Acabo, caro leitor, de embater com uma esmagadora realidade que me provocou um pungente sobressalto cívico. Imagine que estive até hoje convencido (ah, a soberba!) de que a definição da palavra equívoco corresponderia a erro, confusão, interpretação errada ou mal-entendido. O que são as coisas, a minha convicção era tal que teria sido capaz de apostar, em se proporcionando a ocasião, a totalidade das minhas escassas posses, actuais e futuras, em como o significado era esse. A meu favor intercedeu certamente a providência divina, evitando que me encontrasse por esta vida fora com alguém que, sabedor das minhas limitações linguísticas e, sobretudo, da minha auto-suficiência arrogante, pretendesse, por via da dita aposta, colocar os meus bens materiais ao nível da reputação do Teixeira dos Santos depois da intervenção do António Costa na Quadratura do Círculo. É certo, leitor, e isto invoco em minha defesa, que o equívoco, digo, o erro, não era só meu. Em verdade lhe digo que não falta por aí dicionário que incorra no mesmo desgraçado equívoco, digo, erro. Daí o meu sobressalto cívico. Ocorreu-me, perdoe-me o abuso se não for o caso, que o leitor poderá estar também acorrentado a este equívoco (irra), digo, erro. Atormentado pela dúvida, não podia fazer menos do que vir até aqui para partilhar humildemente o que hoje aprendi. Passo então a explicar. O Ministro das Finanças comunicou, há uma semana atrás, o congelamento das pensões. E nos dias seguintes sucederam-se posições duras sobre o assunto de representantes de reformados, de partidos e de sindicatos. E os jornais fizeram correr rios de tinta sobre as suas consequências. E o líder da bancada parlamentar do PS manifestou-se, ainda ontem, preocupado com a medida. E José Sócrates, também ontem, mostrou-se disponível para a negociar. Hoje, todavia, o Primeiro-Ministro, veio informar que se tratou de um equívoco. Ora, caro leitor, se um equívoco fosse um erro, nunca poderia ser objecto de negociação, não é verdade? Teria que ser objecto de correcção, certo? E deveria até ser corrigido o mais depressa possível, não fazendo sentido deixar passar uma semana para o fazer, pois não? Pois é! Por isso, estou agora convencido de que equívoco não pode ter o significado de erro, embora me falte perceber exactamente o que é que equívoco quer dizer. É uma dúvida que vou tentar esclarecer (ou deveria dizer negociar?) ancorado, apesar de tudo, em algumas certezas. Na verdade, quer-me parecer que um vintém continuará a ser um vintém e que um cretino nunca deixará de ser um cretino.
Desfazer equívocos
Rui Rocha,

Já na entrevista à SIC ouvi o dito cujo usar o termo tantas vezes que fui levado à mesma conclusão do Rui: um cretino nunca deixará de ser um cretino.
É, cada vez há menos certezas no mundo. Mas, essa parece ser uma evidência.
Rui,
1 – A língua muda, os vocábulos mudam. Olha, por exemplo, o significado da expressão “à rasca”. Hoje em dia isso quer dizer: “patuscos, desempregado, profissional independente farto de passar recibos verdes, vontade de se acomodar, integrar no sistema, o mesmo que deixar de ter preocupações, passar a efectivo, tem um emprego, receber subsídios, não ter dinheiro para o gasóleo, membro do governo em apuros, dirigente e partido político que não descola nas sondagens, eleições à vista”, etc. E podia continuar. Nós aprendemos e habituámo-nos a ver as coisas por um determinado prisma e agora temos dificuldade de adaptação. Equívoco é, pois, tudo aquilo que um homem quiser, mas nesse contexto nunca o Natal e tudo o que este comporta (ou comportava).
2 – Se os de Braga sabem que andas a citar o de Guimarães… não sei não…
Bom fim-de-semana.
Eheheh! Bom fim-de-semana, Sérgio.
Apareceu entretanto Sócrates a dizer que mantém toda a confiança no ministro. Com toda a propriedade porque não é concebível que encontre igual lorpa que lhe apare os baixos golpes. Depois de mais este episódio, um mínimo de compostura por parte de Teixeira Santos obrigá-lo-ia a demitir-se. Ao contrário aparece encolhido e envergonhado debaixo da pata demolidora do eventual engenheiro.
Teixeira dos Santos tinha há uns tempos uma aura de competência e credibilidade. Agora, já pouco se distingue de um capacho.
Pois, é como a crise, que é apenas internacional…
É verdade, FTorres. Nós aqui com tudo tão certinho e andam aqueles fulanos lá fora a dar cabo de tudo!
Depois da actuação de hoje no Parlamento, perdi todas as dúvidas sobre a sanidade psicológica de quem nos desgoverna – e só me resta lamentar que ainda haja gente adulta que acorra em seu apoio.
É de facto incrível como existe por aí tão pouco sentido crítico, Alberto.
Não é bonito dizer que o Primeiro Ministro do meu país é um mentiroso compulsivo, ou um aldrabão reincidente… apesar de ser verdade.
Prefiro usar a fórmula de Pacheco Pereira: o indivíduo tem uma “relação difícil” com a verdade (senão mesmo “conflituosa”, acrescentaria eu :):):).
Estou mesmo agora a ver a verdade ao longe e está cheia de hematomas. Até parece mentira, 100anos.
clap, clap, clap, clap
“Cretino” poderá passar, então, a ser sinónimo de “equivocado”. Ou de “congelador excessivamente lesto”.
Poderá, João. E PEC poderá passar a Plano Equivocado de Cretininice.
Teixeira dos Santos “virou” cordeiro pascal. Bem feito!
Quem não quer ser cordeiro não lhe veste a pele, Eduardo.
Todos erramos, mas persistir acho “equivoco” demais =)
Também me parece, G. Mas, podemos estar equivocado, digo, errados.
João Galamba, que ontem vi no Expresso da Meia-Noite da SIC, bem pode ser considerado uma das mais fiéis imagens do PS de Sócrates: uma ignorância atrevida, que no entanto se tem por detentora exclusiva da verdade, numa insuportável e doentia manifestação de exbicionismo.
Deprimente pensar que o País se encontra há seis anos nas mãos desta gente…
Tem razão, Carlos. Pior que a incompetência é juntar-lhe a auto-suficiência.