‘O Comboio Apitou Três Vezes’ ou ‘Rio Bravo’?
Poucos são os amantes de westerns a quem ainda não foi feita esta pergunta. Por que assim é explica-se em poucas linhas. Corria o ano de 1952 quando O Comboio Apitou Três Vezes (High Noon, no original) de Fred Zinnemann foi exibido no grande ecrã. O filme apresenta um xerife com grande sentido de justiça, representado por Gary Cooper, que vê-se abandonado pelos que o rodeiam na luta contra um quarteto de pistoleiros que ameaçam o ambiente tranquilo e pacato de uma pequena cidade. Carl Foreman, o argumentista, usou de um ambiente alegórico para simbolizar o período do McCartismo nos Estados Unidos e o filme é um dos melhores retratos da grande diferença que vai entre o reconhecer o que está certo e fazer o que está certo. Quem não gostou do filme foi John Wayne que considerou-o “a coisa mais não-americana” que alguma vez havia visto na vida. Howard Hawks, realizador de êxitos como Os Homens Preferem as Loiras, também não ficou particularmente agradado, tendo afirmado que “um xerife não sairia correndo pela cidade como uma galinha sem cabeça à procura de ajuda”. A resposta de Hawks e Wayne chegou ao grande ecrã sete anos depois, em 1959, com Rio Bravo. Neste, Wayne retrata um xerife que teima em não pedir ajuda, embora frequentemente a receba. O Kane (Gary Cooper) de O Comboio Apitou Três Vezes é um homem que, apesar da grande coragem demonstrada, dá mostras de vacilar, que tem dúvidas e cede momentaneamente ao desespero; já o John T. Chance (John Wayne) de Rio Bravo tem os níveis de autoconfiança nos píncaros e se receia algo não dá mostras disso – uma visão mais máscula do herói do faroeste que Hawks e Wayne partilhavam. Gary Cooper, tendo bem frescas na memória as críticas ao seu filme, disse de Rio Bravo que era “tão falso que ninguém acredita nele”. Equivocou-se, naturalmente.
Fora as picardias, do ponto de vista da aclamação crítica, O Comboio Apitou Três Vezes leva a melhor sobre Rio Bravo. O segundo ficou sem qualquer Óscar, o primeiro teve quatro, incluindo um pela interpretação de Gary Cooper que, ironicamente, por ter faltado à cerimónia pediu a John Wayne que o recebesse em seu nome. O American Film Institute na lista dos melhores filmes do século incluiu O Comboio Apitou Três Vezes na 33ª posição, enquanto Rio Bravo nem figurou na lista. Contudo, é certo que do ponto de vista da aclamação popular ambos saem vencedores, quiçá com uma pequena vantagem para Rio Bravo, verdadeiro filme de culto que tanto serve para Quentin Tarantino testar o gosto das namoradas, como de inspiração a John Carpenter para o Assalto à 13ª Esquadra. Por outro lado, para avaliar o impacto d’O Comboio Apitou Três Vezes, basta notar que é o filme favorito de muitos dos que habitaram a Casa Branca, começando por Eisenhower, passando por Reagan e terminando em Clinton, que durante o período em que foi Presidente o terá visto por dezassete vezes.
A explicação para a má onda dos críticos para com Rio Bravo pode estar na simplicidade do argumento, mas é nessa simplicidade que está parte do segredo do filme. Na simplicidade do argumento combinado com um bom humor permanente, numa enorme sensibilidade de Hawks na adopção do ritmo, intensidade e desenvolvimento da acção – uma fórmula copiada por muitos outros realizadores que se lhe seguiram -, numa banda sonora fabulosa e num conjunto de actores com interpretações inesquecíveis. Tudo isto resultou em puro entretenimento, do melhor alguma vez produzido. Já O Comboio Apitou Três Vezes, que recorre à técnica de contar a história em tempo real – confrontando o espectador de tempos a tempos com relógios de parede que nos alertam para o esgotamento do tempo que resta ao protagonista e intensificam o efeito dramático -, busca a sua força numa abordagem que pretende ser mais séria e forçar-nos a pensar sobre o mesmo muito para além dos 85 minutos que dura a acção. No que toca ao elenco, O Comboio Apitou Três Vezes tem menos força que Rio Bravo, embora mal se note porque todo o filme é carregado às costas por um Cooper no seu melhor. Mas Grace Kelly, no papel de Mrs. Kane, foi um erro de casting só perdoado pela beleza da actriz. Já o acerto na escolha de Angie Dickinson em Rio Bravo é inegável. Inegável é também a beleza da cena de abertura d’O Comboio Apitou Três Vezes, acompanhada pela canção Do Not Forsake Me, Oh My Darlin’ na voz de Tex Ritter. Mas na música Rio Bravo não lhe fica atrás e naquela que é a sua cena mais icónica apresenta um Dean Martin acompanhado pelo derrete-corações Ricky Nelson a cantarem My Rifle, My Pony And Me.
Dois excelentes filmes que ajudaram a imortalizar o género western para todo o sempre pelo que de pouco se justifica colocar as coisas nos termos inicialmente apresentados, de um como resposta ao outro. Na essência não serão tão antagónicos quanto isso e no fundo é tudo cinema, do melhor cinema. Ainda assim, termino ensaiando a resposta possível à pergunta que comecei por colocar: nem um, nem outro; A Desaparecida de John Ford e não se fala mais nisso.




Meu caro, quero confessar-lhe o prazer que me deu ler este seu texto sobre um dos meus géneros cinematográficos favoritos. Entre os dois filmes que aponta, e apesar de também gostar muito de ‘High Noon’, não hesito em escolher ‘Rio Bravo’. Embora, por mais voltas que dê, acabe por chegar igualmente à mesma conclusão: nenhum outro é tão excelente como ‘A Desaparecida’.
Obrigado, caro Pedro. E aproveito para agradecer publicamente o convite para escrever este texto no Delito de Opinião.
Gosto muito do filme de John Ford. Desse e do outro referenciado no comentário seguinte pelo Alexandre Carvalho da Silveira: ‘O Homem que Matou Liberty Valance’.
Entre o ‘Rio Bravo’ e o ‘High Noon’, a escolher o primeiro só porque faz parte das minhas memórias de infância, enquanto o segundo só tive oportunidade de visionar bem mais tarde. E há ainda outro western de que gosto muito, o ‘The Ox-Bow Incident’ com o Henry Fonda.
Curiosamente, vi os dois filmes pela 1ª vez, com poucos dias de intervalo, em Sines onde passava ferias e teria 9 ou 10 anos.
Adorei os dois, mas o filme que me ficou mais no imaginario, e que se tornou no meu western preferido durante anos foi o Rio Bravo.
Mr Brown brindou-nos com um excelente texto, e resolve e seu dilema de uma bela maneira: A Desaparecida é que é o filme. Até poderia concordar com Mr Brown, mas só até ter visto O HOMEM QUE MATOU LIBERTY VALENCE.
Cumprimentos
ACS
“This is the West, sir. When the legend becomes fact, print the legend.”
Também gosto muito d’O Homem que Matou Liberty Valance, caro Alexandre. E esse filme reúne logo dois dos meus actores favoritos: o James Stewart e o John Wayne.
Cumprimentos.
Thanks Mr. Brown. 🙂
Dois garndes filmes. Na minha lista dos “best of” e afectivamente gosto mais do Rio Bravo.
Bom fim de semana
Com o seu comentário já conto 3-0 a favor do Rio Bravo. Parece que se confirma o que digo no texto.
Abraço e bom fim de semana.
Eu prefiro o High Noon. A solidão e tristeza do homem que fica sozinho a fazer o correcto.
Música: IiA
http://www.youtube.com/watch?v=QKLvKZ6n
Com este conto 3-1 para o Rio Bravo. wFM
Boa ideia a da música. Fica também a do Rio Bravo:
http://www.youtube.com/watch?v=7IpEnsdX
Que belo texto, Mr. Brown. É um prazer tê-lo por cá.
Gosto muito de westerns, mas é um género no qual ainda tenho muito que explorar. Dito de outra forma: gosto muito quando vejo um bom western, mas ainda não vi tantos quanto isso. Por exemplo, ainda não vi nem “Rio Bravo” nem “High Noon” – antes de trazer(em) os archotes, permita(m)-me penitenciar-me por esta lacuna, e prometer que o problema será resolvido muito em breve.
Entretanto, este post trouxe-me à memória dois actores hoje muito esquecidos, mas pelos quais sempre tive um soft spot: Bud Spencer e Terence Hill. Que, por sinal, foram os protagonistas de alguns western spaghetti inesquecíveis. “Lo Chiamavano Trinità”, por exemplo, é memorável.
Se o João ainda não viu o Rio Bravo e o High Noon, eu ainda não vi o Trinitá Cowboy Insolente, pelo que evito pegar nos archotes. 🙂
Dos westerns spaghetti gosto dos do Leone – sobretudo do Aconteceu no Oeste -, que a par do Peckinpah – realizador d’A Quadrilha Selvagem – deram um último fôlego ao género, recriando-o à maneira deles.
Mas confesso-me maior admirador da idade de ouro que vai do final da década de 30 até início da década de 60.
Gostei muito, muito, deste seu texto, Mr. Brown. Obrigada.
Não sendo especialista no género (muito longe disse), gostei imenso deste texto. Parabéns, Mr. Brown.
Um Abraço,
jtf
Parabéns, pelo post. Não (re)vejo nenhum dos filmes há vários anos mas, talvez por preferir Gary Cooper a John Wayne (e achar que a Grce Kelly perdoa-se tudo), entre os dois gosto claramente mais de High Noon.