Todos os nomes – reis e presidentes


Pedro Correia,

 

 

Ao longo de 770 anos da monarquia portuguesa, houve apenas 16 nomes no cargo supremo do Estado – 15 masculinos e um feminino. Concretamente, sentaram-se no trono seis reis de nome Afonso, outros seis de nome João e cinco reis chamados Pedro. Nomes de monarcas foram também Sancho (dois reis), Dinis (um), Fernando (dois), Duarte (um), Manuel (dois), Henrique (um), Sebastião (um), Filipe (três), José (um), Miguel (um), Luís (um) e Carlos (um). Além de duas rainhas chamadas Maria, que ascenderam ao trono por morte ou abdicação de seus pais, D. José e D. Pedro IV.

A implantação da república, há cem anos, permitiu elevar à chefia do Estado alguns nomes próprios que seriam inimagináveis num monarca. Só a república nos deu Teófilos, Sidónios, Bernardinos, Óscares, Higinos e Américos. Só em república alguém chamado Aníbal atingiu o cume da pirâmide do Estado.

Mas o nome mais republicano, aparentemente, é António – único com que foram baptizados presidentes dos três ciclos republicanos ao longo deste quase século. Na I República houve António José de Almeida (1919-23), único presidente que completou o seu mandato durante os anos inaugurais do regime. No Estado Novo, pontificou o presidente António Óscar Fragoso Carmona (1926-51), o de mais longo mandato durante a ditadura. E no regime subsequente ao 25 de Abril de 1974 já vamos em três chefes do Estado com esse nome: António Sebastião Ribeiro de Spínola (1974), António dos Santos Ramalho Eanes (1976-86) e Aníbal António Cavaco Silva (desde 2006).

Curiosamente, sendo António um nome tão português, nunca houve um rei António, legalmente reconhecido como tal, embora D. António, prior do Crato, tenha chegado a ser proclamado monarca em 1580 por sectores do povo, inconformados – ao contrário das supostas elites – com a anexação a Espanha. Já Manuel é um nome comum a reis e presidentes: o primeiro Chefe do Estado em república foi Manuel de Arriaga (1911-15), o último da I República foi Manuel Teixeira Gomes (1923-25). E também tinha esse nome o primeiro líder do regime ditatorial – o marechal Manuel Gomes da Costa (1926).

 

  

 

Nenhum presidente português terá sofrido tanto no exercício do mandato como o almirante João de Canto e Castro. Não só porque ascendeu ao poder quando era ministro da Marinha, na sequência da trágica morte de Sidónio Pais, baleado na estação do Rossio, em Dezembro de 1918, mas também porque era monárquico. E viu-se forçado a reprimir a revolta monárquica de Janeiro de 1919, restabelecendo a legalidade republicana contra as suas convicções mais íntimas. O seu mandato durou dez meses. Morreu 15 anos depois, totalmente retirado da vida política.

No século XIV, Portugal esteve quase a ter uma rainha chamada Beatriz: era a filha única do rei D. Fernando, falecido em 1383. Mas as cortes de Coimbra negaram-lhe essa pretensão, entregando a coroa a uma nova dinastia, protagonizada pelo Mestre de Aviz, D. João I. Outros príncipes reais faleceram antes de chegar a reis: D. Afonso (seria o VI), filho de D. João II, em 1491; D. Teodósio, primogénito de D. João IV, em 1653; D. José (seria o II), filho de D. Maria I, em 1788; e D. Luís Filipe, filho de D. Carlos, em 1908.

Joaquim Teófilo Fernandes Braga (1915), Bernardino Luís Machado Guimarães (1915-17; 1925-26), Sidónio Bernardino Cardoso da Silva Pais (1917-18), José Mendes Cabeçadas Júnior (1926), Francisco Higino Craveiro Lopes (1951-58), Américo de Deus Rodrigues Thomaz (1958-74), Francisco da Costa Gomes (1974-76), Mário Alberto Nobre Lopes Soares (1986-96) e Jorge Fernando Branco de Sampaio (1996-2006) foram os outros chefes do Estado republicanos. Nenhum Sancho, nenhum Dinis, nenhum Duarte. Nem Henrique, Filipe, Miguel ou Carlos. E sobretudo nem vestígio de Maria: até hoje não houve nenhuma mulher na chefia do Estado republicano. Neste ponto a monarquia estava mais avançada.

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Imagens: D. Afonso Henriques (1); Manuel de Arriaga (2); D. Maria I (3); João Canto e Castro (4)

10 comentários em “Todos os nomes – reis e presidentes”

  1. Começa a ser tempo de alargar o sistema de quotas na chefia do Estado. Pelo menos, uma mulher para cada dois homens, que é a “paridade” segundo a fórmula inteligente descoberta pelos nossos deputados.

    1. Começa também já a ser tempo de termos uma mulher na presidência. E um homem remetido à condição de Primeiro Cavalheiro. Curiosamente, tenho lido pouco ou nada sobre este tema nos blogues mais feministas cá do burgo. Curiosa omissão, em tempo de presidenciais. Talvez daqui a cinco anos se lembrem disto.

    2. Apesar de achar que a sua visão é bem intencionada e futurista, não concordo que a participação das mulheres na política deva ser “forçada”. Obrigar a haver uma mulher por cada dois homens pode dar azo a que algumas mulheres se sintam impelidas a seguirem uma carreira política sem terem qualquer vontade e, pode também impedir que homens de valor sejam afastados apenas por serem homens.
      O que tem de mudar é a mentalidade tacanha das pessoas que educam os filhos de uma maneira e as filhas de outra.

  2. O nome António é bem português, mas, na Idade Média, não era nome de guerreiro (nessa altura, os reis eram guerreiros), era mais apropriado a nível religioso. Monges e frades eram Antónios e, como diz, o único a ser proclamado monarca era prior.
    Mais tarde, talvez não tivesse sido nome nos círculos “nobres”, seria mais popular (havia diferenças destas).

  3. Tiro-te o chapéu mais uma vez, por este levantamento! Mas não deixa de ser irónico que, se recuarmos mais (bastante mais, aliás) na história universal, vamos encontrar dois nomes grandes da antiguidade clássica nos nossos actuais dirigentes: Aníbal (general e estadista cartaginês) e Sócrates (filósofo grego). Ambos estrangeiros e ambos a anos-luz dos seus homónimos portugueses. Será talvez prenúncio de FMI à vista…

    1. À escala portuguesa qualquer dos nossos compatriotas honrou os pergaminhos dos ilustres antecessores. Sócrates, este, honrou a tradição do mestre da cicuta proferindo também tiradas célebres, das quais destaco duas: “Porreiro, pá” e “Este governo não aumentará impostos”. Aníbal de Belém seguiu o exemplo do Aníbal general: um atravessou os Alpes num elefante, o outro atravessou a Serra do Caldeirão numa lambreta.

      1. Apesar de tudo, não se comparam: o homem da lambreta atravessou a serra dos preconceitos seculares portugueses, que é altíssima, e veio de uma bomba de gasolina algarvia até ao Palácio de Belém, tendo o mérito como único padrinho. É obra.

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