O CANÁRIO
– Hoje sou um pássaro! Um canário!
R. entrou na secção, com a farda do avesso, eufórico, olhos vermelhos, enfim, com os sinais todos do estado, subiu para a secretária, encolheu uma perna, abriu os braços e começou a agitá-los.
– Espaço! Dêem-me espaço! Vou voar, vou sair desta gaiola!
Os homens olharam-se, depois fingiram ler ou escrever, diante da inesperada metamorfose de R., furriel, um branco do recrutamento local, vulgo coca-cola, que empurrava com as botas, para o chão, processos e carimbos. Um cinzeiro de pau-preto caiu com estrondo.
– DESCE! – disse-lhe.
Naqueles dias não havia muitas formas de evasão, primeiro da guerra, depois daquela espécie de paz. Voar das duas era um desejo comum, urgente, que se realizava tomando um avião – nas circunstâncias difícil! – ou fumando suruma, a canábis moçambicana, vendida nas esquinas ao lado do caju e das hortaliças.
R. não desceu propriamente, estatelou-se, mas, recomposto, bateu as asas a caminho da porta de armas, a única vez que vi sentinelas perfilarem-se a um canário, que deverá ter ido para muito longe porque nunca mais apareceu.
(Notinhas de uma guerra engolida)

Continuo a seguir com interesse. Mas diga-me: estamos agora num altura em que a guerra acabou, mas os militares continuam lá, sem saberem o que se passa a seguir? Presumo ser essa a “espécie de paz”, que pouco difere da guerra.
Outra pergunta: recebeu o meu email? Enviei-o para o endereço que consta do seu perfil.
Os meses que intervalaram o 25 de Abril de 1974 e a assinatura dos acordos de Lusaca, em 7 de Setembro de 1975, foram muito indefinidos e tensos. Uma vez feita a paz – em termos que deixaram, e ainda deixam, dúvidas a muita gente -, os portugueses começaram a recuar nas suas posições do interior e a entregar as unidades militares à Frelimo, no caso de Moçambique. Milhares de soldados concentraram-se então nas cidades, uns à espera do regresso à metrópole, e da consequente desmobilização, outros entregues a missões de segurança ou a comissões liquidatárias da Região Militar. A “espécie de paz” a que me refiro no texto teve a ver com o mundo de traumas e de recriminações, quer dos militares quer dos civis portugueses, na maior parte brancos, incluindo muitos já lá nascidos, que acompanharam esses meses, frequentemente violentos. É uma história longa para aqui e um pouco complicada. Foi um período difícil. Sobre o seu mail, sim, Cristina, recebi e já respondi. Obrigado por ele.
Um aspecto que não conhecia. Eu tinha 8 anos quando se deu o 25 de Abril e sei que houve esse tempo de transição nas ex-colónias, com os portugueses a quererem regressar (os chamados “retornados”). Também os meus tios, que viviam em “Lourenço Marques”, onde tinham uma pensão, viram-se obrigados a deixar tudo. Mas, enfim, da situação dos militares pouco sabia, de maneira que acho esta série muito interessante.
Precisamente. Por muito que procure não vai encontrar muito sobre este período. Encontrará já alguma coisa sobre a guerra e sobre o pós-guerra, mas pouco sobre esses meses de incerteza que surpreendeu soldados e civis.
Obrigada Fernando, mais uma vez. Sei da coragem que é precisa para persistir em falar da guerra na primeira pessoa.
Não é só a História deste período de transição que está por fazer. Não é só a História dos tratados e das batalhas, das datas e do nome dos generais, que está por fazer.
O que está por fazer é a História do que a guerra fez à vida de cada um dos que por ela tiveram que passar. E que estão vivos. Mesmo se não conseguem aliviar a dor das feridas por sarar.
É por isto que é inestimável este teu contributo.
Obrigado, Marta. A História é realmente feita de histórias. Li algures que a guerra colonial envolveu nos 14 anos que durou um milhão de homens. A ser assim andaremos todos no meio de um milhão de histórias, que por um milhão de motivos deviam vir todas à tona. Porque aquilo aconteceu e deixou marcas, mais pesadas nuns, menos noutros, mas em todos.