Crash testes


Rui Rocha,

 

Os resultados dos exames nacionais do ensino básico representam uma desgraça nacional. Deixando de lado o eduquês das competências e das aprendizagens, metade dos alunos não sabe um charuto de Matemática e não consegue escrever ou entender uma frase na nossa língua.

 

Não nos enganemos. A primeira responsabilidade por este estado de coisas é dos pais. E os pais destas crianças são os filhos do facilitismo que atravessou o final da década  de 80 e a década de 90 do século XX. Fazem parte do exército dos que entraram para pseudo-universidades com notas negativas, dos que encontraram um emprego (sem nada fazerem para o merecer) na crista da onda de uma expansão económica insustentável e que, contra toda a probabilidade, foram até promovidos porque o Estado e as empresas cresceram e era preciso promover alguém. Apesar dos sucessivos choques de realidade que começam a sofrer, esses pais vêem ainda o mundo dos filhos com os olhos do facilitismo de que beneficiaram. Nada mais falso. O mundo dos filhos terá muitas e extraordinárias oportunidades. Mas, essas estarão reservadas a quem as souber merecer. E, assim, se os pais foram calaceiros impenitentes e ainda assim alcançaram o que muitos nem sequer sonhavam, os filhos terão que investir muito esforço sem nenhuma garantia de alcançarem metade daquilo que os pais esbanjaram. A mensagem em casa deveria ser a de valorizar a escola, o estudo, o trabalho e a dedicação e sim, também e no devido tempo, o lazer, os amigos, a diversão, o amor, os passarinhos da Primavera,  o calor do Verão, o vento do Outono e o frio do Inverno.

 

A segunda responsabilidade é do sistema de ensino. Sucedem-se as reformas curriculares e organizativas e os resultados são os que vemos. A matéria é vasta e não cabe num post. Mas, esta sucessão de fracassos deixa claro que nada se melhora apenas por decreto, por programa ou por estatística. Melhorar dá muito trabalho. Melhorar um nadinha exige um tremendo esforço. E só se faz com pessoas. A par dos alunos, as pessoas mais importantes no sistema são os professores. E a qualidade média dos professores em Portugal é muito fraca. Com honrosas excepções (insisto que existem), a massa docente compõe-se de um grupo da velha guarda com práticas pedagógicas ultrapassadas e conhecimento técnico desfasado e de um grupo de jovens e menos jovens turcos que estão no ensino como podiam estar numa repartição de finanças a carimbar requisições. Neste último grupo lá os temos também, os que entraram nos cursos superiores com notas miseráveis e que hoje se dedicam a ensinar aos outros coisas que nunca perceberam. Melhorar a qualidade dos professores é fundamental. O exame de acesso à profissão é uma necessidade urgente. O sistema de ensino público não existe para dar emprego a quem quer ser professor. Existe para ensinar e por isso deve escolher quem tiver melhores condições para o fazer. O exame não é a única forma de avaliação, mas é fundamental. E a prestação de provas não devia ficar-se por aqueles que pretendem ingressar na profissão. Ao longo dos tempos, ingressaram na carreira muitos incompetentes. Também estes deviam submeter-se a exame. E não é preciso inventar muito. Basta submeter os professores aos exames e provas a que também os alunos são submetidos. Infelizmente, muitos dos professores não os saberiam resolver. E existem hoje alguns professores bem preparados no desemprego que os poderiam substituir.

 

Tratando-se do futuro dos nossos filhos e do país, este é um tema que gera sempre grande debate. Mas, para começar, já não seria mau que se assegurassem dois aspectos tão básicos que até dá raiva sentir-me obrigado a falar neles: que as crianças fossem para a escola com vontade de aprender e que os professores soubessem e quisessem ensinar.

 

E, para terminar, deixo ainda uma pergunta: com resultados tão maus, existe alguma razão para alunos e professores não passarem o mês de Julho na escola, uns a esforçarem-se por ensinar e outras a esforçarem-se por aprender?

28 comentários em “Crash testes”

  1. Lembro-me de no início dos anos 80 as notas do secundário mudaram de 0-20 para 0-5 porque na estupidez politicamente correcta do Ministério Soviético não se devia discriminar as crianças… A partir daí o três dava para não saber nada da matéria ou dava para ser um 14 ou 15.
    Aliás a adicionar à estupidez ideológica do Ministério tínhamos a dos professores, pois subiam notas de 45% nos testes para 3 enquanto notas de 75% era 3 na mesma.
    A mediocridade instituída. E já no início dos 80.

    1. É verdade, Lucky. O drama é que não evoluímos nada. Só isso bastaria para dizer que estamos pior (e creio que não só não evoluímos como regredimos em alguns aspectos, sendo a exigência um deles).

    1. Desse momento não tenho memória vivida, Sérgio. Mas, também me tenho cruzado com os “produtos” dessa passagem administrativa e tens toda a razão.

  2. Excelente post. A cultura do facilitismo mina a sociedade. A escola deveria ser um espaco de exigencia, disciplina e estimulo. Infelizmente muitos pais divorciam-se da sua tarefa de educadores e ha claro muitos professores que o sao porque nao encontraram outro emprego. Seria bom que se olhasse para o paises do norte da Europa e se tirassem ilacoes. Por examplo aqui na Alemanha a disciplina de matematica e a de alemao sao obrigatorias ate ao final do ensino secundario mesmo que o aluno decida estudar historia ou belas artes. O nivel de exigencia e elevado e uma das primeiras coisas que se aprendem e que copiar demonstra falta de caracter. Naturalmente que o sistema escolar alemao nao sera perfeito mas tem muitos aspectos que vale a pena observar de perto e quem sabe adaptar a realidade portuguesa.

    Ps- escrevo do telemovel dai a falta de acentuacao.

    1. “A cultura do facilitismo mina a sociedade”. Nem mais, Helena. Também eu me interrogo sobre o motivo que, tendo eu ido para letras, justifica que me tivessem impedido de continuar a estudar matemática até ao final do ensino secundário.

      1. Mas, em sequência do comentário anterior, concordo que naturalmente a culpa é de todos. Em relação à escola pública cada vez é mais difícil o acesso à profissão de uma forma permanente e o que conheço dos privados é que escolhem os professores pelo preço: quanto mais novos melhor, portanto, o que não me parece critério sério nem de qualidade.

  3. Não sei em que te baseias para afirmar que a qualidade dos professores é muito má e muito menos para afirmar que ‘ a massa docente compõe-se de um grupo da velha guarda com práticas pedagógicas ultrapassadas e conhecimento técnico desfasado’, mas tu lá saberás.

      1. Bem me parecia, logo um bocado redutor para uma afirmação tão lapidar, não achas?
        Não tenho a menor dúvida que alguns deviam ir fazer outra coisa, que não há meios legais para correr com gente que dá mau nome à profissão, se fores ao meu blogue pessoal encontras alguns posts furiosos contra gente dessa, contudo, nem tudo é tão tão mau.

  4. Respondendo-lhe sua última pergunta: não, não há. As imensas férias escolares de verão, de junho a setembro, no Hemisfério Norte, de dezembro a fevereiro, aqui no Sul, são um anacronismo sem explicação convincente. Um mês é suficiente, e pronto – talvez com a mesma matéria mais espalhada durante o ano letivo, houvesse menos pressão e mais aprendizagem.

      1. Em si, dois, três meses não serão necessariamente maus, especialmente para os alunos mais velhos. Possibilitariam a existência de trabalhos de verão e/ou estágios, meramente profissionais, ou com valor académico.

        Não só podem complementar a formação das pessoas, como ajudar a fazer decisões informadas para o percurso académico vindouro (seguir ou não para a universidade, determinar áreas…).

        Claro, isto supõe uma mentalidade social diferente e uma abertura das entidades de acolhimento.

        Um mês não dá muito tempo para integrar alguém num projecto deste cariz e, mesmo que fosse possível, obrigaria os alunos a abdicar das férias, o que também não é desejável.

          1. Não digo que não. Pelo contrário, estou plenamente de acordo com a necessidade de se rever todo o sistema.

            Sou da opinião de que mais grave do que a falta de conteúdos com que termina a aprendizagem actual, é a a cultura de irresponsabilidade e da falta de brio que se deixa entranhar nos alunos. É bem possível que venham a ter consequências mais gravosas para o nosso país, porque os conteúdos aprendem-se quando há esforço e dedicação, mas inculcar a necessidade desse esforço e dedicação, isso já é complicado.

            E há ainda que rever o “direito à educação gratuita” (como tantos outros direitos). O que deveria haver era o “direito à oportunidade de uma educação gratuita”. No caso do ensino básico e secundário, não é tão linear, mas no ensino superior, é inconcebível que um aluno, já adulto, não leve a sério a sua educação, a custas do Estado. Não estou certo que os custos financeiros sejam elevadíssimos, mas volto ao início deste comentário: os custos para a cultura de responsabilização e responsabilidade e de brio profissional e social são altíssimos.

  5. Só comento a parte final; no mês de Julho a esmagadora maioria dos professores está na escola a vigiar exames nacionais e a corrigi-los, também fazem matrículas e elaboram as turmas para o ano lectivo seguinte, também há professores que estão na apresentação das PAP (prova de aptidão profissional) dos cursos profissionais. E já agora para concluir, em Julho muitos encarregados de educação vão de férias com os seus filhos.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *