Já o disse por aqui numa caixa de comentários, mas parece-me importante reforçar esta ideia: sancionar, ou, de algum modo, tolerar a selvajaria gratuita dos distúrbios de Londres – como tenho visto fazer aos diletantes blasés da nossa praça, enquanto bebem tranquilamente o seu whisky de malte – é um total desrespeito por tantos outros protestos (de rua, inclusivamente) em nome de uma causa, mesmo que errada. Matar a pontapé um comerciante para lhe sacar um telemóvel topo de gama não é o mesmo, nem será jamais, que enfrentar de peito aberto um tanque de guerra na praça Tianamen. Haja decoro.
Da razão e das razões
Ana Vidal,

Totalmente de acordo, Ana. Há quem clame que é preciso “compreender” os autores das pilhagens. Eu prefiro “compreender” as vítimas da violência gratuita.
Que, neste caso, nasceram e vivem no mesmíssimo meio que os seus agressores. A única diferença é que escolheram trabalhar.
Hoje não sei, mas o ‘Telejornal’ das 20 horas de ontem, o mais importante da RTP-1, esteve a esmiufrar Londres exaustivamente durante 20 minutos, pelo menos. Terminado aquele noticiário, às 21 horas, pregaram com mais meia hora de reportagens sobre os distúrbios na Grã-Bretanha.
Só faltou a RTP explicar como pode fazer-se o mesmo em Lisboa, sugerir em que lugar se deve arrancar e apontar que lugares podem ser mais facilmente vandalizados por cá. Porque a promoção detalhada dos acontecimentos em Inglaterra, essa foi bem divulgada.
Pois é, João, as televisões exploram até à náusea qualquer excitação que lhes dê mais um ponto nas audiências. Sobretudo nesta altura de Verão, em que as pessoas estão semi adormecidas ao sol.
É do conhecimento geral que o árbitro Pedro Proença foi agredido na segunda-feira à noite, no Centro Comercial Colombo.
A propósito desta agressão, o Correio da Manhã citou o árbitro lisboeta: “É verdade, fui agredido por um indivíduo adepto do Benfica”.
Eu imagino o que se diria, e especularia, se um árbitro tivesse sido agredido no Dolce Vita Porto e, ainda por cima, por um indivíduo que assumisse ser adepto e sócio do FC Porto. Basta lembrar o festival mediático a propósito da suposta agressão de Rui Gomes da Silva na Foz.
Entretanto, logo na manhã seguinte ao incidente, o slb entendeu publicar um comunicado sobre este caso no seu site, onde diz que “lamenta e condena a bárbara agressão de que foi vítima o árbitro Pedro Proença” e que “nada justifica este tipo de atos e atitudes”.
A direcção do slb diz que lamenta a agressão, mas é pena que não tenha feito nada para, atempadamente, pôr fim ao clima de ódio que é propagado em alguns programas da Benfica TV.
É pena que não tenha lamentado as declarações de um comentador habitual da Benfica TV, Sérgio Luís Bordalo, quando este teve tempo de antena para desejar a morte do presidente do FC Porto.
E também deve ser por lapso que, após ter incitado à violência (“vamos ter de puxar das armas”) e pré-anunciado retaliações (“ela já está programada”), um outro comentador da Benfica TV – António Pragal Colaço – continue a ter acesso a órgãos de comunicação do slb.
Enquanto não houver uma mudança radical na postura de alguns altos responsáveis do slb e, particularmente, do canal de televisão oficial do slb, há uma expressão que me parece apropriada a esta situação: chorar lágrimas de crocodilo.
P.S. Foi uma sorte o Pedro Proença ter prejudicado o FC Porto no jogo da Supertaça. Se mesmo assim, em Lisboa, lhe partiram dois dentes, se tivesse errado ao contrário ainda o matavam.
O Centro Comercial Colombo fica em Londres? O árbitro Pedro Proença tem lá uma loja de gadgets? O adepto era um jovem inútil?
É que, de contrário, não vejo qual a relação do seu comentário com este post…
É claro, Ana. Mas não deixo de notar que tem havido uma grande falta de preparação, incapacidade e incompetência das autoridades inglesas para lidarem com o problema. Mais de duas décadas de “tatcherismo” e “blairismo” só podiam dar nisto. O Reino Unido está doente há muitos anos e os seus poderes só reparam que alguma coisa não está bem em alturas extremas, quando irrompem estes fenómenos. Mais do que de falta de perspectivas, que as há em relação a muitos, é um problema educacional.
Sérgio, isso é verdade. Mas eu diria mais: as sociedades ocidentais (sem distinção de cor nos seus dirigentes) não estão a conseguir lidar com a sua própria abertura, que é sempre lida de outra forma por quem nada tem a perder. É um problema (o preço?) da democracia e da informação globalizada, e parece-me insolúvel em termos mais latos. Claro que se pode – e deve – punir estes casos e investigar as causas que levam à insatisfação desta gente, claro que o ideal era dar-lhes melhores oportunidades e menos facilidades, mas onde estão os meios para isso? O fluxo de pessoas pelo mundo é imparável, não tem retorno. Ou o mundo volta às ditaduras que fecham fronteiras e expulsam os outsiders – e quem quer isso? – ou haverá sempre quem deseje, legitimamente, uma vida melhor nas sociedades onde a vida é menos dura. A questão é política, sim, mas não partidária. Qualquer governo ocidental, de qualquer cor, vai deparar-se com este problema.
Faltou dizer que o busílis está no equilíbrio da autoridade: se é de menos, acontece isto. Mas basta que se aperte a malha na repressão e no castigo exemplar para que caia tudo em cima de quem o faz, com acusações de falta de humanidade e de “compreensão”. Onde está o meio termo que contente todos? Não existe.
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