Índice do populismo


Pedro Correia,

Aqui há uns anos, um mestre-escola do pensamento político nacional espalhou o rótulo “populista” a propósito fosse do que fosse. Como tais coisas entre nós costumam pegar de estaca, foi exactamente isso que sucedeu neste caso: a partir daí, não houve aprendiz de comentador político que não usasse a expressão, banalizando-a e esvaziando-a de tal maneira que passou a equivaler quase ao clássico “isto só lá vai com dez salazares” bramido por taxistas.

Ei-lo já de volta, este qualificativo que em vez de enriquecer o debate político apenas o empobrece, reduzindo-o a coisa nenhuma. É “populismo” pôr fim aos inúteis governos civis, tal como seria “populista” mantê-los em funções. É “populismo” designar um governo mais jovem do que o anterior, tal como seria “populista” formar um governo mais maduro. É “populismo” passar a viajar em classe económica nas deslocações aéreas no continente europeu, aliás como o mais elementar bom senso recomenda num país em crise. E – sei lá – talvez até seja “populismo” ter passado a pôr de lado as gravatinhas monocromáticas muito em voga no consulado Sócrates, substituindo-as por gravatas com padrão, como já notou o nosso arguto jornalismo político.

Por mim, gostaria que não se abusasse desta expressão. Se algum dia surgir por aí um Pim Fortuyn, um Jörg Haider, uma Marine Le Pen ou algo como o Partido dos Verdadeiros Finlandeses, perceberão que este é um termo que convém usar com rigor, propriedade e parcimónia. Para não meter tudo no mesmo saco. E para não baralharmos as ideias e os conceitos mais ainda do que já estão.

12 comentários em “Índice do populismo”

  1. Relativamente aos nomes que referiu: seria difícil denominar as suas manifestações lusitanas, pois além de “populista” já se “gastou” também a expressão “extrema-direita” – desperdiçada a invectivar o moderado CDS de Paulo Portas.
    Essa tendência nota-se noutras coisas: assim que chove um bocadinho os jornalistas esgotam logo os adjectivos: temporal, tragédia, etc. Se um dia houver um temporal a sério…

    1. O seu comentário dá pano para mangas. A obsessão jornalística de construir “discursos emotivos”, ao arrepio das melhores regras, redunda nisso. Qualquer adjectivo forte se transforma rapidamente num lugar-comum. Tão grave como isso são as fórmulas discursivas vazias e pré-estabelecidas. Se há um acidente grave envolvendo um veículo ligeiro (como infelizmente aconteceu há dias) a culpa é sempre de um “pneu que rebentou”. Excepto se a viatura tiver sido conduzida por “um idoso”: aí infere-se que o problema do acidente está no bilhete de identidade, nem é preciso investigar mais. Se o acidente envolver um veículo pesado, a fórmula “informativa” em voga manda dizer que se tratou de uma “falha de travões”. E por aí fora.

  2. Pedro,

    É importante colocar as palavras no seu real e concreto significado.

    A sua chamada de atenção é relevante neste período em que corre imensa informação em “discurso directo”.

    É o caso de “corporativismo”, “liberalismo”, “neo-liberalismo”, “conservador”, …

    A linguagem um veículo de pensamento. Quando esse veículo vem com componentes misturados, o resultado da comunicação é confuso e opaco, e abre as portas a que menos capacitados apareçam com a mesma autoridade discursiva à luz de um abstracto “direito de opinião”…

    A linguagem não é para ser nivelada por baixo, é antes um esforço de cada um em apreender conteúdos para… dizer.

    1. O jornalista deve fazer um esforço permanente para fugir ao lugar-comum, Torcato. E deve começar por entender bem, ele próprio, aquilo que escreve ou diz. Ouço agora falar muito em “dívida soberana”, precisamente quando somos menos soberanos que nunca. Ou que qualquer coisa está “em cima da mesa”: e afinal debaixo da mesa o que estará? Ou em “mudança de paradigma”, a propósito de tudo e de nada: o que significa isto? Que mal nos fez o “paradigma” que está sempre a ser “mudado”? E nunca mais “muda” de vez?
      O jornalista deve evitar o mimetismo do discurso político-tecnocrático, que existe em muitos casos para o inverso daquela que deve ser a missão primordial do jornalismo: clarificar e descodificar palavras e factos.

  3. Também não me parece que equalizar populismo e extrema direita contribua para o esclarecimento do debate. Há um populismo de tradição americana, por exemplo, e que simplesmente opõe aos interesses das elites os interesses do cidadão comum. Há um bom populismo, nesse sentido, que faz falta fazer.

    1. Há populismo à esquerda também. Podia falar daquele movimento do senhor José Bové, em França. Ou de algum nacionalismo catalão. Ou do peronismo, que seduziu direita e esquerda.
      Estes foram os exemplos que me surgiram espontaneamente. Nem todo o ‘populismo’ é negativo em política: eu queria precisamente acentuar isso e tenho até um texto dedicado apenas a esse tema aqui no DELITO. Nada mais ‘populista’ do que o grito “Vive le Québec libre!” do general De Gaulle na visita a Montréal em 1966. Ou de outro grito dele – “Je vous comprends” – perante os franceses ferozmente anti-independência que o aclamavam seis anos antes na praça central de Argel. E não foi ‘populista’ John Kennedy exibir a mulher grávida de oito meses durante a campanha eleitoral de 1960 nos EUA?
      O ‘populismo’ faz parte da agenda política regular. O problema é que se começamos a designar tudo por ‘populista’, nada sobra quando surgir entre nós um movimento político que se esgote nisso mesmo. Há bom populismo, há mau populismo? Sim. Já que fala nos EUA, um exemplo de mau populismo é o do Tea Party, que tanto seduz algumas cabecinhas deste lado do Atlântico.

      1. O Tea Party é de facto um dos piores exemplos. Representam uma mistura fétida de libertarismo bacoco, ignorãncia militante e conservadorismo religioso que me custa ver elevada a pensamento político por alguém que tenha mais de um dedo de testa…

  4. Está errado.
    Populismo é precisamente o que temos tido.
    O 25 de Abril foi um movimento populista.
    A nossa Constituição é Populista.

    Populismo é a venda de facilidades por troca de votos.

    1. O 25 de Abril foi um golpe de Estado clássico, seguido de uma revolução ‘burguesa’, como lhe chamaria Marx. A Constituição de 1976 – amplamente modificada em 1982, 1989 e em 1997 – é uma manta de retalhos, indefinível.

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