As eleições de 1958 tiveram, como se sabe, Humberto Delgado e Américo Tomás como protagonistas principais. O que já muitos não saberão é que não foi apenas o resultado final das eleições que foi condicionado pelo regime. Na verdade, o próprio recenseamento eleitoral estava longe, na prática, de abranger o universo dos potenciais eleitores (em 1974 o número de eleitores recenseados não chegaria a um milhão). Outro aspecto surpreendente, aos nossos olhos, é o de os boletins de voto não estarem disponíveis nas assembleias eleitorais, mas serem previamente distribuídos pelos eleitores. Como seria de esperar, o regime assegurou a impressão e a distribuição, porta a porta, pela GNR e pela PSP, dos boletins de Américo Tomás. A tarefa de imprimir os boletins de Humberto Delgado foi bem mais complicada, pois até conseguir papel com as características impostas em quantidade suficiente foi um obstáculo difícil de superar. Quanto à distribuição, esta foi feita de mão em mão, entre aqueles que não temeram ver o seu nome associado à candidatura do General. Neste contexto, e tendo em conta o ambiente geral de intimidação, o controlo da imprensa e a falta de rigor na própria contagem de votos, pode imaginar-se que Humberto Delgado tenha perdido muitos votos. Pois bem, estou em condições de afirmar que também ganhou um que não lhe estava destinado. Pelo visto, o meu Bisavô, homem de muito mundo e não poucas dificuldades, valorizava a ordem e a disciplina que Salazar impusera ao país. O meu Avô, por seu turno, era um homem afável como poucos naquela época. Trabalhador incansável, acumulava a arte de alfaiate com a gestão da mercearia da terra. Tanto riscava a fazenda com giz como servia copos de vinho pela noite dentro aos não poucos bêbados da aldeia. Independentemente da hora a que se deitasse, às cinco da manhã dava à bomba para retirar água gelada do poço com que tomava o seu banho diário e inadiável. Homem de visão, teve três filhas e, coisa também pouco comum à altura, todas estudaram. E se uma das minhas tias não obteve a licenciatura, tal sucedeu bem contra a sua vontade. Ora, o Avô Adriano, para além de muitas outras qualidades, era também um democrata. Mas, foi em vão que tentou convencer o meu Bisavô a alterar o sentido de voto. Cansado de argumentar, o Avô Adriano decidiu, em estado de necessidade, tentar alterar o curso inexorável da história recorrendo a outros métodos. Assim, na manhã das eleições, quando o meu Bisavô se aprestava a sair de casa para votar, o Avô Adriano chamou-o. Deixe cá ver esse casaco, que lhe dou uma passadela. Que sim, que não, que não vale a pena, que deixa estar, que vai melhor que isto não se vota todos os dias. Finalmente, o Bisavô tirou o casaco. O ferro a carvão já fumegava, prontinho para o deixar impecável. Aos pés do Avô Adriano, escondida pela mesa de alfaiate, estava uma catraia, a minha mãe, com um boletim de voto de Humberto Delgado na mão. E enquanto a mão do Avô Adriano empurrava o ferro, a mão da minha mãe entrava no bolso do casaco do Bisavô e substituía o boletim de Américo Tomás que lá estava, muito bem dobrado, à espera de ser depositado na urna. Ora aqui está, já que não muda de ideia, ao menos que vá com a devida apresentação. Não mudo não rapaz, e melhor farias tu em mudar. E enquanto um e outro se iam entretendo a terçar os últimos argumentos políticos, a minha mãe já se dirigia à mercearia para se apropriar da laranjada que o pai lhe tinha prometido.
De como Humberto Delgado recebeu um voto que não lhe estava destinado
Rui Rocha,

Deliciosa história, e superiormente contada.
Obrigado, JMG. Ainda bem que lhe agradou.
Bonita estória “, Rui… Espero que a sua mão ainda hoje possa guardar o sabor daquela laranjada!
Guarda certamente, Eduardo. Foi ela própria que me contou a história hoje de manhã.
Pois meu caro amigo tenho pena que aquilo que motivava o seu Avô se tenha transformado nos dias de hoje em “oportunistas e paraquedistas” que se movimentam conforme a conveniência de momento.
Percebo o seu desencanto, Luís. Mas, apesar de tudo isso que refere, temos que reconhecer que as “dores” de agora são bem diferentes das de outrora.
Que história deliciosa essa meu caro Rui Rocha, o meu avô, à época funcionário da CML contava que lá no serviço, o capataz (nome antigo para o chefe de secção) entregou a todos um envelope fechado com o aviso de que era obrigatório ir votar.
É claro que hoje são tempos diferentes mas em troca de um almoço, de uma bifana ou de uma autorização de residência não haverá por aí muito paquistanês com um papelinho encomendado a votar por conta dos tais eleitores fantasmas?
Esperemos bem que não, Carlos Alberto. Para mal, bem basta o triste espectáculo que da exploração da fragilidade das pessoas que são arregimentadas para participar na campanha eleitoral.
Tinha então 5 anos. Lembro-me perfeitamente das muitas fotografias de Humberto Delgado coladas nas paredes da minha terra. Na altura das poucas terras do Alentejo onde se sentia o fervilhar do calor da luta dos trabalhadores fabris, pois era uma terra altamente industrializada. 18 fábricas de cortiça, uma grande fábrica de moagem de cereais, uma estação de caminho de ferro de 1.ª classe. Pela mão de minha mãe como todos os dias, por aqueles campos afora vínhamos para casa com a bilha cheia de leite acabado de tirar. De repente passa um avião a uma altitude relativamente baixa a largar papéis que, alguns, vieram parar cair bem junto de nós. A minha natural curiosidade levou-me a apanhar um deles, sendo imediatamente repreendido pela minha mãe para o lançar fora, o lema era: Não nos podemos meter em política. Era um papel muito fino, não posso precisar se eram rosa ou azul claro, do tamanho A5. Mais tarde vim a saber que era propaganda do Regime.
Que preciosas memórias nos traz, Singularis.
Que ternura de história, Rui! E tão bem contada que parece um conto. Devias pensar nisso, tens verve e matéria para muitos livros… ou será que já existem e não sabemos? Seja como for, parabéns.
Excesso de generosidade da tua parte, Ana. De momento, vou dizendo a mim próprio que a falta de tempo é o motivo pelo qual não escrevo coisas mais estruturadas. No fundo, estou convencido de que é uma desculpa de mau pagador para esconder uma evidente falta de arte e engenho.
Fishing for compliments, dear Rui? Sabes muito bem que escreves bem, e o que escreveste neste blogue já daria dois romances à moda do Tolstoi. Mas um dia abalanças-te, tenho a certeza. Não demores muito. Beijo, ó promessa de escritor! 🙂
Chamou-me a atenção a agua do poço.
Lembramo-nos do pequeno lavatório de água que não era canalizada, e os banhos de caneca.
E comparamos com banheiras com hidromassagem que hoje alguns teem que devolver ao banco porque não podem pagar a prestação do apartamento.
Até da saudade do tempo das pequeninas cidades e das enormes aldeias.
Não podemos ter tudo simultaneamente, paciência!
Mas, podemos ter memórias saborosas, Rural.