constatação feita há muito por psicólogos e sociólogos que acompanham e estudam o fenómeno. Todos concluem que as crescentes exigências profissionais e a escassa oferta de creches associadas a empresas e horários reduzidos de trabalho não são alheios a esta falta de acompanhamento dos filhos. A cultura que vivemos é esta. A que se pode associar também a volatilidade das relações afectivas, que redundam em famílias na hora e filhos avulsos, distribuídos por várias relações. Nada disto ajuda. Pode soar a lugar comum culpar a “sociedade”, essa entidade abstracta, mas feito o balanço, penso que esta abordagem é mais justa e apesar de tudo, mais consequente. Porque gera uma discussão sobre o que podem os governantes fazer para facilitar a vida às famílias.

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