A lata tem os dias contados


Pedro Correia,

 

 

Tanto barulho para nada. Andam os espíritos muito alvoroçados porque um simpático duo intitulado Os Homens da Luta, composto pelos irmãos Jel e Falâncio, venceu o Festival RTP da Canção com um tema “revolucionário”. Que horror. As tias “socialistas” tremem de indignação: que mau aspecto, que falta de chá, a imagem portuguesa ficará manchada por estes nossos representantes no certame da Eurovisão, a realizar em Düsselforf. A começar pelo nome da cançoneta que se atreveram a levar ao palco do Teatro Camões, em Lisboa: A Luta é Alegria.

Nada disto faz sentido. O Festival RTP permanecia moribundo há pelo menos 15 anos. Jel e Falâncio acabam de recuperá-lo do estado comatoso em que se encontrava: de repente quase não se fala de outra coisa em Portugal. A RTP vive, graças a eles, um inesperado (e talvez indesejado) momento de glória como só tinha ultimamente por ocasião de uma ocasional partida de futebol. Além disso, os Homens da Luta não nasceram ontem: têm muita estrada percorrida. Começaram há anos com um programa intitulado Vai Tudo Abaixo , na SIC Radical, que era uma corrosiva diatribe aos hábitos e costumes portugueses, sem poupar nada nem ninguém. Munidos de uma viola e de um megafone, irrompiam em comícios, manifestações, celebrações laicas e religiosas, e até em posses de governos, como herdeiros improvisados das sátiras vicentinas à dimensão dos tempos actuais. Não se especializaram no humor politicamente correcto, liofilizado e engomadinho de outros: eles adoram mesmo disparar em todas as direcções. Por isso a rábula que levaram ao palco do festival visa caricaturar, em primeira linha, certos baladeiros pós-25 de Abril, com a sua música pseudo-revolucionária misturando estribilhos com batida folclórica, e em segunda linha funciona como uma farpa afiada aos actuais detentores do poder político, autênticos vendedores de ilusões.

Se Portugal fizer má figura na Alemanha, nos tempos mais próximos, certamente não será por culpa dos Homens da Luta. Segundo as mais recentes sondagens, 60 por cento dos contribuintes alemães – muitos dos quais irão a votos este ano, em sucessivas eleições estaduais – recusam continuar a financiar a dívida pública de países como Portugal com os seus impostos. A luta continua. Mas a nossa velha lata de persistir em viver de dádivas alheias, muito acima das nossas possibilidades e sem olhar a consequências, parece ter os dias contados. Ainda bem.

8 comentários em “A lata tem os dias contados”

  1. Por acaso acredito na sua visão do que representa a canção no festival e na projecção que este teve devido aos homens da luta, tal como acredito que essa de se viver de dádivas, como se pudéssemos continuar assim, tem os dias contados.
    Contudo, penso que quem votou na canção não a pensava como uma rábula, mas para protestar e muitos insatisfeitos com o que se está a passar em Portugal é porque pensam que continuar a viver das dádivas é um direito de elementar justiça. Vivemos num País de equívocos.

      1. Adorei ver o ‘Avante’ dedicar três artigos aos Homens da Luta. Tudo muito empolgado, tudo muito sério, como se aquilo fosse para levar à letra (e à música), como se não houvesse uma fortíssima componente de caricatura naquela rábula levada ao palco do Teatro Camões.

  2. Que falta que fizeram na cerimónia de abertura do ano judicial no Supremo Tribunal de Justiça, que é costume iniciar-se com «uns cânticos de entrada».

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