Reflexão do dia


Pedro Correia,

 

«Não é preciso ser um Einstein para perceber que já terminou o tempo em que as áreas metropolitanas do Porto e Lisboa cresceram anarquicamente como manchas de azeite, fazendo a fortuna de empreiteiros habilidosos e o upgrade de patos-bravos. Agora é preciso parar de construir e passar a reabilitar.

Um país com a dívida soberana classificada como lixo não se pode dar ao luxo de ter um milhão de habitações a precisar de obras e 100 mil milhões de euros empatados em casas vazias. No coração do Porto há 15 mil edifícios a cair. Do total de 55 350 edífícios existentes em Lisboa, 4618 (8%) estão abandonados e 7700 ameaçam ruir.

Face a esta situação é impossível não achar estranho que, apesar do programa de obras no Parque Escolar promovida pelo Governo Sócrates, a reabilitação pese menos de 7% no nosso mercado de construção, quando em Espanha vale 29% e a média europeia é de 36%. Requalificar, reordenar e reabilitar são as soluções para desatar o nó complexo que nos impede de progredir.»

Jorge Fiel, no Jornal de Notícias

18 comentários em “Reflexão do dia”

  1. Exercício: reparar, quando em viagem pela Europa, no estado de conservação dos edifícios das cidades. Depois, comparar a legislação do arrendamento desses países com a Portuguesa.
    A nossa é única na Europa e creio que no mundo: retira a liberdade contratual aos contratos existentes – sem excepção nos arrendamentos para fins comerciais.
    O que vemos é a consequência de 90 anos de intervenção estatal

    1. Essa é, de facto, uma componente essencial do problema. Impõe-se uma verdadeira reforma do regime de arrendamento urbano e prioridade absoluta à reabilitação de imóveis.

  2. Sim, mas para que haja reabilitação urbana é preciso que haja quem pague por ela. Ou seja, é preciso que haja quem esteja disposto a comprar (ou arrendar) as casas que forem reabilitadas.
    E atualmente o mercado já está saturado de casas prontas a habitar. Não há falta de casas, o que há é falta de compradores.

    1. O que há, sobretudo, é falta de casas por arrendar a preços razoáveis em termos europeus. Lisboa é a capital europeia com menor ocupação de apartamentos arrendados na UE. Durante anos, os portugueses hipotecaram-se para se tornarem ‘proprietários’ de fracções imobiliárias devido a facilidades irresponsáveis na concessão de crédito à aquisição de casas recém-construídas, a preços absurdos por metro quadrado. Os resultados estão hoje à vista no montante astronómico da dívida privada portuguesa.

      1. “há falta de casas por arrendar a preços razoáveis em termos europeus”

        Esta afiramção tem duas partes.

        (1) Falta de casas para arrendar haverá, mas creio que até as há suficientes. Eu pelo menos vejo por aí, quando ando pelas ruas, muitas casas com anúncios a dizer que estão para arrendar. Creio até que há mais falta de inquilinos do que de senhorios.

        (2) Não tenho a certeza de que os preços sejam irrazoáveis. O que se tem que ver é a razão entre o preço de compra e o preço de arrendamento, em Portugal e noutro qualquer país da Europa. Estou convencido que essa razão não é tão diferente em Portugal daquilo que há nos outros países. Há que ver que um proprietário de uma casa deve ter um lucro de, pelo menos, 5% ao ano numa casa para arrendar. Ou seja, uma pessoa que compre uma casa para arrendar deve, com a renda, ser capaz de pagar os juros do empréstimo, o condomínio, o IMI, as reparações, e ainda ficar com 5% anual de lucro. Se o Pedro contar com isto tudo, provavelmente chegará à conclusão de que as rendas em Portugal são normais, em relação aos preços de venda.

        1. Creio que os preços das rendas podia ser mais baixo, mas o intervencionismo de um século torceu completamente os dados…
          Se percebermos que há um hotel no Rossio que paga 500 euros de renda mensal, que a sociedade inquilina fez obras sem autorização dos proprietários do prédio e que estes, quando se queixaram, ainda foram apodados de parasitas pelo costa da câmara… vemos a quantos anos-luz estamos da sensatez. Quanto seria o arrendamento se não houvesse estas loucuras? 15 000 euros/mês ? Pois bem, imagine-se que a lei mudava hoje. Seria natural que os proprietários pedissem uma renda superior ao «normal» para se ressarcirem do presente confisco… Outros proprietários, descapitalizados, terão de fazer reflectir nas rendas os custos de obras de reabilitação, já de si com custos inflacionados pelo boom artificial da construção, etc. etc. Mesmo com a restituição da liberdade total aos proprietários, iria (vai) ser necessário muito tempo. No entanto, a tendência a longo prazo é para a baixa, e na província, as rendas têm descido do 1º arrendamento “post-recuperação” do domínio do imóvel para outros celebrados posteriormente.

      1. Link?

        Não estou a duvidar, gostava de ler o estudo por inteiro porque isso é uma informação espantosa. Apesar de ter a teoria que os portugueses fazem uma gestão um pouco sui generis do seu dinheiro quando comparados com outros europeus que conheço relativamente bem…

        1. Como referi, não encontrei este trabalho jornalístico do JN em linha. Limitei-me a chamar a atenção para o tema no dia em que saiu, a tempo de as pessoas encontrarem nas bancas a edição em papel. Pareceu-me um trabalho muito bem feito e que desvenda uma realidade raras vezes posta a nu: os grandes interesses ocultos na multiplicação de ‘ajustes directos’ com dinheiros públicos.

          1. Eu estava a referir-me aos jovens e ao automóvel. Acabei por encontrar um estudo de mercado fascinante sobre o qual o jornal i fez aparentemente um artigo (um ou outro será talvez a sua fonte). Não o li todo mas fiquei com os olhos em bico ao constatar que, dos portugueses com menos de 30 anos com acesso a um automóvel, 24% (repito por extenso, vinte e quatro por cento!) dizem que lhes foi oferecido (25% dizem que lhes é emprestado, mas isso já não me espanta tanto). Vale a pena ler:

            http://observatoirecetelem.com/medias/observatoire_box/observatoire_cetelem_auto_2011/#/1

            Na verdade, a economia das famílias portuguesas sempre foi um mistério para mim.

          2. A idade média do comprador dum carro novo é mais baixa em Portugal do que nos outros países do estudo (DE, BE, ES, FR, IT, PL, UK), e a percentagem de jovens com menos de 30 anos que compraram um carro novo (e não em segunda mão) é também maior em Portugal (isto tudo em 2009).

            E qual era então a taxa de desemprego dos jovens em 2009? (Já agora, os números relativos a Espanha também não estão nada mal).

            Qualquer coisa não bate certo.

            (Peço desculpa pelo desvio, mas ainda não me recompus).

  3. Também concordo que Reabilitar é o caminho. No entanto gostaria de chamar a atenção para uma questão que me parece crucial. Não quero parecer fundamentalista porque não sou e porque sei que reabilitar implica, muitas vezes, a introdução de condições de habitabilidade onde elas não existiam o que implica alterações no edificado. Mas reabilitar significa intervir em património e temos que nos acautelar para que as recomendações nas Cartas e Convenções Internacionais sobre Património sejam tidas em conta. Não podemos manter tudo como estava mas não podemos descaracterizar as cidades à custa de querer resultados céleres. E a verdade é que as empresas da área da construção, de um modo geral, não estão preparadas e não têm técnicos especializados nesta vertente (cá está uma área com défice de formação), o que aumenta normalmente os custos de uma reabilitação bem feita. Terá que haver também investimento aqui.
    Gostaria muito que a reabilitação fosse finalmente levada a sério por todos mas com critérios. O turismo é uma fonte de receitas importante. Transformar os centros das cidades (partindo do princípio que é aqui que está o grosso do problema) em áreas sem as características que os tornam únicos, é secar essa fonte e é matar a nossa História.
    Se é um facto que foi a nossa falta de dinheiro que, a determinada altura, manteve a cidade velha de pé, quando os partidários das teorias higienistas a queriam arrasar, não seja agora novamente a nossa falta de dinheiro a transformá-la numa mistura de condomínios fechados de luxo, onde só a fachada permanece, com edifícios que tanto podiam estar ali como num qualquer subúrbio.

    1. Inteiramente de acordo, Ana. «Gostaria muito que a reabilitação fosse finalmente levada a sério por todos mas com critérios. O turismo é uma fonte de receitas importante. Transformar os centros das cidades (partindo do princípio que é aqui que está o grosso do problema) em áreas sem as características que os tornam únicos, é secar essa fonte e é matar a nossa História.» Penso o mesmo. Felizmente temos bons exemplos em contrário. Guimarães, por exemplo. Isto dá-nos sinais de esperança.

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