As eleições pré-‘troika’
Decidi corresponder ao honroso convite para escrever um texto para o Delito de Opinião, neste período pré-eleitoral, com uma breve reflexão sobre o momento político que vivemos e as eleições que estão à porta.
Não estou vinculado a partidos políticos e não tenho por hábito frequentar liturgias partidárias. Decidi voltar a envolver-me na actividade política nos dois anteriores mandatos autárquicos na terra que me viu nascer, o Marco de Canaveses do sui generis Avelino Ferreira Torres, e foi nessas circunstâncias que em 2005 sucedi a Francisco Assis na liderança da candidatura socialista à Assembleia Municipal local.
Não sendo militante partidário, tenho-me identificado com as propostas do PS. Votei em José Sócrates anteriormente e tenciono voltar a fazê-lo no próximo Domingo. E assim fica feita a minha declaração de interesse.
Nos últimos seis anos a governação socialista permitiu melhorias e avanços significativos em diversas áreas, nomeadamente na educação, no investimento em I&D, na política energética, na reforma da segurança social, na defesa do consumidor, na eliminação de determinados monopólios injustificados, no apoio à economia e às exportações, na reforma administrativa, na consolidação das contas públicas até 2008, nos cuidados de saúde primários e no apoio aos idosos e carenciados. Naturalmente houve domínios em que as coisas correram menos bem e alguns protagonistas deixaram a desejar, como sempre acontecerá.
Hoje, podemos discutir a forma como o Governo de Sócrates reagiu à crise económica e financeira internacional que eclodiu em 2008 e à crise da dívida soberana que se lhe seguiu. Não estou certo que outro partido e outra liderança tivessem feito melhor. Pedro Santana Lopes era o que se sabia. Manuela Ferreira Leite esteve longe de ser um exemplo nas suas funções governativas.
José Sócrates apostou as fichas todas na aprovação dos Programas de Estabilidade e Crescimento, acreditando que os estados europeus haveriam de chegar a acordo sobre o novo mecanismo europeu de estabilização e apoio financeiro, permitindo o financiamento do país em condições mais vantajosas. Isso acabou por não suceder e, com o chumbo do PEC 4, os partidos da oposição escolheram o caminho das eleições antecipadas. Creio que foi um erro, que nada se ganhou, mas isso competirá aos portugueses julgar com o seu voto.
As sucessivas trapalhadas de Passos Coelho e da sua equipa têm revelado um PSD diletante e impreparado para governar. O insólito da situação é ver o CDS a trazer o equilíbrio, a sensatez e a ponderação ao espaço do centro-direita, ao arrepio do frenesim social-democrata.
Sócrates tem-se deparado com uma barreira (quase) unânime de analistas e comentadores que parece não lhe reconhecerem o direito a ganhar as eleições, quiçá mesmo a concorrer ao acto eleitoral. Algo nunca visto e que é agravado pelas afirmações de líderes partidários que se arrogam no direito de escolher as lideranças dos seus concorrentes. Isto apesar de José Sócrates ter patenteado um exemplo de união – não de unicidade – no recente congresso socialista. As principais figuras do partido têm dado o seu testemunho de apoio nesta campanha eleitoral. Por convicção e não por exclusão de partes, como parece suceder no PSD.
Veremos como decorrem as eleições e o que decidem os portugueses. De uma coisa estou certo: seja qual for o partido vencedor, vai necessitar de envolver num consenso alargado os partidos que subscreveram o memorando de entendimento com a troika. As ameaças e recusas de PSD e CDS, em caso de vitória do PS, têm de ser levadas à conta do entusiasmo da campanha. Aliás, os senhores da troika não lhes permitirão tamanhas veleidades…


Obrigada, Senhor José Carlos Pereira, pela sua coragem, pela sua ousadia…, escreveu de uma forma clara e objectiva, agradou-me e fez-me recordar, uma vez mais, que ” Quem precisa de exibição são os impotentes ” Agustina Bessa-Luís , não é verdade??
Bem Haja!
Ilda Pontes
Caro José Carlos Pereira
Desculpe que lhe diga, mas é assustador a forma como a miserável e paupérrima “cassete” elaborada por Sócrates e pelo PS, se duplica. À parte a explicação da crise ser completamente deturpada e faltar completamente aos factos – e estou naturalmente a referir-me apenas aos 2 últimos anos, pós-crise internacional – registo a convicção de supor que outros não fariam melhor (nunca se irá saber, não é??). Continuo é à espera de uma justificação melhorzinha para o facto de, tendo a crise afectado todos os países da Europa, porque raio é que apenas 2 chegaram à bancarrota?
Caro Rogério M, é verdade que o cenário montado faz parecer uns autênticos extraterrestres os apoiantes de Sócrates. São as minhas convicções, já que nada devo ao PS e a Sócrates.
Quanto à sua derradeira interrogação, talvez valha a pena ter presente que a nossa economia é (de há muito) uma das frágeis do continente europeu e teria certamente de ser uma das que mais sofreria com a crise que eclodiu.
Cara Ilda Pontes, é bem verdade que quase é necessário apelar à coragem para apoiar o PS e José Sócrates nestas eleições.
Obrigado pela visita, José Carlos. Um abraço aí para o Marco.
Obrigado pelo convite, caro Pedro Correia. Um abraço desde o Porto e o Marco.
Para comentar, devo igualmente fazer uma “declaração de intenção”: não sou de nenhum partido,nem tenho ideologia. Acho que os partidos que temos são maus e que as ideologias que existem são antiquadas, desajustadas aos tempos de hoje e já não diferenciam os partidos. Em boa verdade, já nenhum país no mundo é governado de acordo com qualquer ideologia, ainda que um punhado deles (de cariz ditatorial e autocrático) apregoem executar ideologias que já há muito faliram.
No entanto, no próximo Domingo irei votar, sem desperdiçar o meu voto como branco ou nulo. Ainda não sei em quem votarei, mas sei muito bem em quem não votarei: no Sócrates (isto é, no PS) e no PSD.
De resto, nunca tive ligação partidária nem desempenhei nenhum cargo político (nem tenciono vir a desempenhar).
Isto posto, quero apenas assinalar que as menções que no texto são feitas a dirigentes do PSD são, digamos, conclusivas. Senão vejamos:
– “Pedro Santana Lopes era o que se sabia.”
O que é que se sabia? Eu não sei. Tenho ideia que foi um bom presidente da CM da Figueira da Foz e que o Jorge Sampaio não o deixou governar. Não consigo avaliar um governo que durou escassos meses (incluindo os meses de verão, isto é, de férias) e durante o qual foram mais as rasteiras (inclusive do próprio partido!) do que os tropeções. O que fez de bom não sei, mas tb não sei o que fez de mal. O que acho é que não chegou a ter tempo, nem clima, para poder fazer o que quer que fosse, de bom ou de mau. Tenho é uma certeza: não deixou o país na bancarrota.
– “Manuela Ferreira Leite esteve longe de ser um exemplo nas suas funções governativas.” Pq? Por acaso foi uma má Ministra das Finanças? Não sei, mas se o termo de comparação for o Teixeira dos Santos, então já sei: foi excelente, comparativamente falando. Fora das funções governativas foi a única pessoa que se preocupou com o déficit e que antecipou o resultado da governação do Sócrates. Se isso não basta para lhe reconhecer mérito político, ao menos reconheça-se-lhe mérito como “vidente” (eu preferia ter sido governado por essa “vidente” do que pelo Sócrates… e acho que todos agradeceríamos os respectivos resultados, comparativamente falando).
No mais, achei piada à questão das contas públicas até 2008, sendo certo que já passaram 3 anos… e que 3 anos! 3 anos que nos levaram à quase bancarrota. Coisa de somenos importância, pelos vistos.
Tb achei piada à questão do PEC4. É que, tendo sido da autoria do Sócrates os PEC’s 1, 2 e 3, a omissão dos mesmos é sintomática: foram uma… enfim. Em todo o caso, a invocação do PEC4 exigiria um pouco mais do que a mera omissão dos PEC’s anteriores. Exigiria que demonstrasse que o PEC4 era o “tal”. Isto é, que seria tudo aquilo que foi prometido que seriam os PEC’s anteriores, mas que efectivamente não foram! É muito fácil induzir o leitor a concluir que o PEC4 seria a salvação da pátria (neste caso, infelizmente, em sentido próprio), uma vez que, não tendo sido aprovado, não ficou comprovada a sua inutilidade. Todavia, essa falta de demonstração não autoriza nem consente que se conclua o contrário, isto é, que seria bom (ou, pelo menos razoável). Principalmente qd a esse PEC teve a mesma origem (autoria) dos anteriores, cujos resultados estão à vista.
Há uma coisa que tenho a certeza: a dívida pública quase duplicou com o Sócrates, até ao ponto de se tornar insustentável e quase ter conduzido o país à bancarrota. Este (a par das constantes mentiras deste governo) são a pedra de toque da governação do Sócrates. E, sobre isso, nem uma palavra.
Fechar os olhos a isso é negar a realidade. Mas a realidade não se compadece com a nossa cegueira e segue, inexorável, o seu rumo.
Qd se pretende um governo que reduza drasticamente o déficit externo, como se pode escolher o partido e a pessoa que mais o fez aumentar? É um contra-senso!
Ah, já me esquecia. O Sócrates tem experiência. Experiência a gastar. Mas só um crente ingénuo e muito tolo (ou com outros interesses ocultos) pode pensar que essa experiência a gastar será útil para passar a poupar…
Enfim, cometi o meu delito de opinião.
E, por isso, espero que me perdoem.
Caro Alberto Cunha, os nossos comportamentos e as atitudes que tomamos em sociedade estão marcadas por ideologias, não no sentido partidário, naturalmente.
Pedro Santana Lopes mostrou ser inconsequente, já que se revelou incapaz de terminar obras e mandatos. Como primeiro-ministro, de um governo de amigos e compadres, abundaram as trapalhadas e ele próprio reconhecerá hoje que não tinha condições para continuar. Os portugueses também julgaram nesse sentido. A Figueira da Foz foi um mero local de passagem e abrigo, onde plantou um oásis na praia e deixou uma enorme dívida ao recentemente falecido Duarte Silva.
Manuela Ferreira Leite, enquanto ministra das Finanças, tapou o défice com recurso a receitas extraordinárias e fez um péssimo mau negócio com a operação de titularização de créditos. Não foi grande cartão de visita. É mais fácil palpitar de fora.
Já me referi à estratégia de Sócrates em prosseguir a aprovação dos PEC e, quanto à dívida pública, não me lembro de ver ninguém criticar as medidas que o Governo implementou depois de 2008 destinadas a apoiar empresas, trabalhadores e particulares em dificuldades, agravando a despesa a cargo do Estado.
Foi bem-vindo o seu “delito de opinião”.
Portanto vamos votar em quem nos conduziu à bancarrota numa estratégia suicida.
Parece-me bem.
Caro Hugo, não é essa a minha avaliação, como se percebe.
Caro José recomendo esta leitura sobre o mito da responsabilidade da crise internacional na bancarrota portuguesa.
http://desmitos.blogspot.com/2011/05/o-l egado-do-governo-e-o-pre-crise.html.
Cumprimentos
Arranjar-lhe-ia facilmente outras leituras de académicos com diferentes entendimentos sobre esse “mito” e sobre o crescimento da dívida pública. Leia, por exemplo, o que tem escrito o Prof. Manuel Caldeira Cabral, da Universidade do Minho.