Diário irregular


Sérgio de Almeida Correia,

20 de Fevereiro de 2011

 

Pergunto-me se a realidade será algo abarcável por cada um de nós. Quem de nós tem a noção, já não digo exacta, aproximada da realidade? E quantos? Tomo por termos o que se passa agora na Líbia, no Iémen, em Marrocos, no Bahrein e na Argélia, logo a seguir ao que aconteceu na Tunísia, no Egipto, no Irão e na própria Síria. Os discursos da diplomacia estão de tal forma afastados do mundo que pretendem interpretar que as afirmações rotineiras dos líderes políticos perdem sentido. Aquilo que se passou há dias com o embaixador da Índia no Conselho de Segurança, que iniciou a sua intervenção lendo o discurso traduzido de Luís Amaro a pensar que era o seu próprio, constitui o melhor exemplo do ridículo em que as coisas caem. Do sem sentido em que andamos. Saber que a sorte dos povos depende de jogos de sombras e de enganos de bastidores é suicidário.   

 

Há cinemas em que qualquer sessão se torna penosa. O som é mau mas a película segue sendo exibida. Depois acendem-se as luzes. O filme continua a correr sem som. Alguém levanta-se, vocifera, vai saber o que se passa. Parece que foi um problema informático. Deve ser moda. Na sala ao lado outra sessão, que o tempo é curto e é preciso aproveitar. Dizem-me que tem várias nomeações para os Óscares. Cheira a pipocas. E a pipocas. A linguagem é crua. Ouvem-se uivinhos, guinchinhos e risinhos. E depois falam como se estivessem em casa. É a hora dos imbecis. E dos cretinos. Não há nada a fazer.

 

Como um texto tão curto gera tantas reacções. Fico admirado. Talvez tenha de rever a minha política de comentários. Um meio-termo seria o ideal, mas isso exige rigor, critério e disciplina. A última tem-me faltado ultimamente. Para haver disciplina importa também ter alguma paciência. Está identificado o problema.

 

O número de desempregados no Algarve cresce de forma tão assustadora que já não vale a pena tentar identificá-los pelos traços do rosto. Muitos não se distinguem dos que ainda têm emprego. Emprego, sim. Porque para quase todos há muito que desapareceu o trabalho. Encontram-se em grupos no “shopping”. Isto está cheio de “Alisuper”. E de Silvas. Os pobres fazem compras com o subsídio. Que haviam eles de fazer? Talvez seja o que lhes resta antes de se acabarem as asinhas de frango e esconderem a dignidade.

 

O Dr. Pinto Monteiro deu uma entrevista. Não posso deixar de admirar a sua coragem. Não pelo que fez ou deixou de fazer, mas pelo que diz e pela forma como o diz. Há um momento nas nossas vidas, na daqueles que ainda acreditam nalguma coisa, que o simples facto de se acreditar e de se confessar poderá ser visto como um sinal de insanidade. Continuo a magicar como é que um tipo bem preparado, interessante e inteligente ainda se aguenta. Mais, eu não sei como é que o MP ainda não estourou de vez. Se fosse uma empresa já teria fechado. Li algures que o sindicato da tabanca que ele dirige conseguiu meter seis dos nomes que apoiou no Conselho Superior do MP. Deve ser mais uma vitória do Dr. Palma. Agora vamos todos poder dormir descansados. Enfim, da maneira que isto está, quando ninguém ouve ninguém, isto ainda acaba tudo como na Líbia: rodeados de tendas, de camelos e de tiros.

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