Leituras


Pedro Correia,

 

«Uma das ironias dos sistemas comunistas foi que, embora os operários manuais constituíssem a classe dominante oficial, um dos castigos habituais para os intelectuais considerados culpados de escritos não-ortodoxos ou de actividades politicamente suspeitas fosse retirá-los das profissões que exigiam uma instrução superior e transformá-los em operários. Paradoxalmente, eram ‘despromovidos’ para a ‘classe dominante’.»

Archie Brown, Ascensão e Queda do Comunismo

(D. Quixote, 2010)

20 comentários em “Leituras”

  1. Contudo, não deixa de ser curioso que na ditadura cubana a “classe dominante” operária esteja bastante mais habituada e habilitada para discutir política que a plebe (não política, claro está) do mundo ocidental.

    Claro que o melhor blogger do ano me vai cair já em cima com questões de partido único e direitos humanos, atitude mais que correcta, mas acima de tudo própria de quem não enxerga o beco sem saída para o qual uma crise financeira e política arrastou o mundo ocidental. Afinal, a existência de fantasmas norte-coreanos e cubanos serve para alimentar a esperança neste mundo (o melhor possível, ou pelo menos o que segue o melhor modelo possível). Não há possibilidade de mudança visto que tudo o que tentou ser mudança falhou, não é verdade?

    1. Discutir política em Cuba? Que política? A do partido único? Espreitando por cima do ombro, não vão os bufos do CDR e da polícia política estar a ouvir, o que custou – por exemplo – os cargos do ex-chanceler Felipe Pérez Roque e do ex-vice-presidente Carlos Lage, destituídos por terem conversado demasiado “livremente” numa festarola de fim de semana? Os direitos humanos para si são pormenor de somenos? Devem ser defendidos na Europa ocidental mas podem ser espezinhados nos regimes dos partidos ‘irmãos?

      1. Experimente ir a Cuba, e não se fique pelos cocktails e piscina nos hotéis bem frequentados. Saia para a rua e converse com gente comum. O único propósito do meu comentário é fazê-lo ver que a gente comum cubana é bastante mais culta e politicamente activa que a gente comum portuguesa. Quanto ao resto, não me ofende nada, até porque simpatizo bastante com a vida e obra de comunistas como Trotski. E deixo-lhe uma dica que reforça a ideia da frase que posta: veja o filme checo (muito crítico do sistema) chamado “Skrivánci na niti”, que trata basicamente de um campo de reeducação para “burgueses”. (Filmado antes da primavera de Praga mas censurado e apenas lançado em 1990)

        O que acho é que a sua necessidade premente de mencionar o falhanço do comunismo espelha o desespero a que chegou o mundo ocidental: a História acabou, mas é impossível que acabe bem e você sabe-o. (Sempre interessante foi a teorização de Marx e mesmo de outros economistas “burgueses” em relação à financeirização do capital… quem valoriza profecias hoje em dia?)

        1. Vinte e um ano após a queda do muro de Berlim você ainda tem dúvidas sobre o falhanço do comunismo? Admito que não dê crédito ao que eu escrevo. Mas sugiro que ao menos dê crédito ao presidente cubano. “O rectificamos o ya se acaba el tiempo de seguir bordeando el precipicio, nos hundimos, y hundiremos (…) el esfuerzo de generaciones enteras”, disse Raúl Castro no seu mais recente discurso em Havana, autópsia antecipada do sistema comunista em Cuba. Gorbatchov disse algo muito semelhante ao chegar ao poder em Moscovo, entre 1985 e 1987. A história repete-se, como dizia Marx. Primeiro como drama, depois como farsa.

          1. O socialismo real está morto e enterrado. O Pedro é que insiste em desenterrá-lo para tornar a era conturbada que começamos a viver como sendo um mal menor.

            O desaparecimento de Cuba enquanto país comunista é, para si, o final da História do final da História. Lembre-se que o comunismo é um projecto global. Eu creio que o Pedro esteja a par do debate no rescaldo da revolução russa sobre as etapas da transição para o socialismo e da necessidade que havia de levar a revolução aos países mais avançados da Europa. Mesmo sozinha, a URSS industrializou-se num passo muito acelerado e deixou de ser um mero estado de camponeses.

            Cuba apesar de estar a cair de podre, não estava certamente pior que o Haiti antes do terramoto. Lembre-se disso.

          2. Mal menor? Pergunte aos checos, aos eslovacos, aos polacos, aos alemães de leste e aos húngaros, por exemplo, se os países em que hoje vivem são um ‘mal menor’ ou bem maior, comparando-os com aqueles em que viviam antes. Infelizmente ainda não é possível fazer uma comparação destas em Havana. E em Pyongyang só a simples pergunta já daria pena de prisão.

          3. Tudo o que o Pedro faz é partir do princípio que o socialismo não será mais que uma projecção do que foi passado.

            O capitalismo, em forma primitiva na época dos Descobrimentos, mais não fez que causar a miséria, destruição e empobrecimento relativo dos outros povos ainda semi-feudais. Se eu nessa altura estivesse a ter uma conversa consigo, em que você fosse pela globalzação do capitalismo e eu defendesse o feudalismo, se eu adoptasse esse modo de argumentação, você não teria hipótese nenhuma de defender o jovem capitalismo, já viu?

            De resto, mesmo para quem defende o capitalismo, nunca é de mais relembrar que foi precisa muita luta para o humanizar. Hoje a norma é aceitar que o capital financeiro vence porque tem de vencer. É por mesmo os que se dizem social-democratas (e que o deixaram de ser no sentido que a palavra tomava há 100 e mesmo há 30 anos) hoje em dia estão num beco sem saída.

          4. Bem, se você acha que os defensores da social-democracia estão num beco sem saída, o que não se dirá dos defensores do ‘socialismo real’, seja na versão chinesa seja na versão cubana (poupo-o a trazer aqui novamente o caso da Coreia do Norte)?

            Sugere você que não devemos partir do princípio de que o socialismo não será forçosamente “uma projecção do que foi no passado”. Sendo assim, gostaria de lhe perguntar se ainda seria legítimo chamar socialismo a esse sistema diferente do ‘socialismo real’ (o único que teve existência material e não virtual, logo o único que é submetido ao decisivo teste do confronto entre as promessas e os factos).

            Gostaria de tê-lo visto comentar a frase que eu trouxe aqui. Uma frase que me parece muito estimulante de um livro recém-surgido em Portugal e que convida à reflexão e ao debate. Sinceramente, lamento que isso não tenha acontecido.

          5. (e se quer mais explícito… sim sou contra o que foi o saneamento da dissidência no socialismo real. assim como acredito que o Pedro fosse contra toda o saneamento dos líderes da esquerda chilena aquando do golpe militar apoiado pelo imperialismo americano…)

          6. (e não adianta dizer “mas tenho exemplos de capitalismo que não foi autoritário… aí eu repesco o exemplos do capitalismo embrionário, em que não havia um exemplo não baseado no saque e na violência.)

            Toda esta matéria pode ser reduzida à fé. Você tem fé no capitalismo, eu tenho fé no socialismo. Até a uma próxima.

          7. Libertei o seu primeiro comentário, desta mais recente série de 3, mas não sei porquê não surge aqui.
            Fica reproduzido a seguir, para que os leitores não percam o fio do seu raciocínio:

            «O Chile de Pinochet não era capitalista apenas porque você não se revia nele? Capitalismo e socialismo são modos de produção. Por isso tenho qualquer problema em me definir como socialista, independentemente dos resultados do socialismo real.

            A via cubana para o socialismo não será a melhor dos mundos. Mas pego novamente no argumento da via para o capitalismo do Haiti, país vizinho de Cuba onde se vivia bastante pior antes da tragédia recente (apesar das “ajudas” do FMI e de ser um quintal liberalizado dos EUA). Se você nascesse na classe baixa haitiana se calhar pensava de outro modo.

            A social-democracia está num beco sem saída. Por mais medidas “progressistas” que o PS e a sua família europeia queiram tomar, estão reféns do Capital. Essa é uma velha história (a social-democracia a vergar ou a humanizar o capitalismo!), que tem todo o interesse dissecar à luz da actualidade.

            Em relação à frase do post propus-lhe duas coisas: o título de um belo filme (que aconselho vivamente, facilmente disponível em torrent) e uma reflexão sobre a classe baixa cubana e portuguesa, que mantenho.»

          8. Bem, uma vez mais cada um fica com a sua. Não considero que se trate de matéria de fé, da minha parte: é apenas a simples e vulgar observação e análise dos factos, que aliás Marx aconselhava.
            Até à próxima polémica, um dia destes.

          9. Reli os comentários todos, no final dos quais saio visivelmente por cima. É preciso ter lata para, depois de ter sido esfolado desta maneira, necessitar de invocar Marx para enunciar o método científico.

  2. Como tenho tantos livros que pretendo ler não sei se algum dia lerei o do post, mas a frase que seleccionou mostra bem a mentira associada à utopia do comunismo e uma das razões da sua queda…

    1. Concordo consigo. É uma frase que toca no ponto certo. Quando a China de Mao Tsé-tung mandou os intelectuais de castigo para as fábricas e os campos e quando a Checoslováquia pós-primavera de 68 mandou os intelectuais rebeldes (e o próprio Dubcek) fazer trabalho “braçal”, isso dizia tudo sobre o desprezo que sentiam pelas classes trabalhadoras.

  3. Caro Pedro,

    Nas escolas acontece o mesmo com os professores: quanto mais sobem, mais longe dos alunos ficam. Muitos sobem nas hierarquias burocráticas do Ministério e nunca mais entram numa sala de aula. Mas se por acaso se portam mal, como aconteceu com o Professor Charrua, como castigo voltam para os alunos e para a escola. Os dois sistemas, o de ensino em Portugal e o comunista na Rússia, têm mais em comum do que as pessoas julgam.

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