Nós, portugueses, contentamo-nos com a retórica. Ouvimos um candidato presidencial que há mais de 30 anos é funcionário de um partido político falar em nome dos trabalhadores e achamos que alguém com um discurso destes só pode ser um profundo conhecedor do mundo do trabalho. Escutamos um primeiro-ministro que se diz socialista acusar a oposição à direita de pretender facilitar os despedimentos e tomamos estas declarações pelo seu valor facial, absolvendo o referido governante de todo o pecado contra o mundo laboral. Aplaudimos uma Constituição que desde 1976 nos proclama a “caminho de uma sociedade socialista” e convencemo-nos de que isto funciona como uma espécie de varinha mágica capaz de nos pôr na rota do progresso.
Pois o primeiro-ministro que ainda há três meses clamava contra a fúria “liberalizadora” da oposição, intitulando-se protector dos trabalhadores, é o mesmo que agora quer estabelecer um tecto máximo para o valor das indemnizações e compensações pagas aos trabalhadores em caso de despedimento”, utilizando o presidente da Confederação da Indústria Portuguesa como seu porta-voz.
Mas podemos estar descansados. O preâmbulo da Constituição da República vai permanecer como está. Continuamos – com 700 mil desempregados actuais e indemnizações mais baixas aos desempregados futuros – a “caminho de uma sociedade socialista”. Seja lá o que isso for.


E a todo o vapor!
O preâmbulo, o preâmbulo. Com a casa a arder, com a crise galopante, com o défice cada vez mais profundo, eles rejubilam com o “socialismo” gloriosamente empalhado no preâmbulo.
As regras que nos estão a permitir sobreviver já há muito que se sobrepuseram às ideologias políticas, sobretudo as de esquerda e também à chamada “terceira via”, defensora do Estado Social.
Contrariamente a Mário Soares ou Freitas do Amaral, que, conjuntamente, apelam à formação de uma força integrando um grupo de países europeus capazes de fazer face (vetando) às directrizes da política económica de Angela Merkel e Sarkozy, penso que será mais importante “trabalhar” no sentido do fortalecimento da moeda europeia capaz de, a longo prazo, puder vir a emparceirar com o dolar. Se a Rússia viesse a adoptar a “nossa” moeda, então poderíamos considerar este facto como um dado adquirido.
A criação de fundos para tudo e mais alguma coisa será susceptível de debilitar a moeda pela sua consequente “produção massificada”.
Lamento, mas não partilho desse seu optimismo, mesmo mitigado. Cada vez me convenço mais que o euro está condenado.
Foi a estocada mais forte que Fernando Nobre enviou ao camarad Chico Lopes, Pedro.
Como é que um funcionário de um partido se pode dar ao desplante de reivindicar para si o estatuto de porta-voz da classe operária?
Touché!
É uma frase certeira, Pedro. Finalmente alguém a disse. Logo saltaram os ‘analistas’ a vergastar Nobre. Detestam ver alguém ‘de fora da política’ a criticar os políticos. Um ponto extra a favor de Nobre.