O comentário da semana


Pedro Correia,

 

«Confesso: enquanto estudante universitário, copiei alguma vezes. Não muito. Não porque a tentação não fosse grande, mas, sobretudo, porque tinha medo de ser apanhado. E fui: numa segunda frequência de Economia Política, que teimava em arrastar desde o 1º ano, não tive tempo de engolir a cábula, fui chutado para fora da sala e – pior – lá se foi o meu 13 da primeira frequência. Nunca ocultei o facto, mas também é verdade que nunca me orgulhei dele. Para além de que sempre admirei bastante os meus colegas estudiosos, que não copiavam. Por essa altura, pensava assim: esses são os que vão ser magistrados. São os mais ponderados, os mais estudiosos, os mais justos, os que se comportam bem. E embora eu nunca tivesse tido qualquer queda para a magistratura – apesar dos esforços do meu pai -, aquele deslize arrumou com qualquer veleidade que pudesse ter sobre a magistratura.
Hoje, depois de muitos anos de advocacia, já não tenho a imagem que tinha sobre o que são os magistrados. Há muitos deles que eu admiro e que correspondem ao perfil que lhes tracei enquanto estudante. Mas há outros por quem não tenho ponta de admiração e serão sempre piores magistrados do que eu seria se tivesse envereado pela carreira. E, o que me parece mais grave, a degradação está em processo acelerado.
Posto isto, devo confessar também que já não me surpreende que candidatos a magistrados tenham sido apanhados a copiar nos exames de acesso à carreira. Mas creio que, apesar de tudo, devo ficar suspreendido com a solução que foi dada ao caso: nota 10 para todos. Uns – os justos -, terão sido prejudicados; os outros – os injustos -, terão sido beneficiados. Um mau sinal para quem vai ter de exercer a nobre arte de bem julgar. E, sobretudo, um péssimo sinal para a sociedade que vai ser julgada por tais magistrados.»

 

Do nosso leitor (e bom amigo). J. M. Coutinho Ribeiro. A propósito deste texto do Rui Rocha.   

5 comentários em “O comentário da semana”

  1. Bom testemunho! Quem era o prof, o Aníbal de Almeida? 🙂
    Há contudo umas ‘categorias’ de estudantada que o JMCR não tocou: os que não copiavam porque estudavam com sentido de terem atingido uma preparação razoavelmente sustentada (sem superlativos) e sabiam que pura e simplesmente não tinham jeito para isso, tendo a certeza de que se o fizessem seriam tão “gauches” que até a cabra tocaria….

  2. «E embora eu nunca tivesse tido qualquer queda para a magistratura – apesar dos esforços do meu pai -, aquele deslize arrumou com qualquer veleidade que pudesse ter sobre a magistratura.»

    Muitos parabéns, Dr. Coutinho Ribeiro.

  3. (eheh, li o comentário até ao fim a tentar adivinhar quem o teria escrito porque com Economia Política no 1º ano só podia ser lá da minha casa… )

    Olá Coutinho. Eu tive mais sorte que tu, a única vez que copiei, ou tentei copiar, foi no 5º ano, Direito Romano, e a coisa era tão sofisticada que metia o livro todo do Sebastianinho em fotocópias reduzidas presas num brinco de argola (a Teté acompanhou-me, claro, a Manela resguardou-se…) mas aquilo espalhou-se tudo no corredor do anfiteatro e o prof., já não me lembro quem vigiava, fingiu que não viu e limitou-se a guardar as cábulas em estado virgem. Eu não consegui, o medo de ser apanhada lixou-me, mas sei, tal como tu sabes, como se copiava na FDUC (se bem me recordo a fama era tanta que não nos era permitido usar o Código Penal nos exames de Medicina Legal, tendo de decorar os artigos, porque na Faculdade de Medicina, os rotos a quererem dar lições aos mal remendados…, achavam que os nossos códigos estavam demasiado anotados, vá-se lá saber onde raio foram buscar essa ideia) e foram muito poucos os que nunca copiaram porque mesmo que não o tenham feito em proveito próprio ajudaram outros a copiar mas isso, que saiba, é quase uma instituição que tem até o seu ritual catártico já que a Queima das Fitas ilustra a queima das cábulas no final do curso, dizem…..
    O caso dos magistrados copiões incomoda-me por outros motivos, primeiro porque denota uma quase associação criminosa, a maior parte das respostas era igual, o que indica uma corrupção generalizada e a falta de vergonha em assumirem perante os colegas comportamentos pouco éticos, segundo porque a falta de inteligência de quem copiou é visível, não foi sequer preciso fazer exames periciais para se perceber que tinha havido copianço generalizado e magistrados burros é tão ou mais perigoso que magistrados desonestos. Mas, há sempre um mas, a cereja no topo do bolo é o comportamento dos mestres, a recusa em avaliarem os testes é um exemplo perigoso porque mostra que quando não sabem como decidir o melhor é não decidirem nada e vai tudo corrido a nota 10 porque, azar, neste caso não era possível que fosse o tempo a resolver e a abençoada prescrição não era possível. A denegação de justiça no seu melhor…

  4. 1.O CEJ é um modelo europeu reputado. CFR. http://www.egov.ufsc.br/portal/sites/default/files/anexos/21645-21646-1-PB.htm entre outros locais da rede

    2. Copiar é falta de firmeza intelectual incompatível com a profissão, como qualquer outra. Alguns donos da arrogância moral exigem dos futuros magistrados uma ética que nem eles sabem qual é. Se forem bons técnicos e de formação idónea tanto basta.

    3. Aprendo que em Portugal o que é importante é aprovado ou reprovado.

    4. Aprendo que em Portugal ter 10 não é uma sanção…

    5. A degradação deste país é supor que ter 10 é um louvor.

    6. A degradação deste país é …punir …sem saber da responsabilidade individual. Estranho princípio para…magistrados.

    7. Aprendo que em Portugal os senhores magistrados não podem copiar e que… copiar pode ter a ver com julgar…

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