Impressão: Sol Nascente


Bandeira,

“O John Locke acha que o povo detém sempre o direito de derrubar um governo injusto e repor o seu estado de liberdade original”, disse Camille. Ela vinha acompanhando com paixão, pela Internet, os acontecimentos no Oriente Médio. “Ele diz que numa revolução justa o verdadeiro fora-da-lei é o governo, não o povo”.

Claude Monet não se deixou impressionar. Como Hobbes, tinha pouca fé nesse estado de liberdade original. “E então? Nada de novo debaixo do Sol. Vou pintar. Há um salgueiro que…”. “Mas o que há de novo aqui é esse ‘o povo’, Claude!”, entusiasmou-se Camille. “Até o John publicar o tratado dele, houve muito quem defendesse o direito à revolta – desde que não partisse da rua”.

“Mas todos os governos, de uma forma ou de outra, são injustos, ma belle. Se isso fosse o suficiente para justificar a revolução, o que impediria as massas de se rebelarem por dá-cá-aquela-palha? Seria impossível tomar um absinto no café ou uma carruagem a horas”, brincou Claude, tentando aliviar a tensão. Camille tomou-lhe as mãos papudas. “O John diz que o povo não é assim tão revolucionário. Que só mesmo após uma longa sucessão de abusos um governo corre o risco de ser deposto pela rua. Olhe o que está a acontecer no Egipto, meu querido. Há trinta anos que esse Mubarak vem esticando a corda”. Monet cofiou a longa barba. “É certo que os egípcios tiveram uma paciência de múmia”, admitiu. “Mas suponha que instalam ali um regime pior ainda do que o actual, uma teocracia, sei lá. Que dirá o seu amigo John então?”. “Se isso acontecer, o povo terá mais uma vez o direito de se revoltar”, respondeu Camille, olhando um ponto indefinido para lá da janela. “Nem que seja apenas daqui por outros trinta anos”.

Claude fez que sim com a cabeça. Achou-se tonto por imaginar que a mulher pudesse ter um caso com Locke: demasiada diferença de idades. Depois veio-lhe à mente o que Cioran escrevera sobre como não existem mudanças de regime, apenas de polícia, mas não disse nada. Camille deu-lhe um beijo apressado e voltou para o portátil. Então ele calçou as galochas, colocou o chapéu e saiu para pintar nenúfares.

9 comentários em “Impressão: Sol Nascente”

  1. Depois da saída de Claude, Camille ligou o facebook e procurou os amigos que estavam online, no chat. Encontrou a outra Camille, a sua amiga escultora. “Então, miúda, tudo bem por aí? Como vai o Auguste?”. “Rabugento como sempre, minha querida. Nunca te metas com homens mais velhos! Tenho de ir, lá está ele a chamar-me outra vez…”, foi a resposta. Camille suspirou, pensando: “Ó pá, afinal até tenho sorte: ao menos o meu homem não me rouba os trabalhos e depois diz que são dele… “

    Não resisti, Zé. Mas adorei o teu texto.
    🙂

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