Presidenciais (5)


Pedro Correia,

 

  

Debate Cavaco Silva-Francisco Lopes

 

Aníbal Cavaco Silva, que há cinco anos jurou defender a Constituição, garantiu esta noite aos portugueses que Portugal não é um país totalmente independente. Há qualquer coisa de paradoxal nesta declaração: um dos deveres do Chefe do Estado consignados na lei fundamental é garantir a independência nacional.

Confusão do candidato apoiado pelo PSD e pelo CDS? Esta é a hipótese mais benigna – e funciona a crédito do opositor de Cavaco no debate da TVI, moderado por Constança Cunha e Sá. Francisco Lopes foi assertivo e contundente. Depois de um começo titubeante com Fernando Nobre e de ter revelado excesso de nervosismo frente a Manuel Alegre, o comunista esteve agora claramente melhor. Colou ao Executivo socialista o Presidente que se gaba de nunca ter vetado um diploma do Governo e incomodou Cavaco com uma alusão ao caso Banco Português de Negócios no dia em que se soube que o Governo tem a intenção de injectar mais 500 milhões de euros nesta entidade falida. Sem meias palavras, lembrou que o ex-presidente do BPN foi “colaborador de Cavaco Silva e financiador da sua última campanha legislativa”.

O tema BPN é nesta campanha claramente o mais incómodo para Cavaco, que agora promete empenhar-se numa “magistratura activa” – o que indicia que terá pecado por passividade nestes seus cinco anos em Belém. Foi, de resto, muito curioso ouvi-lo hoje gabar-se dos seus méritos enquanto primeiro-ministro, entre 1985 e 1995, como se estivesse em causa uma eleição legislativa e não a sua eventual recondução na Presidência da República. Curioso e sintomático.

Lopes foi também eficaz na forma como incluiu Cavaco entre os responsáveis desta crise. “Houve uma acção estratégica com o pior da política do actual governo”, declarou o comunista. No próximo ano – acentuou – “milhões de portugueses vão ficar mais pobres.” E concluiu: “[Cavaco] foi a voz não de Portugal, mas dos especuladores”.

Cavaco Silva, procurando olhar de frente as câmaras, acusou o comunista de “repetir sempre as mesmas palavras”. Na sua perspectiva, “o futuro de Portugal não se trata com radicalismos, com extremismos, com ilusões, com retórica”. Aqueles que – como o candidato do PCP – “insultam os mercados internacionais estão a prejudicar seriamente o País e a lançar mais trabalhadores no desemprego”. Faltou-lhe esclarecer os eleitores como é que Portugal ficará melhor com o Orçamento do Estado para 2011, que ele tão categoricamente apadrinhou. Um orçamento que introduz cortes no subsídio social de desemprego e no abono de família, entre outros, à revelia de tudo quanto o Governo havia prometido.

Foi quase como se José Sócrates estivesse neste debate por interposta pessoa. É incómodo para Cavaco, certamente. Mas as coisas são o que são.

 

Vencedor: Francisco Lopes

 

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Frases do debate:

 

Cavaco – A situação financeira do País é crítica. Exige um Presidente com muitos conhecimentos.

Lopes – O Orçamento do Estado para 2011 é um pacote de afundamento e agravamento das injustiças sociais.

Cavaco – Os portugueses não esquecem quem criou o 14º mês para os pensionistas, quem integrou os trabalhadores agrícolas no sistema geral da segurança social, quem pôs fim a 65 mil salários em atraso na península de Setúbal, quem trouxe a Autoeuropa para Palmela. Quando saí do Governo a dívida externa líquida de Portugal era zero.

Lopes – O povo português não esquece que foi Cavaco Silva quem disse que Portugal iria integrar o pelotão da frente da União Europeia. Estamos no pelotão da frente do desemprego, da decadência, da destruição do aparelho produtivo. Quem assume a responsabilidade por Portugal estar na cauda da Europa?

Cavaco – O futuro de Portugal não se trata com radicalismos, com extremismos, com retórica, repetindo sempre as mesmas palavras. (…) Eu considero-me uma pessoa responsável. Não quero lançar mais portugueses no desemprego. Deus nos livre se o Presidente da República não medir as palavras que usa.

Lopes – Quem não mediu as palavras suficientemente sobre os mercados foi o candidato Cavaco Silva.

 

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A ‘gaffe’:

 

“Nenhum país da Europa é totalmente independente. Somos todos interdependentes.”

Cavaco Silva

45 comentários em “Presidenciais (5)”

    1. Este Pedro Correia é o máximo …
      Cavaco não ganhará nenhum debate…
      O homem já perdeu!!!
      Força Correia… 67% do Povo não está contigo !

      1. Tenha calma, não se excite. Por enquanto o seu candidato ainda só perdeu dois debates. Quanto aos 67% antes da votação, lamento informá-lo que Portugal ainda não é a Bielorrússia.

  1. “surpreendemente” ganhou o xico lopes..ihihihihihhi
    Coitado do cavaco…na opinião deste “cavaco entalado” até com o tino de rans perderia uma qualquer troca de impressões.

    1. Tanta defesa do orçamento para 2011 só pode indiciar que a ‘cooperação estratégica’ está melhor que nunca. Não foi por acaso que o PR nunca vetou uma lei do Governo em cinco anos de mandato.

  2. Da sua análise
    Há uma enorme confusão
    Aquilo não foi gaffe
    É mesmo convicção

    “Perder a independência?
    É a vida,
    tenham lá paciência”
    (Estas palavras Cavaco não disse, mas não estranharei se as vier a dizer…)

    Bom post (embora haja por aí quem não goste…)

    1. Se não houvesse quem não gostasse é que muito me espantaria. Aqui entre nós: nunca imaginei ouvir um chefe do Estado português dizer que Portugal não é um país verdadeiramente independente. Qualquer português pode dizer isto menos o Presidente. Que também pode, mas seguramente não deve.

        1. Obrigado, Ana. Acho verdadeiramente espantoso que o CDS, por exemplo, assista impávido a esta declaração do seu candidato sem se indignar, tendo em conta a profissão de fé soberanista que o partido foi tendo em diversas fases do seu historial.

  3. Pedro, entre os dois venha o diabo e escolha. De qualquer forma, eu pensava que Cavaco ganharia facilmente a Francisco Lopes; mas não, Francisco Lopes é que ganhou, e nas calmas. Houve mesmo alturas em que chegou a ser penoso ver as figuras tristes que Cavaco ia fazendo.

  4. Caro Pedro,

    Lopes entrou a matar com o caso BPN e Cavaco desorientou-se. Recorrer a argumentos da década de 80 e acusações de extremismo só provam o desespero de Cavaco no debate. Isso e não ter respondido ao caso BPN. É o tal jornalismo suave que Cavaco bem conhece e aprecia no seu maior esplendor. Cavaco chegou a mesmo a ser insultuoso ao afirmar que há muitos políticos que falam muito de mercados mas que não percebem nada disso e que devemos ouvir os economistas de serviço. Sem nunca especificar. Aliás, uma característica de Cavaco: inventar sempre um desculpa elegante para não falar.

    1. Pois. Também lhe ficou muito mal sublinhar que FLopes é deputado depois de acentuar que o OE 2011 foi aprovado pelo Parlamento, dando assim a entender que o representante do PCP também fora co-responsável pelo orçamento.

  5. O mandato presidencial que em breve terminará constitui uma excelente imagem da política que se faz em Portugal há bastantes anos. Todos os políticos do ‘arco do poder’ pretendem alargar a sua base de apoio e por isso tem fobia às rupturas e preferem largamente uma paz podre a um combate limpo.
    Foi assim o mandato de Cavaco. É católico, ‘graças a Deus’, dirá, mas promulgou sem questionar o casamento entre pessoas do mesmo sexo.
    Usa da palavra como instrumento da magistratura de influência, e durante cinco anos cooperou com o Governo na criação de condições para o regresso do FMI.
    Lamenta a situação a que chegamos, queixam-se das limitações do cargo que ocupa, para no minuto seguinte se gabar de ter influenciado muito o governo.
    Todos temos consciência de que nenhum candidato a Presidência da República se pode classificar como sendo de direita, e por isso irei votarei em branco.
    Há cinco anos votei convictamente em Cavaco Silva e agora só o voltaria a fazer se sentisse que existia a possibilidade de vir a ter um Presidente radical.
    Gostaria que houvesse uma segunda volta apenas para lhe retirar o brilho da previsível abada que dará aos restantes candidatos.

      1. A essência de activista de Fernando Nobre impede-me de o considerar como possível Comandante Supremo das Forças Armadas.
        Sobram radicais assumidos (Nobre também o poderá ser sem o assumir), o desconhecido de Viana do Castelo de quem nunca me lembro o nome, o voto em branco e a abstenção.
        É triste, mas é o que temos.

        1. Pois. Infelizmente o centro e a direita abdicaram de qualquer alternativa a Cavaco Silva, o que diminuiu o leque de opções. Não admira que Cavaco acabe por ser muito penalizado pela abstenção. E que candidatos como Nobre e até Defensor Moura beneficiem de franjas consideráveis do chamado voto de protesto.

    1. Não tenho a menor dúvida, Rogério. A maioria dos ‘analistas’ tende a considerar vencedor os detentores do poder, seja nas corridas para Belém seja nas corridas para São Bento.
      Além disso adoram bipolarizar. Todos quantos venham perturbar o cenário da bipolarização são automaticamente desvalorizados. Enfim, cada um destes ‘analistas’ tem a credibilidade que merece.

    1. Sim, ‘gaffe’. Quer país mais independente do que a Suíça – independente há séculos, onde ninguém pôs a pata? A Suíça não está na Europa? Podemos falar de outros países, mas fico-me pela Suíça: é quanto basta para se perceber a ‘gaffe’ do candidato Cavaco Silva. Lamentavelmente, o homem que jurou a Constituição esquece o artigo 1º da Constituição: “Portugal é uma república soberana.” E parece esquecer até o artigo 120º, que define os poderes presidenciais: “O Presidente da República representa a República Portuguesa, garante a independência nacional, a unidade do Estado e o regular funcionamento das instituições democráticas e é, por inerência, Comandante Supremo das Forças Armadas.”
      Como é que alguém que afirma não existir nenhum país totalmente independente na Europa consegue em simultâneo “garantir a independência nacional”?

      1. A República portuguesa já foi mais soberana do que o é actualmente, a não ser que a “invasão económica” de que tem vindo a ser alvo por parte do país vizinho não signifique perda de soberania, por conta da deslocalização dos centros de decisão de um grande número de empresas nacionais.
        Ó Pedro Correia! Existe uma grande diferença entre o que está escrito e o que acontece na realidade, e CS correria o risco de ser apelidado de atrasado mental se se referisse ao status quo europeu como se de um cenário da “Alice no País das Maravilhas” se tratasse.

        1. Fernanda, a última pessoa de quem eu espero ouvir dizer que o meu país não é totalmente independente é o Chefe do Estado português. Aliás, se não é totalmente independente para que precisamos nós de um Presidente da República?
          Responda-me com franqueza: a Fernanda imagina o Rei de Espanha a dizer uma ‘boutade’ destas?

          1. Olhe que não, Fernanda: o Rei de Espanha é um monarca constitucional, nada absoluto. Os poderes constitucionais dele são semelhantes aos do Presidente português. Acontece, isso sim, que jamais o imaginaríamos a fazer uma declaração sobre a perda parcial de independência do país semelhante à que o PR português fez.

          2. A Constituição dá-lhe o nome de monarquia parlamentar “em que o Rei arbitra e modera o funcionamento regular das instituições políticas”.

            Resumindo e concluindo “se não os podes vencer, junta-te a eles”.

      1. Está “aqui” onde? O comentário que v. cortou continha apenas isto: “De nabos percebe o sr. Pedro, pelos vistos”. Era uma resposta à sua infeliz observação inicial. V. censurou e agora faz-se de novas. Fica-lhe mal (para não dizer mais…). Só visto!

        1. Você além de nabo é burro. Não vê que continuo a libertar os seus comentários? E para que diabo havia de ‘censurá-lo’? Passa-lhe pela cabeça que tenha medo de si ou seja de quem for?

          1. O «sr. Carlos» já demonstrou que não tem categoria para frequentar esta casa. A partir de agora, fecha a matraca e vai pregar para outra freguesia.

  6. Globalmente, não concordo com a sua análise, embora a respeite, claro. São duas coisas distintas como muito bem sabe, Pedro. É legítimo termos opiniões diferentes e podermos expressá-las, daí este meu comentário.

    A minha não concordância prende-se, essencialmente, com o seguinte: não concordo com um pensamento comunista que defende uma economia estatizada, à boa maneira soviética, muito longe da liberdade de iniciativa privada e da economia de mercado. Sem dúvida que muita coisa tem funcionado mal nas economias ocidentais, mas isso também se deve a erros de actuação dos Estados, sobretudo na utilização dos seus diversos órgãos de supervisão e fiscalização. O BPN, para mim, é o caso lusitano que melhor ilustra isso. Ou seja, práticas fraudulentas são cometidas quando quem as pratica, os principais responsáveis (claro), tem a cumplicidade de quem deveria supervisioná-las/fiscalizá-las, nomeadamente o Banco de Portugal. Ainda sobre isso, a utilização do caso BPN (o seu presidente ter sido “…colaborador de Cavaco Silva e financiador da sua última campanha legislativa”), para mim, não é um argumento sério ou, até mesmo, é repudiável: de baixo nível. Por um lado, Cavaco Silva não exerceu funções no BPN (que eu saiba), nem, por outro lado, exerceu funções no Banco de Portugal, nos últimos anos (que eu saiba).

    Por fim, o pensamento comunista é, por natureza e na sua essência, contra a orientação democrática dos países ocidentais ou de outros países que seguem os ideais democráticos ou, até mesmo, contra gente que defende a liberdade (por exemplo: Liu Xiabo, na China; Guillermo Fariñas, em Cuba), por isso, o candidato comunista (Francisco Lopes é o candidato dessa área ideológica) mostrou, mostra e mostrará (no fundo, defende) essa ideologia que me repugna.

    Adenda: concordo na crítica que é feita a Cavaco Silva por se ter colado, de forma tão evidente, à actuação governativa de Sócrates, que tem sido má demais!

    1. Cavaco é até agora o candidato presidencial que mais se tem colado ao Governo – um dos mais impopulares governos de que há memória. É um facto relevantíssimo que não tem vindo a ser destacado pelos “analistas” do costume. O mais que lhe ouvimos é lamentar-se de não ter sido tão “ouvido” como gostaria nestes cinco anos. É pena que não se tenha lembrado, então, de dirigir uma mensagem aos portugueses através da Assembleia da República a respeito desses assuntos sobre os quais teria gostado de ser mais ouvido.
      Dos cinco candidatos, Cavaco é sem dúvida aquele que garante menos dores de cabeça a Sócrates. Por ser o mais acomodado e previsível. Alguém que diz que Portugal não é um país verdadeiramente independente e que os mercados não se importam com o que nós aqui possamos dizer (mas depois aconselha Francisco Lopes a falar mais baixinho não vão os ditos mercados incomodar-se) é o candidato ideal do primeiro-ministro.
      Quanto ao ‘socialismo real’, ao comunismo, etc, garanto-lhe que esse é um dos temas que mais vezes tenho abordado aqui. Não é o momento de o fazer: limito-me, com a independência de sempre, a analisar cada debate, um a um. Neste, pareceu-me óbvio que Francisco Lopes ganhou. A TVI, lamentavelmente, chamou-lhe ‘Fernando’ Lopes, o que diz muito da qualidade do jornalismo que se vai praticando por cá. Há muito não via um Cavaco tão incomodado num debate televisivo…

  7. No debate de ontem o Francisco Lopes substitui parcialmente (faltou a negociata das acções SLN) toda, mas toda, a classe jornalística que nunca inquiriu Cavaco sobre as suas ligações ao BPN e à capangada (Cadilhe incluído) que o dirigiu até à nacionalização. A “coragem” e a irreverência dos senhores jornalistas lusos murcham subitamente perante a “veneranda” figura.

    1. Razão tinha Cavaco em dizer (segundo a WikiLeaks) que a imprensa portuguesa é ‘suave’. Ele sabe bem do que fala.
      No debate de ontem com FL ao menos não houve ‘suavidades’. Há por aí uns quantos que se indignam quando ouvem alguns candidatos criticar outros. Como se uma campanha eleitoral fosse o chá das cinco no British Club.

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