O comentário da semana


Pedro Correia,

«No que concerne à “igualdade de oportunidades” para uma competição desportiva justa entre homens e mulheres, há pelo menos dois desportos que, assim de repente, me estou a lembrar, por não dependerem das aptidões físicas dos participantes: o xadrez e o bilhar (ou o snooker).
O primeiro não é espectacular para se assistir, embora o segundo já o seja (para quem aprecie, é óbvio). No entanto, parece que nenhum deles é especialmente difundido (principalmente o primeiro), nem parece que seja fomentada a competição unissexo.
Não deixa de ser curioso…

 

Outro aspecto é o da da entrevista citada. Agradeço pela oportunidade que me proporcionou de a ler, pois é interessantíssima.
Acho que depois de a ler passei a encarar com outros olhos (com um olhar de menor censura) a possibilidade de ser verdadeira a acusação que impende sobre o Dominique Strauss-Kahn (não me refiro ao desvalor da conduta em si, e muito menos no confronto da mesma com a situação da vítima, mas sim à motivação – ou à ausência de uma motivação racional – por parte do DSK para a prática daquele “acto de loucura” que lhe é imputado).
De algum modo, essa entrevista fez-me lembrar uma passagem de um comentário feito por Vasco Pulido Valente no seu blogue (“O Espectro”), que considero que traduz por palavras de uma forma clara e clarividente aquilo que tenho sentido e que nunca soube verbalizar.
Essa passagem é a seguinte:
“O Estado também aflige. Por favor, não tomem isto como propaganda política. Imaginem o Estado durante Salazar e Caetano. Existia a PIDE e a censura: e mil tiranetes por aqui e por ali. Não vale a pena repetir o óbvio. Em compensação, o Estado não queria mandar na vida de ninguém. Não proibia que se fumasse. Deixava o trânsito largamente entregue a si próprio. Não andava obcecado com a saúde e a segurança. Não regulava, não fiscalizava, não espremia o imposto até ao último tostão. Um indivíduo, pelo menos da classe média, passava anos sem encontrar o Estado: em Portugal, em Inglaterra, em Itália, na Europa. Acreditam que nunca voltei a sentir o espaço e a liberdade desse tempo?”

 

 

Esta passagem, tal como a entrevista do J. G. Ballard, respondem a uma interrogação que me assola desde há algum tempo: porque somos mais infelizes apesar de vivermos numa sociedade mais liberal e mais desenvolvida? Porque, no fundo, temos menos liberdade. Não a liberdade de escrever aqui ou ali e de dizermos, em público ou privado, as maiores baboseiras; não a liberdade que o estatuto económico proporciona de ir a um restaurante caro, ou passar férias num bom hotel, ou de comprar o mais sofisticado computador ou telemóvel. Mas a liberdade de viver sem ter de se estar em permanente confronto com o Estado e com as limitações por este impostas.
A civilização tem um preço, que é cada vez mais elevado. Tão elevado que cada vez se torna mais perigoso viver em sociedade.»

 

Do nosso leitor Alberto Cunha. A propósito deste texto do JAA.

6 comentários em “O comentário da semana”

  1. “…passei a encarar com outros olhos (com um olhar de menor censura) a possibilidade de ser verdadeira a acusação que impende sobre o Dominique Strauss-Kahn…”

    O que vou dizer não tem nada a ver com culpabilidade ou inocência, nem com “a verdade dos factos”, coisas que não são da minha conta.

    Mas aprendi há uns anos atrás como a generalidade das pessoas tem dificuldade em imaginar os mundos (eventualmente muito negros) que podem habitar alguém que pensam conhecer bem (ou mais precisamente, que pensam conhecer completamente). Na verdade, temos muito pouca imaginação.

    1. Infelizmente tenho imaginação suficiente, tanto mais que coloquei a hipótese da culpabilidade.
      Mas como não gosto de fazer juízos apressados e infundados (ainda que possam coincidir com a realidade), achei por bem considerar a culpabilidade apenas no campo das hipóteses.
      Em todo o caso, é certo o que diz, na perspectiva de que nunca se pode saber do que cada um é capaz, isto é, que, em última análise, todos somos capazes de tudo.
      Embora na perspectiva do texto se possa de algum modo compreender as condutas que afrontam os nossos padrões de moralidade (ou, pelo menos, não exacerbar a censura das mesmas), ainda que não se possam aceitar (nem deixar impunes).

  2. Comentário certeiro.

    Não é por acaso que os EUA, a nação das mais amplas liberdades, é também a nação com o maior número de proibições por metro quadrado (ou por agregado, ou por cidadão, ou o que quiserem).

  3. Queria agradecer a todos os simpáticos comentários.
    E agradecer ainda ao Pedro Correia o facto de ter escolhido este meu comentário, o que muito me lisonjeia.
    A todos um bem-haja.

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