Por que razões perdeu o PS as eleições legislativas de 5 de Junho


Sérgio de Almeida Correia,

“Os jornais, as rádios e as televisões começaram o dia a recordar aos seus destinatários que o congresso do Partido Socialista começa hoje. O grande líder já foi a votos e saiu vitorioso. Agora dizem que vai ser entronizado. Sem oposição interna e sem oposição externa. Vai ser uma festa!” – Novembro, 2006

 

“Dizem que o ridículo mata, mas a propaganda, ainda que possa servir para irritar o Patinha e o Frasquilho, acaba por causar ainda mais mossa. Seria bom que não perdessem os sentidos da conveniência e da oportunidade.” – Outubro, 2007

 

“A soma dos sinais começa a ser preocupante para quem até agora se tem limitado a ver apregoar os sucessos. Convirá, pois, não esquecer que há riscos desnecessários e erros que se pagam caro. Em politica, normalmente, estes últimos são irreversíveis.” – Outubro, 2007

 

“O resto é querer fazer dos outros parvos e colocar o partido no sítio errado à hora errada.” – Dezembro, 2007

 

“Há muitos anos que chamo a atenção para a emergência das questões éticas e morais na vida política. A renovação dos partidos perante os eleitores e a emergência de uma nova forma de fazer política é condição essencial para o progresso social e o aprofundamento de uma democracia verdadeiramente participativa.” – Dezembro, 2008

 

“As sondagens têm dado alguma razão a José Sócrates, mas a volatilidade natural desses resultados e a sua fiabilidade limitada, bem como a crise internacional, não podem permitir que se confie nelas e que se continue a ignorar o que se está a passar. Neste campo, a actuação dos ministérios da Educação e das Finanças constitui exemplo daquilo que não deveria verificar-se. Uma política de verdade e de rigor exige antes de mais, a quem a aplica, elevados padrões de auto-responsabilização e uma actuação irrepreensível de um ponto de visto ético, um comportamento à prova de bala. E também exige que se saiba explicar à opinião pública o porquê de determinados comportamentos, das decisões que se tomam e que a todos afectam e o respectivo sentido de oportunidade. É impossível transmitir uma imagem de seriedade, de rigor e de competência quando se decide sem ouvir e sem o mínimo bom senso, para logo depois fazer sucessivos recuos e ir dando, aos bochechos, explicações atabalhoadas sobre esses mesmos recuos.” – Dezembro, 2008

 

“Por isso mesmo, e como também nunca fui especial adepto de unanimismos, abomino consensos forçados, descaracterizadores da identidade do partido, cerceadores do pluralismo e da liberdade de pensamento, detesto o empolamento retórico de banalidades, tenho horror ao carreirismo militante e ziguezagueante e é-me difícil conciliar discursos diferentes consoante as circunstâncias digam respeito à política, à vida profissional ou à pessoal, vou ficar à espera, em casa, para ver o que será parido pela Nave Polivalente de Espinho.” – Fevereiro, 2009

 

“Era fundamental que o PS, promovendo uma maior transparência, desse um sinal de efectivo e actual combate à corrupção. Bem sei que isso não é fácil quando há cliques que estão dispostas a pactuar com o chico-espertismo e com a protecção de camarilhas que singraram, dentro e fora do partido, à custa da falta de sentido cívico, da tibieza do poder e de esquemas facilitistas amplamente divulgados e enraizados no tecido social por décadas de irresponsabilidade, laxismo e clientelismo.” – Fevereiro, 2009

 

“Escolheu quem quis e como quis, desvalorizou o apoio interno, ignorou as críticas que vinham de dentro do partido, cortou a direito mesmo quando não tinha razão, permitiu que fossem dados numerosos tiros nos pés e só a união do PS, o esforço e a raça dos seus militantes permitiu a recuperação em relação às europeias. Isso não permite esconder que desbaratou a maior maioria de sempre do PS no confronto com a pior liderança que o PSD encontrou” – Setembro, 2009

 

“A descredibilização do poder político é, também ela, indissociável do abastardamento da função legislativa, de um nepotismo disfarçado que invadiu todos as sectores da nossa vida pública, do recrutamento político ao empresarial.” – Fevereiro, 2010

 

“Talvez seja tempo, por tudo isso, de José Sócrates aproveitar a quadra que se aproxima para encontrar uma solução que garanta governabilidade nos próximos doze meses e estabilidade e eficácia ao programa de austeridade. Pelo caminho (este é o meu lado utópico a falar), talvez não fosse má ideia livrar-se da tralha que na confusão da vaga o socratismo trouxe para bordo, evitando situações que sendo na aparência perfeitamente legais, como dizem, são na essência altamente reprováveis e que só servem para aumentar a desconfiança dos cidadãos na seriedade das suas instituições, na dos seus dirigentes e, desde logo, na dos partidos políticos, sem os quais a democracia jamais sobreviverá.” – Novembro, 2010

 

“Mais do que punir a corrupção, e puni-la de forma exemplar, tarefa que terá de continuar reservada aos tribunais se quisermos ser um Estado de direito, começa ser imperioso “punir” a chico-espertice. Só que este é um combate solitário travado diariamente e no qual me quer parecer que são cada vez menos os que nele se empenham. Mas esse é também um combate pela cidadania e é nestas alturas em que as convicções tendem a ser ofuscadas pela frivolidade mediática e as necessidades do quotidiano que importa resistir, marcar uma posição, recusar a contemporização, dizer não à complacência.” – Dezembro, 2010

 

“A subversão das regras, como das responsabilidades, nunca conduz a bom termo. Seria bom que cada um fosse assumindo as suas culpas e, já agora, que os militantes do PS se fossem lembrando disso, tanto mais que estão prestes a ir às urnas para elegerem o secretário-geral e votarem as moções estratégicas de orientação política para os próximos anos.” – Março, 2011

 

Posto isto, fica devidamente enquadrado o poema de Eminescu que aqui publiquei na passada sexta-feira. Não me poderão acusar de ter ficado calado quando devia ter falado. Nem de ter falado quando devia ter ficado calado. Também por isso não publiquei estas linhas há um mês, nem na sexta-feira, optando então pelo texto do romeno. Mas há uma coisa que as pessoas terão de perceber: não se pode ser solidário na asneira. Para isso não contaram, não contam, nem contarão comigo.

 

Agora é recomeçar tudo de novo, embora, pelas razões que explicarei noutro post, não vá ser nada fácil.

5 comentários em “Por que razões perdeu o PS as eleições legislativas de 5 de Junho”

    1. O objectivo é mesmo assim, pleonástico. Não basta recomeçar com as peças antigas. O velho é para deitar fora. Tem de se recomeçar tudo com peças novas.

      De qualquer modo, agradeço o reparo.

  1. Muito bem Sérgio. Que a grande derrota do PS e de Sócrates, mais do que aos próprios, sirva de lição futura a PSD e CDS. Essa foi a 2ª razão porque, pela primeira vez desde há 30 anos a esta parte, ter encarado estas eleições pela negativa: para mim era sobretudo importante que o PS sofresse uma clara derrota. De outro modo (com o PS a sofrer, por exemplo, apenas uma derrota “honrosa”), sucederiam os clones de Sócrates, tanto no próprio PS, como sobretudo e também, no PSD e CDS. Seria uma “receita” a aplicar, e uma determinada maneira de fazer política e governar que acabariam por mais facilmente fazer caminho daqui para o futuro. Assim, tanto PSD como CDS já sabem que a “receita” não deu resultado. Mas a principal razão porque tanto desejei a derrota claríssima de Sócrates, nem foi sequer assente numa análise de toda a governação dos últimos 6 anos. Quanto a mim, nada que tenha sido bem feito nestes 6 anos (e muita coisa foi) poderá justificar a falência de um país e o empobrecimento, para muitos e muitos anos, de grande parte das famílias portuguesas. Uma bancarrota é algo de muito grave, e de tão raro, que mesmo com uma crise internacional fortíssima que a todos atingiu, apenas 2 países em toda a Europa conseguiram tal proeza (a Irlanda não conta para este rosário). Não há desculpas! E o lamentável discurso de “despedida” de Sócrates, a assumir a derrota mas sem assumir os erros e desmandos clamorosos que cometeu, e as mentiras e embustes que miseravelmente propagou (falar de alguns erros é patético face à situação singular em que deixa o país), só vem sossegar-me o espírito por ter assumido pela primeira vez, uma atitude tão negativista nestas eleições. Já vai é infelizmente para todos nós bastante tarde!

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