O pesadelo da desunião europeia


Pedro Correia,

 

A União Europeia ameaça tornar-se um cadáver político. Sem líderes à altura dos desafios, com uma opinião pública egoísta colocada perante desafios quase intransponíveis, à mercê de diversos demagogos que inflamam as mentes com o veneno neonacionalista (que tem bastos seguidores, à direita e à esquerda), a Europa hoje novamente desunida necessita de uma verdadeira refundação. De baixo para cima, não de cima para baixo. Nada a ver com a receita agora preconizada pelo presidente do Banco Central Europeu, Jean-Claude Trichet, que pretende criar um superministério europeu das Finanças nos países da zona euro, impondo uma política fiscal única. No fundo, isto seria mais do mesmo: a crescente cedência da soberania popular e democrática a um poder tecnocrático não sujeito ao escrutínio público. O caminho deve ser o inverso: em vez de tornar ainda mais volumosas as estruturas burocráticas de Bruxelas, o processo de decisão deve ser devolvido aos políticos, respaldados no voto popular. Pafraseando a célebre frase de Malraux sobre a religião no século XXI, o projecto de integração ou caberá aos cidadãos europeus – ou não será nada. Há que rever a cotação do euro, há que adaptar as directivas europeias às necessidades de cada país, há que renegociar os tratados comunitários. Há que retomar, se for caso disso, a Europa “a duas velocidades” para que o passo não seja maior que a perna.

Eis a quadratura do círculo: com que políticos poderá o projecto europeu ser reconfigurado? Faltam-nos estadistas como Jean Monnet, Robert Schuman, Alcide de Gasperi ou Konrad Adenauer. Mas é precisamente ao exemplo destes visionários que precisamos de regressar. Para aprofundar os mecanismos democráticos, sem os quais a União Europeia está condenada a sucumbir. Para termos uma autêntica Europa dos cidadãos – não a Europa dos tecnocratas, capazes de transformar o sonho da integração num insustentável pesadelo.

4 comentários em “O pesadelo da desunião europeia”

  1. “é ao exemplo destes visionários que precisamos de regressar”

    O problema é que o exemplo desses visionários é contraditório com as recomendações do post. Pois que esses visionários o que almejaram foi, precisamente, uma Europa construída de cima para baixo. O que eles construíram foi uma Europa das elites, ao contrário daquilo que o post pretende.

    1. A Europa que esses pioneiros construíram deu certo, ao contrário desta. Porque o passo nunca foi então maior que a perna. Nenhum deles deixou verdadeiros discípulos entre os políticos actuais, o que aliás é um facto incontroverso. É a essa Europa dos pequenos passos – e, se for necessário, das duas velocidades – que devemos regressar. Sempre com o respaldo dos cidadãos. Porque a União Europeia, enquanto construção política, tem de ser dos cidadãos, não dos tecnocratas ou dos contabilistas.

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