SIDNEY POITIER
Muito antes de os EUA sonharem sequer que teriam um presidente mestiço, um actor negro nascido nas Bahamas conseguiu uma proeza impressionante: um Óscar de Hollywood pelo melhor desempenho masculino em Lírios do Campo (1963). Precisamente no ano em que Martin Luther King fazia um dos mais belos discursos de todos os tempos, declarando em Washington que sonhava com um mundo onde os homens não pudessem ser julgados pela cor da pele.
Sidney Poitier estava então para o cinema como Barack Obama está hoje para a política. Impôs-se desde muito jovem em filmes como No Way Out (Joseph L. Mankiewicz, 1950), Sementes de Violência (Richard Brooks, 1955) e Um Homem tem Dez Metros de Altura (Martin Ritt, 1957). Contracenou com Paul Newman, Tony Curtis, Glenn Ford, Richard Widmark – todas as vedetas da época. E continuou a romper barreiras raciais em filmes como Adivinha Quem Vem Jantar e No Calor da Noite, ambos de 1967. Neste, ficou célebre uma réplica sua a Rod Steiger, que fazia de polícia racista: “Chamam-me Mister Tibbs.” Uma das frases mais memoráveis do cinema, pronunciadas pelo senhor Poitier. Antes dele, os negros em Hollywood apenas podiam ser mordomos, porteiros de hotel ou pianistas de bar. Depois dele, puderam ser tudo.
Nasceu a 20 de Fevereiro de 1927 (tem 83 anos).


Em tempos um velho príncipe da Advocacia, já desaparecido, explicou-me que ser aristocrata não é uma questão de berço, é um estado de espírito. Este Senhor é um excelente exemplo.
Tem piada: uso com frequência uma imagem semelhante (ainda que mais modesta). Há muito tempo que costumo tentar classificar para mim próprio personagens da vida pública (políticos em especial), que divido (quase como o velho Marx, imagine-se) em “urbanos” e “rurais”. Mas faço-o com dois sublinhados:
— nenhuma das duas características deve representar um defeito, pois a apetência para qualquer delas só depende do gosto do observador;
— ser-se “urbano” ou “rural” não depende forçosamente da geografia do nascimento ou do berço, mas da formatação intelectual ou estado de espírito.
Um homem em quem a idade demorou visivelmente a instalar-se.
Lembro-me de ser rapazinho e o meu Pai embirrar com ele. Na verdade, acho que embirrava mais com os filmes, porque dizia (com verdade) que ele só protagonizava argumentos em torno do racismo e que isso era um tema muito distante e com pouco sentido para nós, portugueses.
“um tema muito distante e com pouco sentido para nós, portugueses” – como as pessoas se enganam…
Longe de mim criticar o seu pai, que não conheço, mas a verdade é que, em Portugal, as pessoas andaram a pensar durante muito tempo que o racismo não tinha nada a ver connosco, que nós éramos um bom exemplo de, digamos, “colonização amigável”!!! Na minha opinião, um caso típico de recalcamento colectivo (no sentido de que se recalcam as coisas que nos incomodam).
Resta-me louvar esta homenagem de Pedro Correia. Boa lembrança!
E a mim resta acrescentar que o meu Pai não sofria de qualquer recalcamente. Tinha as suas opiniões, mais ou menos enquadradas por uma época que também era dele, sem que isso alguma vez lhe toldasse uma imensa lucidez. Sobretudo, gostava de formar opinião própria e cultivava convicções.
Quanto a mim, a verdade é que o preconceito existia profundamente e até estava institucionalizado em muitos lugares, a começar pela África do Sul, mas Portugal nunca cultivou tal segregação (antes pelo contrário). Contudo, como é óbvio, esta leitura nada retira à sua própria opinião, Cristina.
Caro João Carvalho, longe de mim pôr em causa a lucidez do seu pai. O recalcamento que referi não era no aspecto pessoal, mas colectivo, social.
No fundo, é o seguinte: Portugal cultivou, durante muito tempo, uma imagem de solidariedade para com todos os povos e raças, que, hoje sabemos, não correspondia 100% à realidade. Claro que nunca impôs um regime de segregação, como o da África do Sul, nem nunca caiu nos exageros racistas americanos. Era com certeza isso que o seu pai queria dizer com “um tema muito distante e com pouco sentido para nós, portugueses” e que eu, admito, num primeiro momento, entendi mal.
Porém, sob a capa dos “brandos costumes”, fizeram-se muitas crueldades nas colónias, actos que se insistiam em esconder e negar. Era a esse “recalcamento” que eu me referia, com o qual, obviamente, o seu pai nunca teve nada a ver.
Nem me passou pela cabeça que me tivesse entendido mal, Cristina. Ambos percebemos quando os pontos de vista são discutidos com elevação. Como já disse, o seu merece todo o respeito e não está em total contradição com o meu. Na época é que não havia informação bastante, como sabe.
Vi há uns anos, produzida já nem me lembro por qual revista americana, uma listagem dos 100 homens mais elegantes do século xx. Estavam lá Cary Grant, George Clooney, Hamid Karzai, etc. Recordo-me de ter pensado “Ora, uma lista destas que não inclua Sidney Poitier não me merece qualquer crédito”.
O que você me fez rir já com essa, que eu não conhecia, de o Karzai integrar o elenco das figuras mais elegantes do século XX. Extraordinário.
Concordo absolutamente, João Sousa. Sidney Poitier tem uma classe, um charme e uma elegância naturais que são raros. Uma lista dessas sem ele não vale um caracol. Mas essas listas valem o que valem, reflectem só o gosto de quem as faz.
Isso mesmo, Ana.
Uma justa homenagem.
Penso o mesmo. Poitier, além de um grande actor, também uma vida exemplar no plano cívico.
Em 1967, Sidney Poitier viajou até Londres. Aí, protagonizou um excelente filme, The sir , with love », que em português se chamou «O ódio que gerou o amor». Era a história que tinha como principais intérpretes Poitier e Judy Geeson.
Ele era um professor e carregava o estigma da cor da pele, ela uma aluna, loira e de uma grande beleza. Mais de 40 anos passados ainda me lembro da interpretação de Sidney Poitier e da paixão que a Judy Geeson despertou em mim. Paixão que tem estado adormecida, mas que este post sobre um dos mais fantásticos actores americanos veio despertar.
Obrigado, Pedro.
Ainda bem que gostaste, caríssimo. Obrigado, uma vez mais, pela tua achega.
Um grande abraço.