Censura a certo jornalismo


jmmcc,

1. «O líder do Bloco de Esquerda (BE), Francisco Louçã, afirmou hoje que a moção de censura ao Governo é uma forma de corrigir as injustiças sociais e de trazer estabilidade e desenvolvimento ao País.» Perceberam? Eu também não.

 

2. Se Louçã tivesse uma pontinha de razão e conseguisse explicar muito bem explicadinho como é que censurar o Governo corrige as injustiças sociais e traz estabilidade e desenvolvimento ao País, era caso para cada grupo parlamentar, cada partido, cada cidadão cuidar de promover censuras permanentes ao Governo. Eu próprio, modestamente, podia ser laureado com um Óscar qualquer pelas censuras ao Governo que vou lançando e que, pelas minhas contas, já deviam ter-nos livrado da crise. Digam-me lá se tenho ou não tenho contribuído para corrigir as injustiças sociais e trazer estabilidade e desenvolvimento ao País.

 

3. A notícia em apreço e outras de igual teor pecam pelo mesmo motivo que pecam tantas outras notícias hoje em dia. Pecam de tal modo que já ninguém liga a isso. No caso, pecam porque Louçã lança a atoarda, diz o que lhe apetece, larga uma frase inconsequente e intraduzível, mas nenhum jornalista lhe pergunta o que seguramente não conseguiu entender. Não só nenhum jornalista entendeu e não pediu explicação, como ainda fez notícia do disparate. Só que não o publica como disparate, mas como notícia (que não é). Está na altura de pensar numa moção de censura a esta espécie de jornalismo que anda a minar o jornalismo propriamente dito.

8 comentários em “Censura a certo jornalismo”

  1. Tem, João Carvalho. tem contribuído. As pequenas causas podem ter grandes efeitos, mesmo que a observação daquelas não torne possível prever estes. Mas se quer contribuir mais, que tal iniciar algo de parecido com os movimentos Uncut UK e Uncut US? Trata-se de identificar os beneficiários da crise e de os atingir onde lhes dói mais: o bolso.

  2. HISTÓRIA INGRATA
    Um mínimo de reconhecimento em vez de condenação, exigiria saudações ao Bloco por ter conseguido juntar todas as crenças e obediências desavindas em coro solene nesta epopeia de supremo patriotismo. Desde a comunicação social a tantas outras forças vivas da nação, não há cão nem gato que não entre na beata procissão obediente ao estridente apelo das ratazanas da socristia . Santo Louçã, a irmandade das trevas não é eterna, e ainda será obra destes ingratos a tua beatificação. Interrupção da democracia já segundo Sócrates, é o que está a dar. Como ri Manuela!

  3. Há várias coisas que a moção já conseguiu. Primeiro: limitando-se a duas páginas (escritas em português e não em politiquês), instituiu-se como a primeira moção de censura ao governo cujos fundamentos são conhecidos e compreendidos pelos eleitores. Isto é uma novidade política absoluta, e não poderá deixar de ter consequências.

    Segundo: esvaziou a possibilidade de qualquer outro partido usar a mesma fundamentação numa moção futura: quando o PSD ou o PP apresentarem as suas moções, terão que pôr as cartas na mesa e mostrar-se tais como são. Também isto é novo.

    Terceiro: abriu caminho a que as questões políticas relativas a quem perde e a quem ganha com o austeritarismo sejam discutidas pela sociedade na sua substância e não apenas pela classe política na sua forma.

    Se o objectivo da moção era derrubar o governo, já perdeu; se era o que exponho acima, já ganhou.

    1. Uma coisa é certa, como V. diz: a moção do BE «não poderá deixar de ter consequências». Algumas dessas consequências só irão perceber-se nas próximas eleições, quando Louçã constatar que a percentagem obtida nas legislativas anteriores foi mais inflacionada do que o ego dele.

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