Convidado: CARLOS MANUEL CASTRO


Pedro Correia,

 

O grande terramoto político

 

Apesar dos momentos actuais conduzirem a nossa atenção para a importante eleição legislativa nacional de 5 de Junho, a detenção de Dominique Strauss-Kahn (DSK) em Nova Iorque, com um profundo impacto na França e repercussão em todo o mundo, é merecedora de atenção, pois está muito mais em jogo do que podemos pensar, tanto para a França, como para Portugal, como para a UE no seu todo.

Não vou pronunciar-me acerca do caso, mas do que esta saída da corrida presidencial de DSK pode provocar em França e como isso pode ser perigoso para todos nós, europeus.

A imprensa gaulesa, antes de noticiar a detenção do Director do FMI, dava DSK como o grande favorito das presidenciais francesas de Maio de 2012. Desde há meses que o antigo Ministro de Mitterrand e Jospin, sem ter anunciado a candidatura presidencial, batia aos pontos os seus adversários, tanto internamente, no PS francês, como no confronto com a direita. A sua caminhada parecia imbatível. E eram vários os pontos positivos de DSK: além de ser o francês neste momento com melhor noção de que mundo vivemos e de quais as melhores respostas a dar, decorrente das suas funções no FMI, DSK é um dos políticos mais experientes e que granjeava apoios tanto à esquerda como à direita.

Qual castelo de cartas, toda esta imagem, que também conta(va) com alguns episódios pessoais menos abonatórios, tomba num sopro.

Os franceses são abalados por este terramoto político e as cartas voltam a ser baralhadas: tudo está em aberto nas presidenciais de 2012. E é aqui que o assunto começa a ser muito delicado.

 

 

Nos últimos anos, a política francesa tem vindo a transformar-se num campo de batalha de egos e traições, e todo este cenário só tem beneficiado a candidatura da extrema-direita, de Marine Le Pen, que já surge como a segunda candidata mais creditada na corrida ao Eliseu, quase sempre à frente de Sarkozy e atrás de DSK.

Quanto ao actual Presidente francês, uma das maiores desilusões políticas da actualidade, por ter surgido, em 2007, como o novo rosto da França pujante, todo o seu mandato fica marcado pelo incumprimento do que prometera nas últimas eleições presidenciais. Pouco mudou e nada evoluiu.

Não bastasse o mandato falhado, no seu campo político surgem potenciais candidaturas que apenas se movem contra a sua candidatura e triunfam com a derrota de Sarkozy: Villepin, o seu arqui-inimigo e ex-Primeiro-Ministro de Jacques Chirac; e, Jean-Louis Borloo, ex-Ministro de Sarkozy e líder da formação radical, que acaba de sair do UMP. São sempre uns votos, talvez os suficientes para prejudicar Sarkozy de não alcançar a segunda volta.

Não bastasse a fragmentação da direita francesa, a esquerda, com a saída de DSK de cena (à qual, aliás, ainda nem tinha subido), apresenta candidaturas que traduzem a divisão que tem marcado o PSF nos últimos anos: François Hollande e, muito possivelmente, Ségolène Royal e Martine Aubry.

É, pois, com todo este turbilhão, e passando pelos pingos da chuva, que aparece a “imaculada” Marine Le Pen.

A filha do carismático líder da extrema-direita, Jean-Marie Le Pen, tem vindo a subir nas sondagens com grande sustentabilidade. A adaptação dos princípios do pai ao momento presente, mas com uma imagem mais fresca e moderna, trabalhada de modo a que a comunicação das ideias, por mais incongruentes que sejam, passe e conquiste apoios.

O caminho que Marine tem feito, de acordo com os estudos de opinião, tem sido muito favorável à Frente Nacional.

Com o seu engenho de propalar a moral e bons costumes nacionais, tendo nos estrangeiros, no projecto europeu e na globalização todos os males de França, a extrema-direita faz com que Marine surja como o rosto mais credível, face às desavenças da esquerda e direita democráticas, mais enredadas nas questões internas do que nos problemas do país.

 

 

O que hoje parece algo sem grande impacto, rapidamente pode transformar-se numa hipótese muito preocupante. Um breve exercício de memória lembrar-nos-á o que se passou em 2002, quando a França e a Europa acordaram, em choque, no dia a seguir à primeira volta das presidenciais, com Jean-Marie Le Pen a passar à segunda volta e a defrontar Chirac. Depois de em 2000 a extrema-direita ter chegado ao poder na Áustria. Pois é muito provável que Marine Le Pen chegue à segunda volta das presidenciais de 2012 e já esteve mais longe a certeza de que a sua candidatura podia perder.

E é fácil compreender como os ventos sopram a favor do extremismo. O actual descrédito dos candidatos dos partidos-referência, a detenção de DSK é mais uma contribuição, e a desilusão de parte significativa do eleitorado, que se vai rendendo, em França como noutros países europeus, à extrema-direita, tornam o nosso futuro mais inseguro do que incerto.

A retirada da França do euro e o reerguer das fronteiras na UE, entre outras medidas que Marine Le Pen apregoa, e muitos franceses apreciam, não mais seria que o descalabro europeu, a sentir-se, em primeiro lugar, em países como o nosso. 

Pensava eu, até há poucos dias, que DSK seria a pessoa que iria resgatar a França e a UE do actual marasmo. Vai-se esta grande esperança, oxalá outra possa surgir no horizonte.

Dentro de um ano verifique-se este escrito, desejando estar completamente errado no que ao sucesso da extrema-direita diz respeito.

 

Carlos Manuel Castro

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