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Patrícia, estás bem?
Cansada, mas bem, obrigada por perguntares. Nem todas as pessoas têm esse cuidado.
Publicar um novo livro, neste caso o “Por Este Mundo Acima”, mete medo?
Sim, de certa forma há sempre um medo associado ao seremos avaliados na forma como escolhemos partilhar ideias com o outro. Apesar disso, acredito que se escreve para que possam gostar de nós, para que se possam identificar com quem somos ou, no limite, para suscitar perguntas e respostas. Publicar é o fim de um processo. Quando o livro já nos saiu das nossas mãos há muito tempo é que começa a suscitar interesse, a chegar ao leitor. Essa sensação, a linha do tempo, é um pouco estranha.
“Por Este Mundo Acima” é uma peregrinação futurista numa Lisboa destruída, mas não é um livro sobre um acidente nuclear, pois não? É sobre o quê?
É sobre aquilo que mais me interessa: as pessoas, as dúvidas, os segredos, os medos, a forma como partilham, como descobrem afinidades. É um livro sobre a memória e sobre o bem e o mal. Num cenário de destruição, um velho editor repensa toda a vida que teve e é obrigado a encarar a sua condição de sobrevivente.
Ser sobrevivente é importante?
Neste contexto é o que permite definir o que é prioritário. Se quiseres, a amizade torna-se o essencial e é, para mim, a melhor forma de amor, ao mesmo tempo que os livros funcionam como um corrimão para mantermos uma ideia de condição humana.
A amizade está presente em todos os teus livros, até mais do que o amor entre homem e mulher, porquê?
Porque podemos separar-nos do homem ou mulher que um dia achámos ser o homem ou mulher da nossa vida, mas um amigo, um amigo verdadeiro, está connosco para a vida. Faz parte de nós. No bem e no mal.
Tens amigos assim?
Tenho, felizmente. Poucos mas bons, como se diz. Este livro é igualmente uma homenagem a essa forma de amizade de que beneficio e, além de ser dedicado ao meu filho Sebastião, é dedicado a duas mulheres que são importantes na minha vida diariamente. Sim, porque o exercício autêntico da amizade é, nisso, semelhante ao amor: precisa de prática e treino constante.
O que esperas deste livro?
Que seja lido pelo maior número de pessoas e que traga, a alguns leitores, uma outra perspectiva sobre a forma como vivem. Pode parecer uma presunção, dito assim, mas é sincero. Há livros transformadores – já li alguns – pode ser que este também o seja para alguém. Só isso deverá deixar qualquer escritor contente, porque a sua tarefa foi cumprida.
Patrícia Reis
