Verde mas pouco
Era uma vez um recibo “verde”, “verde” só no adjectivo feito apelido, vivendo em constante angústia. Essa angústia tinha causas diversas, grande parte delas relacionadas com um Gigante. Ao contrário do que possam já imaginar, não se trata de algo enorme em altura. Não, decididamente não. É, sim, algo enorme em profundidade: um buraco gigantesco, dantesco, grotesco… Qual Golias dos tempos modernos!
O recibo “verde” vivia e trabalhava num país à beira-mar plantado, não interessa o nome (fica ao vosso critério imaginá-lo). O seu “ganha-pão” diário era feito, cada vez mais, de uma panóplia de sacrifícios de cores e feitios. Aliás, por um lado, as cores tendiam para tonalidades mais escurecidas e, por outro, os feitios eram progressivamente mais definhados e pontiagudos. Sacrifícios, esses, para alimentar a gula do referido Gigante que, com isso, em vez de realizar uma dieta salutar aumentava a sua avidez e o seu estado insaciável. Ou seja, muito distante do estado socialmente aceitável e de sã convivência.
Por mais leis que se fizessem, por mais códigos que se publicassem, por mais impostos que se pagassem, a factura era sempre paga pelo recibo. Que não tinha direito a almoços grátis! Isso era só para alguns “não recibos”… Assim, não é difícil de imaginar, o Gigante ganhava profundidade e largura a um ritmo assustadoramente voraz. Nem a mais imaginativa campanha publicitária ou truque de ilusionismo embelezaria tal “gigantismo”, embora houvesse quem acreditasse nisso…
O recibo “verde” perdeu, gradual e miseravelmente, a esperança legítima de independência, transformando-se numa cor mais acinzentada. Por muita vontade que tivesse no contrário, os abusos a que era sujeito tornavam o recibo refém da precariedade e consequente marginalização. O Gigante, aproveitando-se da sua força desmesurada, arrastava o recibo para uma de duas situações: ou fugia desse país metamorfoseado num abismo; ou agravaria a sua dependência eunuca de direitos face aos interesses sórdidos do Gigante e seus cúmplices.


O “recibo verde” foi baptizado por um daltónico. Parabéns, Gonçalo.
Caro João, em primeiro lugar, aproveito para agradecer esta oportunidade de escrever um texto num blogue tão interessante, a todos os níveis.
Realmente, há muitos (em primeiro lugar, o Estado; depois, os seus cúmplices) que padecem de “gigantismo daltónico”. Bem haja!
Pedras feitas de palavras contra o Gigante
Desse Abril conquistado
por tamanhas afoitezas
fica um povo atado
entre tantas incertezas…
Após décadas perdidas
entre milhões emplumados,
ficam vontades vendidas
sem retornos confirmados.
São milhares de diplomados
despojados de um futuro
deixando sonhos bem firmados
em toneladas de monturo.
Então, que essas palavras se façam sentir/ouvir!
Sistemas onde uns morrem de papo cheio e outros famintos… Porque o que interessa é sustentar a economia de alguns contra a qualidade dos serviços prestados. Números a rebolar sobre a mesa e ups … já foi comido… onde andam os valores?
Importa uma sistematização e formatação do ser humano segundo o modelo pré-concebido sem acesso à liberdade, à expressão e à vocação profissional porque mais uma vez o que conta é mais uma vez a sobremesa dos números altos! São esses os mais doces no paladar dos que já não vêem para lá do mercado.
Mercado Mercado Mercado em detrimento do SER Humano, dos Valores, da Diversidade, das Qualidades e não só das competências mercantis .
Deixou uma questão: como alterar este processo para uma evolução da sociedade justa?
Que tal procurar a cor? O verde da esperança? Mas entretanto o que fazer na prática?
Cumprimentos a todos 😛
Venusnat
Pois é, preocupamo-nos, muitas vezes, com o acessório desprezando o essencial. Os números não deixam de ser importantes para a realização de análises estatísticas ou económicas. No entanto, nem sempre são suficientes para analisar o essencial, que pode ir muito para lá desses números. A tomada de consciência e consequente participação cívica são fundamentais para mudarmos este Estado associal. Entenda-se como Estado: todos nós. A tarefa não é/será fácil… E a voragem do tempo é avassaladora!
Este tema está mais actual que nunca, Gonçalo. Infelizmente. Obrigado pela visita.
Um abraço.
Caro Pedro,
Agradeço, a si e a toda equipa do Delito de Opinião, o convite para desfrutar desta oportunidade maravilhosa (é assim que a adjectivo).
Realmente, agora mais do que nunca, é imperiosa uma reforma deste Estado associal. Aqui, neste blogue, debatem-se ideias que vão de encontro a essa necessidade. Que a força (da razão e das ideias) esteja convosco!
Aquele abraço,
Gonçalo
O recibo verde
ainda está verde
Vai ver
quando amadurecer
Se o amadurecer for sinónimo de “boa colheita”, pode ser que algumas coisas tenham mudado para melhor. Haja esperança e vontade de mudar!
Os recibos verdes precisam é de uma aldeia que resista ainda e sempre ao invasor…
Muito bom texto!
Obrigado, João Campos. De repente, lembrei-me de Astérix, de Obélix e de outros “ix’s” a defenderem a Gália…
Uma excelente “fábula”, que retrata uma situação actual e verdadeiramente preocupante.
Haja quem fale dela, e porque não desta forma irónica e criativa.
Parabéns ao Gonçalo Correia e ao blogue Delito de Opinião que a publicou.
Por falar em fábulas, lembrei-me da seguinte frase de Confúcio: não são as ervas más que sufocam a boa semente e sim a negligência do lavrador.
Portanto, não podemos/devemos deixar as “ervas más” sufocarem-nos.