César Luis Menotti: uma entrevista a não perder sobre futebol e tudo o mais


Rui Rocha,

Uma definição de futebol:

O futebol é o único lugar em que gosto que me enganem. O futebol são três coisas: tempo, espaço e engano.

 

Sobre o futebol actual:

No futebol actual não se gere o tempo, não se procuram espaços e nunca me enganam. Aborreço-me de tal maneira que tenho a sensação de que aquilo a que chamam futebol é outra coisa.

 

O Barcelona, um refúgio de redenção:

Digo que 99,9% dos treinadores gostariam que as suas equipas jogassem como o Barcelona. Todos gostariam de ser Guardiola. Mas, a maioria não sabe como se faz. Guardiola é mais importante do que os seus jogadores. O Barcelona não é só um Senhor que se põe na linha lateral a dizer passa e passa e passa. É um produto do treino, de ideias claras, de saber fazer-se compreender e ganhar adeptos. Quem eram Piqué, Pedro, Busquets antes de Guardiola? Nem sequer Iniesta era titular. Agora são fenómenos. É mentira que Guardiola seja quem é graças aos jogadores. Os jogadores mudam (Eto’o, Henry, Ibra, Villa) e o Barcelona já teve quatro ou cinco laterais esquerdos. O sistema é que dá sentido ao Barcelona. Tenho uma grande inveja de Guardiola. Piqué é Beckenbauer, um futebolista de talento enorme, mas duvido que outro treinador lhe permitisse jogar como Guardiola lhe permite.

 

Sobre Mourinho(s):

Aqui na Argentina o que temos são Mourinhos ou tipos como ele. Só pensam em ganhar e quando perdem não é culpa deles. Já os conhecemos há muito tempo. Que personagem… Tem umas grandes contradições. Um amigo meu foi há tempos ver treinos de Mou e Guardiola. Disse-me que são semelhantes. Mourinho treina muito bem. Mas, no campo, na hora da verdade, é completamente diferente. Mourinhos há muitos. Guardiola só há um. O Real Madrid pode contratar mais e mais. No final terá todos e ganhará, mas o 5-0 do clássico em Camp Nou é para toda a vida. Ponho-me  a pensar e não encontro uma partida como essa. Matou Mourinho para toda a vida. No jogo do Madrid a seguir à derrota, Mourinho cagou-se. No meu bairro chamamos a isto cagar-se nas patas. Na partida seguinte vi Higuaín, Adebayor, Benzema e Kaká no banco e pensei: pode ser que ganhe, mas recontracagou-se. Foi a maior cobardia que vi numa equipa grande. E no Madrid é inaudito. O touro não o matou e o tipo fugiu e nunca mais se aproximou do touro

 

Uma ideia de liberdade (também) aplicada no futebol:

A liberdade não se dá a ninguém dentro de campo. Ganha-se a partir do conhecimento. No teu Jornal dás liberdade a um palerma e ele arruina-te. No campo é igual. Tens que dizer aos jogadores o que devem fazer. A liberdade que têm enquadra-se numa ideia e num sistema. Piqué não faz o que lhe dá na gana. No Barcelona não há liberdade absoluta. Há normas que permitem aos jogadores serem muito livres e muito felizes. Mas, há normas.

 

Sobre os reis do futebol:

Creio que houve quatro: Di Stéfano, Pelé, Cruyff e Maradona. Estamos à espera do quinto, que poderá ser Messi, ou não ser ninguém. Messi tem a vantagem de aprender, de evoluir. Mas, para lhe dar a coroa, teríamos que ver o que vale noutra equipa que não o Barcelona. Conseguir o que Maradona conseguiu no Nápoles.

 

* Este texto constitui um resumo e uma tradução livre da entrevista do El País a CLM, sobre o futebol e a vida, que vale a pena ler na íntegra, aqui.

12 comentários em “César Luis Menotti: uma entrevista a não perder sobre futebol e tudo o mais”

  1. Só argentinos e espanhois (catalães em especial) têm este tipo de cegueira facciosa sobre a realidade.
    O que o homem diz sobre Mourinho é de um sectarismo primário visceral inaudito. Ele pode rezar de joelhos a Maradona ou a Messi, nem assim consegue provar que o futebol não foi inventado em Inglaterra. É fácil continuar a preferir o futebol inglês, o seu equilíbrio, a sua intenção, a sua honesta virilidade. Um qq jogo inglês mantem-nos atentos até ao fim do jogo. Os toquezinhos do Messi, baseados num equilibrio fisico sustentado na sua baixa e atarracada estatura, não nos aguentam acordados até ao intervalo. Os golos com a mão, marcados por Maradona, também nunca foram para mim razões para enaltecer o futebol. Como vê caro Rocha, é fácil ter belas opiniões sobre futebol. Melhores a meu ver, do que as do pobre do Menotti.

    1. Também partilho do seu gosto pelo futebol inglês, Mário. E isso não me impede de apreciar muitíssimo o do Barcelona. Quanto ao sectarismo relativamente a Mourinho, digo que não existe ninguém mais sectário que o próprio Mourinho. Por último, direi que os argentinos falam como poucos sobre o futebol como palco da vida.

  2. Ainda não me esqueci como é que a Argentina ganhou o campeonato do mundo de 1978, a jogar em casa. Tinha uma excelente selecção, jogadores como Passarella, Ardiles, ou Kempes eram extraordinarios, Maradona tinha apenas 17 anos e não saiu do banco, mas só chegaram à final depois do “celebre” Argentina-Peru, que os argentinos tinham que ganhar com uma diferença de 4 golos. Uma vergonha!
    Na final ganharam à “Laranja Mecanica” que ficou com muitas e boas razões de queixa do arbitro e da sorte. Com 1-1 mandaram uma bola ao poste dos argentinos.
    Menotti à pala desse feito veio treinar o Barcelona, mas não aqueceu o lugar pois só la esteve um ano; depois treinou o Atletico de Madrid, e clubes sul-americanos. Um fracasso!
    Que eu saiba não ganhou mais nada, e fica-lhe mal o que afirmou sobre o Mourinho que se não me engano, é o treinador com mais titulos do mundo.
    Quanto ao Barcelona actual é como o ovo e a galinha: é a base da seleção espanhola, campeã do mundo e da Europa em titulo, e sem querer tirar merito ao Pepe G., que eu estimo como pessoa, como jogador de futebol, e como treinador, a equipa dele só pode ser uma das melhores do mundo. E convem não esquecer o banho de futebol que levou do Mourinho nas meias finais da Champions, quando o Inter eliminou o Barça!
    P.S. Como sportinguista, não morro de amores por José Mourinho, mas tenho que lhe dar o merito que tem como treinador de futebol. Vi-o ganhar jogos no Chelsea e no Inter que estavam perdidos para qualquer treinador, com a maestria e o genio que ele tem.

    1. Eu próprio já elogiei Mourinho quando considerei que era merecido. Na minha opinião Mourinho não deu banho nenhum ao Barcelona. Pôs o autocarro à frente da baliza e saiu-lhe bem. Trouxe aqui Menotti porque gosto de opiniões controversas, sobre a vida e o futebol, e que vão além dos paninhos quentes. Quanto ao mais, .

  3. grato, Rui.

    ele tem razão em relação ao Guardiola. é muito bom, faz do futebol algo simples, quase como jogávamos na rua (mas isso só se consegue com muita sabedoria e filosofia)…

    mas percebe-se que Menotti “odeia” Mourinho (é mais um do clube…).

    penso que o Mourinho vai responder-lhe este ano. como treinador que foi o argentino sabe que um jogo é apenas um jogo. mas o ódio a Madrid e a Mourinho são mais fortes. Cruiff também não perde a oportunidade a destilar ódio e dor de cotovelo.

  4. Boa entrevista, Rui. Fizeste muito bem em trazê-la aqui.
    Sobre Mourinho, subscrevo parte das críticas. Creio que o texto ainda com mais comentários até hoje no DO foi uma crítica minha ao melhor treinador português da actualidade, no dia da meia-final ganha pelo Inter de Mourinho ao Barcelona na Liga dos Campeões de 2010 com quase toda a equipa italiana remetida ao seu reduto defensivo. Um texto que provocou enorme polémica aqui no blogue.
    Mas os argentinos nunca evitam o exagero: dos quatro melhores jogadores de todos os tempos, segundo o argentino Menotti, dois são… argentinos. Isto anda tudo ligado.

    1. É verdade, Pedro. Claro que Menotti tem uma visão parcial das coisas. Mas, ainda que não concorde com muitas coisas, gosto de pessoas com textura. A parte do tabaco está muito boa (e eu não sou fumador). E continuo na minha: poucos falam de futebol e da vida como os argentinos. E não são só o Valdano ou o Borges.

  5. Ler um argentino a falar de futebol é agradável, mas torna-se rapidamente cansativo. É como levar uma overdose de defensores do realismo mágico sul-americano que desprezassem os russos ou os alemães, por exemplo. Nesse aspecto, o jogo Barcelona-Inter de 2010 foi, do ponto de vista táctico, das partidas mais interessantes que vi em toda a minha vida (talvez só ultrapassado pelo Holanda-URSS da final do Euro88). Dizer que Mourinho é desinteressante é, voltado ao paralelo com a literatura, dizer que Joyce é desinteressante porque, apesar de escrever bem e de forma complexa, é chato. Não só de fantasia se faz o futebol. Da mesma forma que apesar de, para mim, o futebol do Barcelona ser enormemente chato (e aqui estou convencido que isso é uma táctica para adormecer adversários), as suas tácticas são fascinantes, especialmente na forma como ocupam os espaços com bola, para depois a recuperarem de imediato quando a perdem. O Barcelona é mais que tiki-taka. Irei mais longe, o tiki-taka é apenas a parte menos importante do Barcelona.

    Mais interessante que ler Menotti, no entanto, é observar as suas discussões com Billardo. Menotti, graças a elas, fala num futebol “de esquerda” (o dele) e “de direita” o de Billardo. Isto também devido aos seus posicionamentos respectivos na política do país. Essas discussões, que vão muito além do futebol, conseguem ser intelectualmente muito mais estimulantes que estas simples entrevistas (que não passam da rama) devido à sua frequente profundidade intelectual, algo que é frequentemente ignorado na imprensa desportiva.

    Para quem quer ler sobre futebol sem ser os disparates mal observados, pensados e escritos de Luís Freitas Lobo (além de serem apenas coisas de Valdano e Galeano recicladas e requentadas), pode dar uma lista aos blogues sobre futebol listados pelo Guardian há uns tempos:
    http://www.guardian.co.uk/football/blog/2010/dec/31/100-football-blogs-to-follow-2011

    Neles destaco um interessante sobre o futebol português escrito por um inglês:
    http://cahiersdusport.blogspot.com/

    E por fim uma espécie de fanzine por alguns dos melhores autores em inglês da actualidade (diria que qualquer pessoa que escreve em inglês sobre futebol quer publicar aqui):
    http://www.theblizzard.co.uk/

    1. Tem toda a razão, João André. Tudo cansa, mesmo que seja muito bom. Na própria entrevista Menotti tem claras referências políticas. Sempre à esquerda, claro. Já conhecia alguns sites e são de facto muito bons. Mas, não vou perder a oportunidade de conhecer os outros. Obrigado.

      1. Una vez le preguntaron a Javier Clemente sobre Menotti; su contestación fué: “ARGENTINO, y no hay más que decir…….”

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